Visita à China expõe limitações de Trump com Irã e Taiwan
Presidente dos EUA buscava apoio de Pequim no acordo com Teerã, mas acabou alertado por Xi Jinping sobre relações com Taiwan.A cúpula de alto nível em Pequim entre Donald Trump e Xi Jinping terminou, nesta sexta-feira (15/05), com declarações bombásticas e positivas - especialmente da Casa Branca, que chamou o presidente dos EUA de "o principal negociador". No entanto, poucas informações foram divulgadas sobre acordos concretos entre as duas superpotências rivais.
Trump elogiou Xi durante a visita, chamando-o de "grande líder" e "um homem que respeito muito".
Ao falar com os repórteres em uma coletiva de imprensa ao lado de Xi, Trump também indicou que ele e o líder chinês "partilham uma visão muito parecida" sobre a guerra no Irã, que vem dominando a política global desde que os EUA e Israel lançaram ataques aéreos contra a república islâmica no final de fevereiro.
"Queremos que isso acabe. Não queremos que eles tenham uma arma nuclear. Queremos que o estreito fique aberto", disse Trump. A fala reforçou afirmações anteriores de Trump de que Xi teria se oferecido para ajudar a intermediar um acordo com Teerã e reabrir o Estreito de Ormuz.
Xi faz advertência sobre Taiwan
O líder chinês, no entanto, não mencionou o Irã em suas declarações à imprensa. Em vez disso, aproveitou a oportunidade para alertar sobre um possível conflito entre China e EUA caso ambos os países não cooperem entre si. Xi destacou a disputa em torno de Taiwan, a ilha autônoma que a China considera seu território.
"A questão de Taiwan é o tema mais importante nas relações entre a China e os EUA", afirmou o líder do Partido Comunista Chinês.
"Se for bem conduzida, a relação bilateral desfrutará de estabilidade geral. Caso contrário, os dois países terão desentendimentos e até mesmo conflitos, colocando toda a relação em grande risco", complementou.
Com a economia global em turbulência devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, nenhum dos lados parece disposto a voltar à devastadora guerra comercial de 2025.
Na China, o presidente americano esteve acompanhado de mais de uma dúzia de CEOs, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, Tim Cook, da Apple, e Elon Musk, da Tesla. Trump elogiou "acordos comerciais fantásticos para ambos os países", sem fornecer detalhes.
Venda de armas
Segundo Joseph Bosco, que ex-responsável pela China no Gabinete do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, disse à DW que Xi tentou "aproveitar-se das vulnerabilidades evidentes de Trump neste momento".
"Trump está envolvido na guerra com o Irã, que não está ocorrendo conforme seu plano original. E acho que Xi Jinping considerou que este é um bom momento para exercer forte pressão sobre a questão que eles consideram mais importante, que é Taiwan", afirmou Bosco.
As autoridades taiwanesas temem que Pequim invada a ilha à força e dependem fortemente de armas vendidas pelos EUA para manter as capacidades de defesa. Embora Washington tenha rompido oficialmente as relações diplomáticas com Taipé em 1979, em conformidade com sua política de "Uma só China", os EUA também prometeram "fornecer a Taiwan armas de caráter defensivo", nos termos da Lei de Relações com Taiwan.
Os EUA estão atualmente se preparando para vender US$ 14 bilhões (R$ 71,2 bilhões) em armas a Taipé. Mas Trump adiou a aprovação do pacote antes de sua reunião com Xi.
Em entrevista nessa quinta-feira (15/05), no mesmo dia em que Trump e Xi mantiveram uma reunião a portas fechadas por duas horas em Pequim, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a venda de armas a Taiwan "não foi o tema principal da discussão", mas já havia sido discutida no passado.
Durante o voo de volta aos EUA, Trump disse aos repórteres que ainda não tomou uma decisão sobre o assunto.
Os EUA estão dispostos a ceder em relação a Taiwan?
Com o convite de Trump a Xi para uma visita do líder chinês a Washington em setembro, é cada vez mais provável que o pacote de armas permaneça sem decisão final até lá.
"Talvez haja um desejo dentro do governo de evitar atrito antes disso, e novas vendas de armas podem ser adiadas", diz John Dotson, diretor do think tank Global Taiwan Institute, com sede em Washington.
Quando questionado se Trump e Xi discutiram especificamente as vendas de armas americanas a Taiwan na quinta-feira, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, afirmou que "a oposição da China às vendas de armas dos EUA a Taiwan é consistente e clara".
Derek Scissors, pesquisador do American Enterprise Institute, também acredita que a possível visita de Xi poderia interferir no comércio de armamentos dos EUA com Taiwan.
"A troca óbvia aqui era Taiwan por Irã", aponta ele à DW. "E não quero dizer que os EUA ficariam com o Irã e a China com Taiwan, mas que os Estados Unidos cooperariam mais em relação a Taiwan se a China cooperasse mais em relação ao Irã."
Embora Xi não tenha mencionado o Oriente Médio em suas declarações à imprensa na sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou, em um comunicado, que o conflito "não tem motivo para continuar" e que "as rotas marítimas devem ser reabertas o mais rápido possível".
"Até agora, a China tem ajudado o Irã", afirma Bosco. "Eles têm fornecido informações técnicas, materiais bélicos e outros itens que auxiliam os serviços de inteligência", complementa.
O ex-responsável pela China no Gabinete do Secretário de Defesa dos Estados Unidos considera o apelo de Pequim pelo fim da guerra no Irã como "um passo na direção certa", mas "não a solução definitiva".
Acúmulo de problemas
Manter o rumo atual, no entanto, acarreta riscos para a China. A superpotência é a maior importadora de petróleo do mundo. Segundo algumas fontes, a China adquiriu mais de 90% das exportações de petróleo do Irã em 2024, e grande parte de suas compras de petróleo bruto de outros países também precisa ser transportada pelo Estreito de Ormuz, agora fechado.
Outro fator motivador são as sanções impostas pelos EUA na semana passada contra indivíduos e empresas na China, incluindo operadoras de satélites comerciais, com Washington acusando-as de fornecer a Teerã componentes bélicos, matérias-primas e dados de alvos usados para atacar as forças americanas no Golfo Pérsico.
A questão das sanções dos EUA foi visivelmente ignorada durante a visita de dois dias de Trump a Pequim. E, apesar dos esforços de Trump para transmitir otimismo, ainda não está claro quais medidas concretas a China está disposta a tomar para ajudar os EUA a abrir o Estreito de Ormuz.
"Certamente não vejo o governo chinês, por exemplo, concordando em participar de algum tipo de operação naval para escoltar navios pelo Estreito de Ormuz ou tentar contribuir com forças para algum tipo de esforço para abrir o estreito por meios militares", diz Dotson, do Global Taiwan Institute.
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