Desmistificando o punta-taco: saiba mais sobre essa manobra
Pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo? E ainda com pés diferentes? Entenda o punta-taco e conheça também a dupla debreagem
Um dia desses recebi uma figurinha pelo WhatsApp mostrando dois sapatos pisando em três pedais de um automóvel. Vocês já viram, trata-se da tão famoso e tão endeusado punta-taco, procedimento em que o motorista pisa, ao mesmo tempo, no pedal do freio e no acelerador.
O que mais me alarmou não foi o apregoamento de um procedimento de pilotagem tão antigo quanto incompreendido, mas sim a frase que o acompanhava: “Isto separa os homens dos meninos”. Grande idiotice.
Minha mãe nunca foi nem homem nem menino e, desde quando começou a dirigir, nos anos 50 (um memorável Fusquinha 1959, com bananinha e torneira de combustível), já utilizava o punta-taco para várias finalidades.
Meu avô, assim como o avô e o bisavô de muitos de vocês, também usavam o punta-taco para sair de algumas situações no cotidiano da condução de veículos. Tudo muito natural e sem essa euforia em dizer que quem faz o punta-taco se equipara a um piloto de Fórmula 1.
O que é o punta-taco, afinal? E a pergunta mais importante: para que serve?
Meu primeiro carro, um Fusquinha 1967, que ganhei com 12 anos de idade e que guardo até hoje, nunca foi uma preciosidade em termos de manutenção, principalmente porque quase sempre estava equipado com dois grandes carburadores que se desregulavam a todo momento. Só por isso, é fácil de imaginar que, com uma marcha lenta instável e muitas vezes inexistente, eu não podia soltar o acelerador nem em uma breve parada no semáforo, sob o risco de o motor apagar. Como, então, com o pé esquerdo na embreagem e o direito no freio, eu poderia fazer isso? Punta-taco.
Punta-taco consiste em pisar no pedal do freio com a planta do pé direito (punta) e, ao mesmo tempo, acelerar com o salto do sapato (taco). Ou taco-punta, quando o pé é colocado ao contrário, ou seja, o salto do sapato no freio e a planta do pé no acelerador. Tudo depende apenas da configuração dos pedais, ou seja, da posição relativa entre eles.
Voltando lá no começo desta conversa, minha mãe usava o punta-taco pelo mesmo motivo que eu, nem sempre o seu Fusquinha estava com a marcha lenta afiada. E, esposa de piloto, aprendeu a lidar com os pés quando a maior parte das pessoas usavam o freio de mão para ajudar nessa situação, parecida com sair com o carro em uma ladeira (para cima).
É, amigos, essa simples manobra é o famoso punta-taco. Mas então, por que ele é tão reverenciado? Tem a ver com pilotagem de competição? Tem.
Já ouviram falar em freio-motor? É quando usamos o motor para segurar o carro em uma frenagem, auxiliando o trabalho dos freios. Geralmente o freio-motor é aplicado com uma redução de marcha, para que a desaceleração seja ainda mais forte.
Para mudar uma marcha ascendente, ou seja, “para cima” (primeira para segunda, por exemplo), deve-se deixar que o motor caia de rotação para se adequar à nova relação, mais alongada. Para uma mudança descendente, ou seja, uma redução de marcha, na hora de soltar a embreagem a velocidade do veículo vai querer aumentar a rotação do motor, que é justamente o efeito do freio-motor.
Para adequar as velocidades do novo par de engrenagens que vão se acoplar, existe nas caixas de câmbio anéis que se tocam antes que as engrenagens se acoplem, chamados anéis sincronizadores, cuja função é igualar as velocidades das duas engrenagens, facilitando o acoplamento e evitando que elas “arranhem”. Isso também garante que a marcha reduzida vai ser engrenada.
Só que, explicando o porquê de eu citar nossos avós lá no começo, antigamente os veículos não tinham anéis sincronizadores no câmbio, principalmente na primeira marcha, impedindo a redução de marcha a menos que o motorista aplicasse um outro “truque”, a dupla debreagem.
A dupla debreagem consiste em soltar a embreagem no meio de uma redução de marcha, enquanto o câmbio está momentaneamente em ponto morto. Com a embreagem solta, uma acelerada bem calculada eleva a rotação do eixo primário do câmbio, igualando à velocidade do eixo secundário, fazendo com que as engrenagens se acoplem suavemente, mesmo sem o auxílio dos anéis sincronizadores. Isso garante que a marcha reduzida vai ser engrenada.
Os motoristas de caminhão lá pelos anos 60, ou antes, eram obrigados a fazer a dupla debreagem em reducões, sob o risco de a marcha descendente não engrenar e o pesado veículo ficasse sem o freio motor, imprescindível para segurar o bruto (nem sempre os freios eram confiáveis).
Mas, e nas competições? Nas corridas, é sabido que, para completar uma volta o mais rapidamente possível, deve-se acelerar ao máximo até a entrada de uma curva e frear o mais forte possível. Para isso precisamos de bons freios. Só que, novamente voltando algumas décadas, os carros de competição não tinham freios perfeitos, de forma que usar o freio-motor em todas as reduções de velocidade se tornava imprescindível, para poupar freios. Era possível frear e “espetar” uma marcha abaixo, contando com o trabalho dos anéis sincronizadores, mas nem sempre isso acontecia. O que acontecia muito, também, princpalmente em provas longas, era que os aneeis sincronizadores se desgastavam, fazendo com que a marcha inferior não entrasse. Nesse caso, a curva poderia não ser perfeita e os freios poderiam superaquecer.
Pronto: eis aí a razão dos pilotos de outrora fazerem o punta-taco: para acionar, ao mesmo tempo, a embreagem (duas vezes), o pedal de freio e o acelerador, só com o punta-taco. Ou o taco-punta.
Ainda nos anos 60 e início dos anos 70, punta-taco e dupla debreagem eram fundamentais para quem quisesse ser um bom piloto e nenhum aluno do Cursso Marazzi de Pilotagem receberia seu certificado de piloto sem dominar perfeitamente essas duas técnicas.
E hoje? Para redução de marcha em uma condução “normal” de um automóvel com câmbio manual, não é necessário nem um dos dois procedimentos. A menos que o “piloto” queira ter aquela gostosa sensação de uma acelerada na redução de marcha, o que até os câmbios automáticos e automatizados fazem eletronicamente. A única vantagem, nesse caso, seria minimizar a força que o freio-motor faria ao tirar o pé da embreagem de forma brusca em uma redução de marcha, o que, eventualmente, poderia desequilibrar o carro em uma pilotagem menos concentrada.
Resumindo: punta-taco SEM dupla debreagem não adianta nada, em termos de pilotagem esportiva. A não ser que o “piloto” queira fazer “bonito” frente a seus amigos e seguidores. Aí ele grava em video sua condução, com uma câmera no trabalho do volante e outra no trabalho com os pés. Já vi muitos deles fazendo punta-taco, mas NENHUM deles fazendo a dupla debreagem no meio da redução de marcha.