Trump aprova acordo nuclear com Arábia Saudita, diz imprensa americana
Segundo a imprensa americana, pacto de 30 anos permitirá cooperação nuclear civil entre os países e poderá abrir caminho para o enriquecimento de urânio em território saudita. Críticos veem risco de proliferação.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aprovou um acordo nuclear com a Arábia Saudita que pode abrir caminho para o enriquecimento de urânio em território saudita, segundo informações publicadas pelos jornais americanos Wall Street Journal e New York Times nesta terça-feira (22/07).
O acordo, que ainda não foi anunciado oficialmente pela Casa Branca, poderá ser assinado já nesta quarta-feira. Segundo as reportagens, o pacto terá duração de 30 anos e garantirá um papel central a empresas americanas no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita para uso civil, excluindo concorrentes estrangeiros.
Uma das cláusulas mais sensíveis prevê que empresas dos EUA construam uma instalação de enriquecimento de urânio na Arábia Saudita, desde que um estudo conjunto entre os dois países conclua que a medida é necessária.
Críticos veem possível uso militar
De acordo com os relatos da imprensa americana, o governo Trump avalia que a participação direta de empresas e autoridades dos EUA dará a Washington maior influência sobre o programa nuclear saudita e ajudará a garantir que ele permaneça restrito a fins civis.
O acordo deverá ser encaminhado ao Congresso americano nos próximos dias e já enfrenta resistência de parte dos parlamentares. Críticos argumentam que a disseminação de tecnologia nuclear em uma região marcada por conflitos e rivalidades geopolíticas amplia os riscos de proliferação e poderia levar a um eventual programa militar no futuro.
Embora o enriquecimento não seja suficiente, por si só, para a produção de uma arma nuclear, a tecnologia é considerada uma etapa importante na capacidade de desenvolver esse tipo de armamento.
Segundo o New York Times, Trump precisou fazer concessões para viabilizar o entendimento. Entre elas estaria a aceitação de condições que poderiam limitar o acesso de inspetores internacionais a determinados locais, inclusive em situações em que houvesse suspeita de desvio de combustível nuclear para um programa de armas.
As preocupações refletem debates semelhantes sobre o programa nuclear iraniano. A Arábia Saudita e o Irã disputam influência regional há décadas. Embora os dois países tenham restabelecido relações diplomáticas em 2023 a desconfiança permanece após anos de rivalidade.
Negociações atravessaram governos
Tanto o governo Trump quanto o do ex-presidente americano Joe Biden buscaram nos últimos anos um acordo para compartilhar tecnologia nuclear americana com a Arábia Saudita.
O atual secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, já havia discutido uma iniciativa semelhante durante visita ao Oriente Médio, em abril de 2025.
Os Estados Unidos também mantiveram negociações com a Arábia Saudita para uma possível normalização das relações com Israel. O apoio ao programa nuclear saudita e um novo acordo de segurança funcionaria como contrapartida. Essas conversas, porém, perderam força após o início da guerra na Faixa de Gaza, no fim de 2023.
Modelos anteriores não previam enriquecimento de urânio
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato da Arábia Saudita, continua defendendo o desenvolvimento de um programa nuclear civil. Em entrevista à rede americana CBS, em 2018, ele afirmou que o país buscaria obter armas nucleares "o mais rápido possível" caso o Irã também desenvolvesse esse tipo de armamento.
O debate ainda remete ao modelo adotado pelos Emirados Árabes Unidos. O país firmou com Washington um pacto conhecido como "acordo 123", que permitiu a construção da usina nuclear de Barakah com apoio da Coreia do Sul.
Diferentemente do que está sendo discutido com a Arábia Saudita, porém, os Emirados abriram mão da capacidade própria de enriquecimento de urânio. Especialistas em não proliferação frequentemente apontam esse arranjo como uma referência para países que desejam desenvolver energia nuclear sem ampliar os riscos de militarização do programa.
gq/ra (DPA, Lusa, OTS)
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