Brasil tem que tirar da cabeça que é uma falha em relação ao mundo rico e perder essa ideia maluca de querer ser EUA, diz Eduardo Gianetti
Cientista social, economista e escritor participou do Encontro Futuro Vivo nesta terça-feira, 1º
O Brasil tem que perder a ideia maluca de querer ser como os Estados Unidos, e tirar da cabeça que é uma falha com relação ao chamado mundo rico. É o que afirma o cientista social, economista e escritor Eduardo Giannetti, que participou do Encontro Futuro Vivo, em São Paulo, nesta terça-feira, 1º. Ao Terra, ele comentou sobre a falha de o sistema econômico não precificar os custos ambientais e avalia que o Brasil, com seu potencial ambiental, cultural e efetividade preservada, tem muito a ensinar ao mundo.
O Encontro Futuro Vivo reúne especialistas e lideranças que são referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e no mundo; assista ao encontro
Gianetti argumenta que o brasileiro precisa se livrar de um certo colonialismo mental no qual se coloca como inferior a outras nações estrangeiras. Ele cita o caso dos Estados Unidos, onde o “americano de renda mediana” está entre os 5% mais ricos do planeta e, mesmo assim, vive sob o estigma de ser medíocre e fracassado em seu país. “Eles falharam ambientalmente e mentalmente”, aponta,
Como explica, é um paradoxo: “Em uma economia que é tão rica, você tem um fenômeno demográfico hoje que são as mortes por desespero. É uma proporção significativa de jovens de 18 a 50 anos que perde o horizonte de vida, passa a recorrer a opioides, abuso de drogas, alcoolismo, suicídio aumentando muito, depressão…”.
Ele aponta como um sinal de erro a sociedade norte-americana acabar se identificando com alguém como Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. “Uma figura que do ponto de vista do meio ambiente é um enorme retrocesso, que é um negacionista, acha que não há nada de errado com o mundo do combustível fóssil e está fazendo uma aposta errada, até economicamente, para os Estados Unidos”, aponta.
O que o economista explica é que “a China está apostando no futuro”, como com relação na busca por transição energética e ações do tipo, enquanto “os Estados Unidos estão apostando no passado”. “Eu acho que a sociedade americana está vivendo um momento muito, muito sério e eu diria que tem aspectos quase incontornáveis de uma sociedade doente”.
Considerando o cenário, ele entende que o Brasil precisa buscar outro caminho e não, necessariamente, ser como “os outros”. Por mais que o Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano cresça, por exemplo, o economista explica que isso não é sinônimo de sucesso. E que muitas mudanças culturais positivas podem acabar sendo camufladas por não serem 'percebidas' pelo sistema.
“O sistema econômico não leva em conta o impacto ambiental das nossas escolhas como consumidores”, entende. O que Gianetti explica é que há um “ponto cego” que, se não corrigida, não vão nos tirar da situação de crise socioambiental. “Os preços vão ter que mudar. Vão ter que ficar mais caros na medida que são onerosos para o meio ambiente”, afirma.
E como mudar isso? “É difícil imaginar que um país isoladamente vai mudar o sistema de preços para colocar os custos ambientais no preço dos bens e serviços. Eu acho que isso passa por algum arranjo internacional e um acordo’, compreende.
O estudioso cita como exemplo movimentações embrionárias como a Europa taxar produtos que têm pegada de carbono muito alta. “Acho que vai haver um movimento coordenado. O sistema de preços vai ter que ser sensível ao impacto ambiental das escolhas dos consumidores e dos produtores. Comprar energia limpa tem que ser mais barato, porque não emite, do que comprar energia fóssil ou termoelétrica.Tem que ser muito mais caro, porque você tem que dar o preço do custo ambiental que você está impondo”, explica.
Sobre o Brasil, ele entende que há uma espontaneidade e afetividade que faz parte da nossa herança afro-indígena que pode levar a sociedade a caminhos positivos. O que é preciso é que isso se torne em algo que seja economicamente construtivo para melhoria da vida.
Encontro Futuro Vivo
A segunda edição do Futuro Vivo acontece nesta terça-feira, 1º, no Teatro Vivo, em São Paulo, com o intuito de debater caminhos possíveis para uma transição -- nas áreas ambientais, sociais e tecnológicas -- que coloque pessoas e natureza no centro das decisões. Na primeira edição, o foco foi em apresentar desafios das crises do presente e sonhos do futuro. Já este ano o foco é a travessia.
Com curadoria da Mandalah, consultoria global em inovação consciente, saúde mental, educação, cultura, economia e liderança também são temas abordados ao longo de painéis. O Terra transmite ao vivo a partir das 9h no site e no Youtube. A programação segue até 18h.
Marcam o evento nomes como o medico e neurocientista Miguel Nicolelis; a escritora mineira Conceição Evaristo; a educadora e pesquisadora da ecologia da mente Nora Bateson; a econometrista e especialista em economia do bem-estar Gaya Herrington; o escritor amazonense Milton Hatoum; e a líder indígena Raquel Tupinambá.
O encontro começou com apresentação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), que tocou Clube da Esquina nº 2. Depois, Christian Gebara, CEO da Vivo, abriu os painéis apresentando um panorama com dados sobre aspectos em torno da crise climática, mudanças tecnológicas na sociedade e transição verde.
Ele também apresentou avanços da empresa em suas principais metas de longo prazo em diversidade, circularidade, clima e biodiversidade. Foi evidenciado o compromisso histórico e pioneiro no setor para proteger e regenerar uma área de mais de 800 hectares da floresta Amazônica pelos próximos 30 anos, a chamada Floresta Futuro Vivo. A meta é plantar 900 mil árvores.

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