Titãs celebra 40 anos de carreira com álbum inédito, 'Olho Furta-cor'
Tony Bellotto detalha a motivação da banda em lançar 14 faixas inéditas que refletem sobre o atual momento do Brasil
A comemoração dos 40 anos de Titãs segue a todo vapor. Além do documentário Bios - Vidas Que Marcaram a Sua - Titãs, disponível no Star+, a banda lança em todas as plataformas de áudio, nesta sexta-feira, 2, o 22º álbum: Olho Furta-cor, produzido por Sérgio Fouad e Rick Bonadio. A novidade, com 14 faixas inéditas, reitera a marca do grupo em fazer "crônicas do nosso tempo", como classifica o guitarrista Tony Bellotto, e "vem para reafirmar a força criativa e disposição de continuar relevante".
Diferentemente dos outros álbuns da banda, este foi criado inicialmente a distância, consequente da pandemia. O isolamento, portanto, também foi um fator de inspiração para os membros, Tony Bellotto, Sérgio Britto e Branco Mello. "Ficamos refletindo sobre o Brasil na parada obrigatória da pandemia, e as canções foram nascendo a partir disso: do sentimento do momento de isolamento, do momento político de polarização e distância entre as pessoas e violência. Tudo isso está no álbum de alguma forma", detalha o guitarrista.
Reflexões de 'Olho Furta-cor'
O álbum preserva a proeminência do rock brasileiro sem deixar de ser inovador. Na primeira faixa, Apocalipse, um breve ritual de índios do Xingu antecede o som da guitarra, seguido de vozes de crianças do Instituto Anelo (Campinas, SP), em uma reflexão tocante sobre desmatamento e destruição dos povos indígenas.
"Sempre que vamos fazer um álbum, falamos: 'vamos fazer um disco de rock pesado com elementos de música brasileira'. Eu fiquei com isso na cabeça e comecei a pensar qual seria a música mais brasileira que existe, e cheguei a conclusão que é a música dos índios", explica o artista, sobre a inspiração de Apocalipse. A canção possui autorização dos indígenas, negociada diretamente com o cacique e sua filha, após contato dos advogados da banda com a Funai (Fundação Nacional do Índio).
As demais faixas, com destaque para Caos - composição presente de Rita Lee, Roberto Carvalho e Beto Lee - e Como é Bom ser Simples, também fazem reflexões profundas sobre temas atuais, essencialmente relacionados ao governo. Segundo Tony, o grupo, formado por membros que tiveram a adolescência marcada pela ditadura militar brasileira, julga necessário se posicionar politicamente. "Sempre fomos ferrenhos defensores da democracia, da liberdade de expressão, da liberdade artística e liberdade pessoal. [...] Esse temor, esse medo [de uma possível volta da ditadura militar] e vontade de se opor a essa ameaça aparece muito nas nossas músicas", diz.
Embora reconheça o direito de não se posicionar politicamente, o músico acredita na relevância de sua voz como figura pública. "É fundamental nos posicionarmos como artistas, até como estratégia de revide ao governo que persegue deliberadamente os artistas e a cultura, persegue a vida e a liberdade, é facista", destaca.
Expectativas com o álbum
No dia 10 de setembro, a banda fará seu show de lançamento de Olho Furta-cor, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, e seguirá pelo Brasil com apresentações que misturam as novas faixas com as antigas para celebrar as quatro décadas de Titãs.
"As expectativas são as melhores possíveis. São 40 anos. Olhamos para trás e vemos que já fizemos muitos discos importantes, bem sucedidos e criativos. Quando terminamos Olho Furta-cor, vimos que era um álbum com muita potência criativa, como todos os nossos discos, então estamos muito animados", pondera o guitarrista.
Como "segredo" para o sucesso longevo, a banda destaca a "vontade de se superar", o que justifica a permanência em diferentes gerações. "A nossa maior satisfação é chegar num show e ver pessoas jovens, de 15, 16 anos, que não tinham nem nascido quando começamos. É uma satisfação ver que a nossa música consegue se comunicar com outras gerações", finaliza Tony.