Vídeo de mulher queimando foto de Khamenei para acender cigarro não foi feito no Irã
Imagens de iraniana que acende o cigarro numa foto em chamas do aiatolá foram feitas no Canadá. Publicação rodou o mundo com legenda enganosa, alegando que ela cometeu crime em Teerã.Vídeos de mulheres jovens acendendo um cigarro com uma foto em chamas do líder político e religioso do Irã, aiatolá Ali Khamenei, se multiplicaram nas redes sociais nas últimas semanas, em meio aos protestos que acontecem no país contra o regime islâmico e que já deixaram milhares de mortos.
O ato é considerado simbólico, já que queimar a imagem do líder supremo do Irã é crime no país. Um desses vídeos ganhou particular tração em todo o mundo e serviu de inspiração para o que se tornou uma trend nas redes sociais.
A publicação foi compartilhada em diversos idiomas, como inglês, espanhol, turco e português. Nela, uma jovem aparece acendendo um cigarro usando uma foto em chamas de Khamenei. Numa das postagens, a legenda diz que o vídeo foi gravado "no meio do inverno em Teerã" e que a mulher infringiu "várias leis". O vídeo foi visto mais de 920 mil vezes.
Contudo, ao contrário do que muitos posts afirmam, o vídeo não foi gravado no Irã, mas no Canadá. De acordo com reportagens na imprensa, como a da agência de notícias Reuters, a filmagem aconteceu em Richmond Hill, ao norte de Toronto. A DW Fact Check também conseguiu geolocalizar a gravação: nas imagens, é possível ver a fachada da Livraria Oak Ridges, em Richmond.
A jovem que aparece na filmagem não afirmou que a gravação teria sido feita no Irã. No X, ela faz postagens sob o pseudônimo "Morticia Addams" e afirma morar em Toronto, no Canadá. À revista espanhola The Objective, ela diz que vive exilada e que não divulga seu nome por motivos de segurança. Ela mesma fugiu do Irã, mas sua família ainda mora no país persa.
"O regime islâmico não conseguiu me silenciar no Irã durante anos, apesar da tortura, humilhação e ameaças. Agora, estão me rotulando de sionista e explorando o fato de que, após anos de luta, fui forçada a fugir do meu país porque minha vida estava ameaçada", diz ela numa publicação no X na qual divulga informações sobre os protestos em curso.
Ela conta que gravou o vídeo com a foto do líder em chamas e seu cigarro depois de ver outros conteúdos semelhantes de outras mulheres nas redes sociais. No X, é questionada por usuários se o vídeo não teria sido publicado em anos anteriores, ao que ela responde com um print indicando a data de 7 de janeiro.
O vídeo infringiu as leis do Irã?
O vídeo se tornou viral, entre outras razões, porque as ações da jovem poderiam ser fatais se tivesse sido realmente filmado no Irã.
Segundo a editora da DW Farsi Niloofar Gholami, queimar a foto de Khamenei é um "ato extremamente perigoso" no Irã e constitui um crime segundo a lei iraniana. É considerado moharebeh, que pode ser traduzido como "guerra contra Deus". Nos últimos anos, houve casos em que pessoas foram condenadas a penas de prisão excepcionalmente altas por esse motivo.
De acordo com relatos da mídia, como a Euronews, em novembro de 2025, um homem que gravou um vídeo mostrando a si mesmo queimando uma foto do aiatolá foi encontrado morto em seu carro, no Irã, horas depois de publicar o conteúdo.
Além disso, de acordo com organizações não governamentais como a Human Rights Watch, o governo iraniano oprime especialmente os direitos das mulheres. As mulheres são perseguidas, por exemplo, se não usarem o hijab ou não cumprirem o código de vestimenta islâmico em geral.
Uma mulher que, como "Morticia Addams" no vídeo, não usa hijab no meio da rua no Irã correria o risco de ser perseguida. Em setembro de 2022, por exemplo, Mahsa Amini foi detida após supostamente usar o hijab de maneira incorreta e morreu sob custódia policial.
Fumar na rua também é um tabu para mulheres iranianas, explica Gholami. Ainda que não seja formalmente proibido, as mulheres correm o risco de receber advertências da polícia moral iraniana ou até mesmo penas de prisão.
A atual onda de vídeos e fotos de mulheres acendendo seus cigarros com uma foto em chamas do líder do regime é, portanto, uma forma de protesto contra o regime e em prol da liberdade. No entanto, grande parte é filmada por iranianas que vivem no exterior.
De acordo com especialistas, as informações que chegam do Irã são filtradas pelo governo há anos. Além disso, devido ao bloqueio da internet e à interrupção quase total dos serviços telefônicos, que estão em vigor desde 8 de janeiro, é difícil verificar as imagens e os vídeos que saem do país por meios indiretos.