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'Indígenas são vistos como pobres e não contam para o PIB’, critica líder indígena Raquel Tupinambá

Bióloga e ativista trouxe à tona impactos sofridos por povos indígenas em territórios com a evolução da industrialização

1 set 2026 - 12h34
(atualizado às 12h40)
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A líder indígena e bióloga Raquel Tupinambá trouxe à tona o processo de colonização vivido pelo Brasil, onde ocorreram políticas de transformação dos povos indígenas durante o Encontro Futuro Vivo. De acordo com ela, este acabou se intensificando com o processo de modernização e industrialização do Brasil, que culminou na invasão de territórios indígenas. 

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“Vimos estradas sendo abertas e a destruição de muitos povos e comunidades. Também tivemos a chegada intensa das indústrias, como a exploração de madeira e as hidrelétricas, que causaram muita destruição nesses povos. Esse modo de vida do território onde tem um rio fluido e água limpa, alimentos sem venenos, não conta pro PIB. Nós somos vistos como pobres, todos os indígenas de territórios são enquadrados no Bolsa Família como pobreza extrema. É essa lógica que opera no sistema capitalista. As pessoas do território também são vistas como mão de obra barata”, explicou. 

Raquel foi uma das convidadas do Encontro Futuro Vivo nesta terça-feira, 1o, realizado na capital paulista. Ela tornou-se a primeira doutora do povo Tupinambá, no Baixo Tapajós, defendendo sua tese, que une ciência e saberes ancestrais, na Aldeia Surucuá, no Pará. 

O painel “O futuro é Amazônico” também contou com a participação de Ilona Szabó (cofundadora do Instituto Igarapé), Maria José Cruz (líder comunitária e presidente da associação agroflorestal SEMEAR) e Marina Hirota  (cientista do sistema terrestre e especialista em Amazônia). 

Líder indígena Raquel Tupinambá participou da mesa O Futuro é Amazônico
Líder indígena Raquel Tupinambá participou da mesa O Futuro é Amazônico
Foto: Adrielle Farias/Terra

A cientista Marina Hirota ressaltou o papel da floresta amazônica na manutenção do meio ambiente como um todo, levando em consideração o sequestro de CO2 realizado pelas árvores do bioma. “O estoque de carbono da Amazônia é permanente”, destacou. “Mas é muito difícil falarmos sobre um ponto de não retorno na Amazônia. Existem diferentes Amazônias em ameaça por diferente perturbações”, completou. 

“O que aconteceu em 2023 e 2024 em relação ao El Niño pode ocorrer de forma diferente agora.Mas não sabemos quando ocorrerá nem como. O fenômeno está forte, e os impactos e a mitigação desses impactos dependerão de uma forma muito coletiva, de uma preparação para fenômenos futuros”, acrescentou a cientista. 

Para a líder comunitária Maria José, o olhar que os povos da Amazônia têm com a floresta tem sido diferenciado nos últimos anos. A bioeconomia se tornou um dos processos mais presentes no dia a dia dessas comunidades, que usam matéria-prima da própria floresta para manter a economia de subsistência dos moradores desses locais. As mudanças climáticas, no entanto, vêm dificultando esse processo. 

“Vivemos no dia a dia os impactos ambientais. Há cerca de 6 anos, se iniciou um desmatamento bem ativo, percebemos um calor que aumenta mais conforme chega o verão, e um ar rarefeito diferente do que a gente vivia. Essa floresta impacta tanto na conservação das nascentes quanto na manutenção de frutos, para os animais que precisam se remanejar para outras áreas. Dentro da floresta temos grande capacidade de produção tanto para alimentação, quanto para medicina. Por isso, é importante termos essa consciência de preservar e cuidar da natureza”, declarou. 

Questionada sobre os desafios da tecnologia em meio à manutenção da natureza, Maria José ressaltou que a criação de aplicativos específicos pode ajudar no dia a dia das populações amazônicas.

“A tecnologia ajuda quando cria aplicativos que identificam focos de incêndio para que possamos combater, quando disponibiliza aplicativos nos quais a gente pode identificar áreas de coleta de semente e isso facilita muito nosso acesso porque a gente sabendo o local, a época onde a espécie está produzindo, a gente não perde tempo”, afirmou.

'Junto com o colapso vem a destruição', diz Gaya Herrington ao alertar sobre o futuro do planeta:

Já Hirota defendeu a criação de sistemas de alerta de seca e de chuvas fortes, por exemplo, e que a inteligência artificial pode servir de aliada a essas implementações que auxiliam nos cuidados da natureza.

“Os cupins vão fazer isso, vai ter uma desova dessa espécie de peixe. E, quando ocorrer uma seca, as comunidades podem se preparar. Como a gente se conecta a essa tecnologia para a gente conseguir de fato propor soluções inovadoras e que nos ajudem?”, questionou. 

Para Raquel, a tecnologia tem desempenhado um papel fundamental na bioeconomia, mas, pensando nas biorregiões defendidas pela pesquisadora Gaya Herrington, é preciso pensar soluções voltadas para as comunidades.

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“Meu pai contava que quando ele era criança, a avó dele trocava carne por outros frutos, que hoje foram abandonados e são dados apenas aos animais. Essa colonização também trouxe isso com os produtos industrializados. Essa tecnologia tem que ajudar essas comunidades, sem necessariamente exportar”, completou.

Fonte: Portal Terra
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