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Fangio, campeão em 4 times diferentes, ainda é o melhor

Schumacher tem sete títulos, Hamilton está à beira de alcançá-lo, mas nenhum dos dois superou o argentino Fangio no número de equipes

29 out 2020
18h52
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Juan Manuel Fangio, em 1958, ano de sua aposentadoria na Fórmula 1.
Juan Manuel Fangio, em 1958, ano de sua aposentadoria na Fórmula 1.
Foto: Divulgação

O feito de Lewis Hamilton no GP de Portugal, tornando-se recordista em vitórias na Fórmula 1, suscitou novamente a discussão sobre o dito “maior piloto de todos os tempos”. Por mais que essa disputa contenha altas doses de subjetividade, alguns parâmetros podem servir para nortear as reflexões. 

Aqui no Parabólica, nesta semana, Lito Cavalcanti trouxe um desses elementos: o percentual de vitórias de Juan-Manuel Fangio, muito maior que de qualquer outro campeão. Para não ficar restrito a números, o debate pode agregar outra variável na qual o argentino também domina os colegas: o número de equipes pelas quais foi campeão.

Foram quatro: Alfa Romeo, Maserati, Mercedes e Ferrari. 

Pela equipe Mercedes, Fangio conquistou os títulos de 1954 e 1955.
Pela equipe Mercedes, Fangio conquistou os títulos de 1954 e 1955.
Foto: Divulgação

Com a Alfa Romeo, foi campeão em 1951. No ano seguinte, sofreu o acidente mais grave de sua carreira, em Monza, em circunstâncias inimagináveis para os dias de hoje. Fangio estava em Paris e precisava pegar um avião para a Itália, local da prova. Condições meteorológicas impediram o voo, e Fangio dirigiu 700 km da capital francesa até Monza. 

No dia seguinte à viagem, cansado, bateu seu Maserati em um treino, foi arremessado para longe do carro, ferindo-se gravemente. Passou quarenta dias internado e mais cinco meses tratando as lesões. Ele tinha 41 anos e aquele parecia o ponto final em uma carreira ultra vitoriosa que havia começado antes da Segunda Guerra Mundial. Mas Fangio se recuperou e voltou a correr em 1953, ainda pela Maserati. 

Em 1954, outra situação esdrúxula para os dias atuais. Fangio já tinha firmado contrato com a Mercedes, mas a equipe alemã não conseguiu aprontar o carro a tempo para o início da temporada. Assim, Fangio disputou as primeiras duas provas pela Maserati. Venceu ambas. Na terceira, transferiu-se para a Mercedes, e também venceu. Venceria outras três vezes pela Mercedes naquele campeonato, tornando-se campeão pela equipe em 1954 e também em 1955. 

Nas 24 Horas de Le Mans, Fangio competiu pela Mercedes, que abandonou as pistas após acidente que matou 84 pessoas
Nas 24 Horas de Le Mans, Fangio competiu pela Mercedes, que abandonou as pistas após acidente que matou 84 pessoas
Foto: Divulgação

A temporada de 1955 foi marcada pelo acidente que, até hoje, é considerado o pior da história do automobilismo. Na tradicional 24 Horas de Le Mans, 84 pessoas morreram depois de uma batida envolvendo vários carros, após a qual partes voaram para a arquibancada, atingindo dezenas de espectadores. Um dos pilotos mortos foi o francês Pierre Levegh, correndo a prova pela Mercedes, assim como Fangio. Naquela época, diferentemente de hoje, pilotos de Fórmula 1 também participavam de provas de outras categorias. 

O evento foi um trauma em diversas dimensões. Ao final dessa temporada, a Mercedes decide abandonar as pistas, e Fangio aceita um convite para pilotar pela Ferrari, com a qual vence o campeonato de 1956. No ano seguinte, depois de vários desentendimentos com Enzo Ferrari por conta de salário e organização da equipe, volta para a Maserati e conquista seu quinto e último título.

