Ultradireitista suíço é acusado de estuprar adolescente mais de 40 vezes
Ministério Público acusa ex-político de estuprar a própria enteada, à época menor de idade, e a mãe dela. Mas em vez de apoiar as vítimas, autoridades locais agora ameaçam deportá-las.Um ex-político local da Suíça membro da legenda de ultradireita Partido do Povo Suíço (SVP) foi denunciado nesta semana pelo Ministério Público sob a acusação de ter drogado e estuprado a própria enteada, à época uma criança, em mais de 40 ocasiões.
Além da enteada, Patrick Frei, ex-deputado estadual do cantão de Aargau, também teria estuprado a companheira e mãe da menina.
O Ministério Público pediu prisão perpétua por estupros múltiplos, tentativa de homicídio e abusos sexuais contra uma criança.
Mas em vez de apoiarem a mãe e a filha, autoridades locais do município de Untersiggenthal, onde elas moravam, negaram a elas a assistência social integral depois que Frei foi preso. Além disso, o departamento de imigração de Aargau ordenou que as duas, de nacionalidade polonesa, deixem o país.
Até sua prisão em 2023, o especialista em TI e ex-político do SVP, de 57 anos, atuava como membro do Grande Conselho do Cantão de Aargau - o Parlamento cantonal, equivalente a uma Assembleia Legislativa estadual.
De acordo com a acusação, Frei teria sedado a filha de 14 anos de sua então companheira para facilitar os estupros, que teriam ocorrido mais de 40 vezes ao longo de vários meses. O crime teria sido registrado por ele mesmo em vídeos. A mãe e outra mulher também teriam sido abusadas.
Como político, culpou estrangeiros pela violência contra mulheres
O Ministério Público presume que as vítimas correram repetidamente risco de morte por asfixia por terem sido drogadas.
A lista de acusações é extensa: múltiplas tentativas de homicídio, múltiplos estupros, casos de coerção sexual, atentado ao pudor, múltiplos atos sexuais com crianças, agressões, crimes relacionados a drogas, múltiplos crimes de pornografia e de violação de privacidade por meio de dispositivos de gravação e assédio sexual.
Frei nega grande parte das acusações. A data do julgamento perante o Tribunal Distrital de Baden ainda não foi definida.
Em sua atuação como político, ele culpou repetidamente estrangeiros pela violência contra mulheres e, pouco antes de sua prisão, assinou uma petição exigindo medidas mais rigorosas contra pedófilos.
Os supostos crimes foram descobertos em setembro de 2023, quando a mãe, Iwona L., flagrou seu então companheiro no quarto de sua filha, Paula L., à noite, segundo seu próprio depoimento, e acionou a polícia.
Desde então Frei está em prisão preventiva. A filha só soube por meio da investigação que teria sido abusada dezenas de vezes.
Acusação demorou três anos para sair
Quase três anos se passaram entre sua prisão e a acusação formal. Segundo o Ministério Público, a análise do extenso material de imagens e vídeos atrasou significativamente o processo. As vítimas mal se lembravam dos abusos porque estavam sedadas. A acusação, portanto, se baseia fortemente nas gravações apreendidas. De acordo com o Ministério Público, o próprio Frei aparece em muitas delas.
A mãe e a filha não possuem meios de subsistência próprios e eram completamente dependentes financeiramente de Frei. Após a prisão, elas inicialmente continuaram morando na casa dele — no mesmo quarto onde os abusos ocorreram. "Foi terrível", disse Paula L., agora com 18 anos, ao jornal suíço Tages-Anzeiger, o único veículo de imprensa a conversar extensamente com as duas mulheres. "Eu odiava estar naquele lugar, dormir naquele colchão."
Em vez de assistência social, ameaça de deportação e multa
O suposto agressor, além de ser o companheiro de Iwona, também era seu empregador. Um contrato de trabalho estabelecia que ela cuidaria da casa, do jardim e da cozinha e receberia um salário por isso. Segundo a mãe, no entanto, Frei nunca lhe pagou, apenas custeava suas despesas de moradia.
