Al Gore faz alerta ao Brasil se emissões de gases não forem reduzidas: 'Fisiologicamente inabitável'
Prêmio Nobel da Paz em 2007 por suas ações contra o aquecimento global participou de evento no Rio, preparatório para a COP-30
Praticamente metade do território brasileiro será inabitável até 2070 se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas imediatamente. Isso significa dizer que, em grande parte do País, incluindo os Estados do Amazonas e do Pará, e até mesmo a capital, Brasília, um ser humano não poderá ficar ao ar livre por mais de quatro horas seguidas sem morrer de calor. Os dados foram apresentados nesta sexta-feira, 15, pelo vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2007, o ambientalista Al Gore, em palestra no The Climate Reality Project, no Rio.
"Nas áreas tropicais do globo vivem três bilhões de pessoas que sofrerão com calor e umidade insuportáveis se as temperaturas continuarem subindo", afirmou Al Gore. "Com essa combinação de calor e umidade extrema, o corpo simplesmente não consegue se resfriar. A previsão é de que até 2070, todo o Estado do Amazonas e do Pará, e também Brasília, ficarão inabitáveis. Isso significa dizer que o ser humano não aguenta ficar por mais de três ou quatro horas ao ar livre. Ou seja, muito do Brasil será fisiologicamente inabitável para seres humanos, precisamos prestar atenção nisso."
Os dados compilados por Al Gore e apresentados em uma palestra que durou mais de duas horas mostram que a temperatura no Brasil vem aumentando acima da média global. Foram 3ºC desde a década de 1960, afirmou Gore, citando recordes de temperatura registrados nos últimos anos no País. Em 18 de março do ano passado, a sensação térmica no Rio bateu inimagináveis 62,3ºC, dada a combinação de altas temperaturas com umidade extrema.
"Na década de 1960, o Brasil tinha sete dias de onda de calor por ano", afirmou o ambientalista. "Agora, a média é de 52 dias por ano, ou seja, mais de sete vezes mais."
Gore explicou que 93% do calor retido pela atmosfera terrestre pelos gases do efeito estufa estão indo para os oceanos.
"Esse calor nos oceanos é catastrófico", afirmou. "Quando as temperaturas aumentam nos oceanos, há um aumento também da evaporação, provocando um desequilíbrio no ciclo hidrológico; o ar mais quente, por sua vez, retém mais umidade, provocando chuvas torrenciais em espaços curtos de tempo."
O fenômeno, que Al Gore chamou de "chuva-bomba", já causou danos no País, como no caso das enchentes no Rio Grande do Sul no ano passado, que deixaram 169 mortos e pelo menos 600 mil desabrigados. De acordo com os dados compilados por Al Gore, desde os anos 1980 a ocorrência de enchentes dobrou no Brasil.
"Tudo isso foi previsto", lembrou o ambientalista. "Não deveríamos estar surpresos porque os cientistas nos alertaram e nos imploraram para parar de usar o céu como repositório para toda essa poluição que estamos gerando."
O mesmo calor que aumenta a evaporação dos oceanos também está ressecando o solo, provocando secas extremas. "Há 50 anos, quando me disseram que enchentes e secas iam aumentar na mesma proporção, eu tinha dificuldade de acreditar", lembrou. "Como pode ser isso? Mas é exatamente isso."
De acordo com o levantamento do especialista, apenas nos últimos dois anos 60% do território brasileiro foram afetados por fortes secas. Com calor e seca, aumenta também a ocorrência de incêndios. Foram 346 mil pontos de incêndio na Amazônia em 2024.
"A queima de combustível fóssil provoca dois tipos de poluição", citou Al Gore. "O primeiro é o que vai para a atmosfera, provocando o aquecimento global; o segundo é a poluição de particulados. Essa fumaça causa mais hospitalizações do que qualquer outro tipo de poluição, são 8,7 milhões de pessoas por ano."
Ex-vice-presidente do governo de Bill Clinton, Al Gore lembrou que em setembro do ano passado, por alguns dias, São Paulo foi considerada a cidade com a pior qualidade ar do mundo.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as mudanças climáticas são a maior ameaça à população global. Além das doenças respiratórias, uma série de outras enfermidades está relacionada ao aumento das temperaturas, como o surgimento de novas doenças infecciosas, doenças provocadas por mosquitos, cólera, hepatite, disenteria, febre tifoide, leptospirose, entre muitas outras.
Estimativas mostram que 50% de todas as espécies terrestres devem desaparecer neste século. As previsões indicam ainda uma redução de 90% da biodiversidade do Brasil e de até 77% do pescado.
"Mas temos a solução em nossas mãos, temos tudo o que precisamos para reduzir 50% das emissões em dez anos", afirmou Al Gore. "As energias solar e eólica tiveram um aumento exponencial e os custos estão caindo muito rápido."
No Brasil, o uso da energia solar mais que dobrou nos últimos dois anos. Pelas contas de Al Gore, se o País ocupasse apenas 0,1% de seu território com painéis solares, pode suprir toda a sua necessidade energética.
"Não temos tempo para desespero climático", afirmou Al Gore. "O antídoto para o desespero climático é a ação climática."
De acordo com estudos mais recentes, no momento em que as emissões de gases do efeito estufa forem zeradas, a temperatura para de subir em muito pouco tempo, algo em torno de 3 a 5 anos. Em 30 anos, calcula-se que metade do CO2 retido na atmosfera já terá sido retirado.
"Temos que desligar esse termostato agora", disse Al Gore. "O mundo depende disso; e temos tudo de que precisamos: tecnologia, planos, capacidade, só não temos vontade política. Mas eu gostaria de lembrar que a vontade política é um recurso renovável".