Era uma época peculiar, na qual pilotos transitavam entre categorias (em busca sobretudo dos prêmios oferecidos por elas, diga-se de passagem) e eventualmente enfrentavam situações como a de estar contratado por uma equipe e correr por outra. No entanto, essa multiplicidade de equipes vivenciada por Fangio não era tão comum. 

O primeiro campeão da história, Giuseppe Farina, construiu toda sua carreira basicamente entre Ferrari e Alfa Romeo. Alberto Ascari, campeão em 1952 e 1953, foi basicamente um piloto ferrarista (disputou 27 de seus 33 GPs pela Ferrari). O mesmo vale para Mike Hawthorn (35 corridas pela Ferrari, de 47 disputadas). O inglês Stirling Moss, contemporâneo de Fangio que nunca foi campeão, transitou mais por diversos times, dividindo sua carreira principalmente entre Maserati, Vanwall, Lotus e Cooper. Mas, não foi campeão.

Fangio, competindo pela Maserati, em Mônaco.
Fangio, competindo pela Maserati, em Mônaco.
Foto: Divulgação

Os dois recordistas em títulos na história da Fórmula 1 – Michael Schumacher e Lewis Hamilton – têm trajetórias parecidas entre si. Ambos conquistaram seus títulos por duas equipes diferentes (Schumacher, pela Benetton e pela Ferrari; Hamilton, pela McLaren e pela Mercedes). Outra similaridade entre eles está no amplo período de dominação estabelecido na segunda parte da carreira (Schumacher com 5 títulos pela Ferrari; Hamilton muito provavelmente conquistando o sexto título pela Mercedes neste ano). 

O fato de terem criado raízes e se tornado tão prevalentes em suas equipes parece ter criado, para Schumacher e Hamilton, um ambiente de segurança, com amplo conhecimento das pessoas e dos processos nos respectivos times. É difícil imaginar uma situação qualquer, fosse nos tempos do alemão ou do inglês, em que eles pudessem ser tão bem-sucedidos em outros times contemporâneos às super vencedoras Ferrari e Mercedes. 

É claro que o domínio acachapante das duas tornaria até irracional essa eventual busca em outros times. Fangio não vivenciou uma fase semelhante em sua carreira. A Fórmula 1 funcionava de outra forma naquele tempo, com muito mais paridade entre os times. No entanto, parecia ser ele o fator de desequilíbrio, fazendo as conquistas penderem para o lado que ele estivesse, fosse com os italianos ou com os alemães.

Encontro de campeões: Senna reverencia Fangio, cercados pelos campeões James Hunt, Jackie Stewart, Denny Hulme (em pé), Piquet e Brabham (sentados).
Encontro de campeões: Senna reverencia Fangio, cercados pelos campeões James Hunt, Jackie Stewart, Denny Hulme (em pé), Piquet e Brabham (sentados).
Foto: Divulgação

Em 1992, com 81 anos, Juan-Manuel Fangio esteve no Brasil, como embaixador da marca Mercedes-Benz. Compareceu a uma entrevista coletiva para um grupo seleto de jornalistas, em São Paulo. Naquele dia, comentou essa façanha, de ter sido campeão por quatro equipes diferentes, e lembrou do aspecto que lhe pareceu mais desafiador nessa jornada.

Acostumado com o comportamento expansivo e com as manifestações efusivas de alegria dos italianos, após cada vitória, o argentino estranhou o fato de, em 1954, ao estrear com uma vitória pela Mercedes, ser cumprimentado com frieza pelos alemães da equipe. Chegou a pensar que tinha cometido algum erro durante a prova. 

Cabisbaixo, foi se trocar em um canto do box que servia como uma espécie de quarto de descanso. Ali, sobre uma pequena mesa, Fangio, que era ídolo de Ayrton Senna e também admirava muito o brasileiro, encontrou uma rosa e um bilhete de agradecimento do chefe da equipe. Entendeu que era daquela forma que os alemães manifestavam sua gratidão e seu respeito. Aprendeu a se haver com eles, adaptou-se. Como poucos, aliás. Como nenhum outro, para ser mais precisa.

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