Quando Iwona solicitou assistência social ao município de Untersiggenthal após a prisão de Frei, as autoridades locais encaminharam o caso ao departamento cantonal de imigração, por suspeitar que o contrato de trabalho pudesse ter sido uma farsa para permitir que ela permanecesse na Suíça. O órgão incumbiu a polícia cantonal de investigar o caso.
Posteriormente, as autoridades decidiram que, se a mãe e a filha não deixarem a Suíça, seriam deportadas à força. As alegações de agressão sexual, segundo o órgão de imigração, não constituíam uma "grave dificuldade pessoal".
O município também pagou às mulheres apenas um auxílio emergencial reduzido de cerca de mil francos suíços por mês (R$ 6,2 mil), em vez do valor normal de cerca de 1,6 mil francos. A justificativa era o fato de o status de residência delas estar sob revisão.
Iwona L. também terá que pagar uma multa de 2.160 francos suíços (R$ 13,4 mil) por supostamente enganar as autoridades; caso contrário, poderia ser punida com 30 dias de prisão. Frei, que assinou seu contrato de trabalho, provavelmente não será processado neste caso. Ele também apresentou queixa contra sua ex-companheira por suposto roubo enquanto estava em prisão preventiva. A polícia revistou o apartamento dela, mas o caso foi posteriormente arquivado.
Mãe sofreu colapso nervoso e foi internada em clínica psiquiátrica; especialista vê "erro grave" contra cidadãs da UE
Um especialista em direito previdenciário entrevistado pelo Tages-Anzeiger não vê justificativa para a redução da assistência social paga a mãe e filha. Marc Spescha, professor emérito de direito migratório, classifica a ameaça de deportação como um grave erro administrativo, uma vez que, como cidadã da UE, ela teria direito à residência mesmo sem um contrato de trabalho. O Supremo Tribunal Federal suíço exige proteção especial para mulheres migrantes vítimas de violência doméstica.
Iwona sofreu um colapso nervoso em 2024 e atualmente está internada em uma clínica psiquiátrica. "Fomos vitimadas duas vezes, duplamente traumatizadas", afirmou ela ao Tages-Anzeiger. "Não apenas por Patrick, mas também pelas autoridades." Sua filha, agora com 18 anos, abandonou o curso profissionalizante que realizava em uma padaria devido à pressão psicológica.
As duas mulheres explicaram que a decisão de tornarem seus nomes e fotos públicos no Tages-Anzeiger foi consciente. Elas queriam encorajar outras vítimas de violência sexual. Comentaristas suíços compararam o caso ao de Gisèle Pelicot, na França: lá também a vítima foi sedada, estuprada diversas vezes e travou uma batalha pública nos tribunais contra seu algoz, o próprio marido, argumentando que "a vergonha precisa mudar de lado".
Ultradireita tenta se distanciar do caso
O SVP tenta se afastar do ocorrido. Pascal Furer, líder do grupo parlamentar do SVP no Parlamento cantonal de Aargau, destacou que Frei renunciou ao partido imediatamente após sua prisão. Para o SVP, as ações do ex-parlamentar não têm relação com seu cargo político. O SVP nacional vê o caso como um incidente isolado e chocante e diz que não há necessidade de uma ação legislativa.
No entanto, o Partido Social-Democrata (SP) do cantão de Aargau exigiu uma investigação completa e transparente por parte da prefeitura e do cantão, bem como medidas concretas para fortalecer a proteção às vítimas. A conselheira nacional da legenda de centro-esquerda, Tamara Funiciello, anunciou iniciativas para proteções legais mais rigorosas na legislação de imigração.
O município e o cantão se recusam, até o momento, a comentar o processo em curso. A mãe e a filha recorreram da decisão de deportação ao Tribunal Administrativo de Aargau.
rc/ra (ots)
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