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Arábia Saudita corre contra o tempo para ter o seu GP

A Arábia Saudita se comprometeu com um cronograma apertado para fazer o seu GP. Vai conseguir, mas daquele jeito...

23 nov 2021 11h05
| atualizado às 11h05
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4 visões de Jeddah em 19 de novembro
4 visões de Jeddah em 19 de novembro
Foto: @saudiarabiangp / Twitter

Em novembro de 2020, a F1 anunciou um acordo de 10 anos para que a Arábia Saudita se tornasse a mais nova nação a sediar uma corrida da categoria. Um belo projeto foi apresentado e prometia ser a pista de rua mais rápida da história, às margens do Mar Vermelho, em Jeddah: pouco mais de 6 km de extensão e 3 zonas de acionamento do DRS.

Este foi mais um passo da categoria ao Oriente Médio, que tem investido bastante em esporte nos últimos anos. Países como os Emirados Árabes e o Qatar vem fazendo pesados investimentos no futebol e outros lugares, incluindo o esporte a motor. Anos atrás, o Bahrein se tornou dono da McLaren e o fundo Mubdala (Abu Dhabi) tinha parte considerável das ações da Ferrari. A Arábia Saudita foi a última a entrar neste caminho, motivada pela busca de diversificação de suas atividades, tão dependentes do petróleo, bem como de melhorar a imagem do país para o mundo ( o que muitos chamam de “sportwashing”, ou “limpeza esportiva”).

No caso da Arábia Saudita, não se trata a primeira incursão na categoria. No fim da década de 70, Frank Williams conseguiu convencer os príncipes locais, então empanturrados de dólares gerados pelo petróleo, a investir em sua equipe. De um singelo adesivo da empresa aérea estatal na asa traseira do March 761B em 1977, o carro da equipe inglesa foi tomado por uma ampla gama de empresas sauditas, que iam da administração do aeroporto da capital até a uma das empresas da família Bin Laden, passando pela Technologie D’Avant Gard. Ou simplesmente TAG, de um tal Mansour Ojjeh, que posteriormente se bandeou para a McLaren.

O anúncio da corrida em Jeddah marcou um novo passo nesta “segunda onda’. A entrada foi a entrada da estatal petroleira Aramco como uma das patrocinadoras da F1. Maior produtora de petróleo do mundo, a empresa viu a categoria como uma maneira de vender uma nova imagem, mais moderna e menos poluidora. Veio o anúncio da corrida e posteriormente, o fundo soberano fez um pesado investimento na McLaren dentro da reestruturação de dívida feita pelo grupo este ano.

O poderio da grana do reino chamou a atenção. A prova foi na situação da conclusão dos serviços de montagem do circuito de Jeddah. Desde o início, o cronograma era extremamente apertado (menos de 10 meses). Nos últimos tempos, uma das coisas que mais circularam nas redes eram as fotos das obras e chamava a atenção como tudo aparentava muito atrasado. Não foram poucos os que consideravam inclusive a possibilidade de haver o cancelamento da prova...

Jeddah e suas 27 curvas. Uma média prevista de 252 km/h
Jeddah e suas 27 curvas. Uma média prevista de 252 km/h
Foto: F1

Para este ponto, temos que visitar mais uma vez os sensacionais padrões da dona FIA. O Anexo O do Regulamento Esportivo Internacional trata especificamente dos procedimentos para homologação de circuitos. Além de descobrir que a extensão mínima para que um traçado da F1 é de 3,5 km, o artigo 3.4 prevê que um novo traçado deve ter tantas inspeções forem necessárias pelo Delegado responsável, mas no mínimo uma preliminar e uma final. Para o caso de circuitos não-permanentes, como é o caso saudita, um prazo de 120 dias antes do uso é dado para a inspeção final. 

Porém, a frase seguinte abre a possibilidade a data final de inspeção seja fixada pelo Inspetor da FIA após uma visita preliminar que não pode acontecer menos de 60 dias antes data prevista para a prova, “no respectivo momento todo o trabalho relativo à superfície da pista, com exceção de pequenas modificações ou reparos, deverão estar prontas para a aprovação da FIA” (tradução).

Esta ação acaba acomodando o que já vimos outras vezes aqui em Interlagos e no caso que veio à cabeça de todos, na Coreia do Sul em 2010. Um trabalho enorme sendo feito até o último momento, a FIA dá o OK para a pista e tudo corre daquele jeito um tanto improvisado, ficando o trabalho a ser completado no próximo ano....

Para uma pista tão rápida, é um risco se o asfalto não tiver o devido cuidado, sem contar a sujeira que vem de um lugar perto do mar e com muita areia...As equipes devem usar os primeiros treinos para validar todo o trabalho obtido nos simuladores. Em tese, os acertos devem ser baseados nas pistas de alta velocidade, com aerofólios de perfil mais baixo. Sem contar o ajuste de motor que deve ser muito bem visto, dado o final da temporada e o fato de a aceleração ser total por boa parte do traçado e uma média estimada de 252 km/h na volta....Não a toa que a Mercedes usará o motor de Interlagos nesta prova.

Devemos sim questionar tudo que envolve este evento, dado todo o contexto. Mas, mesmo em uma nova gestão, procurando se conectar com novas posturas, a F1 segue sendo pragmática, até mesmo fechando os olhos em certos momentos, visando mesmo o tamanho do cheque. Já tivemos membros de Exército nos boxes (Argentina), corridas em pleno Apartheid (África do Sul) e em tantos locais com pouca abertura para a livre ação de seus cidadãos. O GP da Arábia Saudita não foi a primeira página deste livro de histórias funestas da F1. E não será a última.

Parabólica
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