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Rússia ainda não sabe se invadirá a Ucrânia, avalia Alemanha

28 jan 2022 13h20
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Chefe do Serviço de Inteligência Externa da Alemanha, Bruno Kahl, afirma que Moscou ainda não tomou decisão final sobre o país vizinho. Ataque pode ter vários cenários, como apoio a rebeldes separatistas.A Rússia ainda não decidiu se atacará a Ucrânia, mas está preparada para fazê-lo, disse Bruno Kahl, diretor do Serviço de Inteligência Externa da Alemanha (BND, na sigla em alemão) nesta sexta-feira (28/01), em meio às crescentes tensões entre Moscou e Kiev.

Estados Undidos temem que invasão russa à Ucrânia possa ocorrer em fevereiro.
Estados Undidos temem que invasão russa à Ucrânia possa ocorrer em fevereiro.
Foto: DW / Deutsche Welle

Os russos reuniram tropas estimadas em 100 mil soldados próximo à fronteira com a Ucrânia, mas vem afirmando que não planejam invadir o país vizinho.

"Acredito que a decisão de atacar ainda não foi tomada", afirmou Kahl à agência de notícias Reuters. "A crise pode se desenvolver de milhares de maneiras", acrescentou, listando cenários, como medidas para desestabilizar o governo em Kiev ou para apoiar separatistas no leste e avançar a linha de demarcação.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, voltou a asseverar, nesta sexta-feira que, "se depender da Rússia, não haverá guerra": "Não queremos guerras. Mas tampouco permitiremos que nossos interesses sejam grosseiramente pisoteados, ignorados", destacou a estações de rádio russas.

Tentativas de acordo

Os Estados Unidos passaram semanas tentando chegar a um acordo com aliados europeus sobre um severo pacote de sanções, caso a Rússia invada a Ucrânia. Não ficou claro se essas negociações atenderiam às exigências do presidente russo, Vladimir Putin.

Kahl se recusou a comentar se e quais sanções devem ser tomadas em caso de ataque, mas apoiou a abordagem da Alemanha de manter Moscou "no escuro" sobre os movimentos que ela pode ter reservado. "É isso que Putin faz", disse o perito em inteligência.

Ele também expressou dúvidas quanto à viabilidade de uma aliança duradoura entre a Rússia e a China, tendo em vista os interesses distintos dos dois países. "No longo prazo, o urso russo não se sentirá confortável nas garras do dragão chinês", afirmou.

Putin deve viajar em fevereiro para a China, para conversar com o presidente Xi Jinping, com foco principalmente na segurança europeia e no diálogo de Moscou com a Otan e os Estados Unidos.

Possível invasão em fevereiro

A declaração de Kahl vem um dia depois de os EUA alertarem sobre a possibilidade clara de a Rússia invadir a Ucrânia em fevereiro.

Na quinta-feira, o presidente americano, Joe Biden, reforçou o apoio à Ucrânia, em conversa por telefone com seu homólogo, Volodimir Zelenski.

Biden reafirmou a "prontidão dos Estados Unidos, juntamente com seus aliados e parceiros, para reagir de maneira decisiva se a Rússia invadir a Ucrânia", declarou a Casa Branca, em nota, frisando que os EUA também avaliam como ajudar a economia ucraniana.

Na quinta-feira, Lavrov criticou os EUA e a Otan não terem fornecido "nenhuma reação positiva" às propostas do Kremlin de reconfigurar a arquitetura de segurança pós-Guerra Fria, conferindo a Moscou uma esfera de influência na Europa Oriental.

Esperanças de solução diplomática

A Rússia prometeu se reunir com altos funcionários da Ucrânia, Alemanha e França em Berlim, em fevereiro, mantendo vivas as frágeis esperanças de uma solução diplomática, que se mostram ainda mais distantes tendo em vista divisões de pensamento dentro da própria União Europeia.

O ministro da Defesa da Letônia, Artis Pabriks, criticou o governo alemão pelo que chamou de recusa "imoral" em permitir que a Estônia enviasse armas de origem alemã para a Ucrânia.

"Se uma pessoa está andando por um beco escuro, e alguém está prestes a ser espancado, dizer 'quando você for espancado eu chamo uma ambulância', não é apropriado", comparou. Seus comentários atraíram críticas contundentes do veterano eurodeputado alemão Reinhard Bütikofer, do Partido Verde.

"Esse é o caminho a seguir, Letônia! Vamos transformar a Otan e a UE num pelotão de fuzilamento circular. Isso ensinará uma lição a Putin e Xi [Jinping]. Certo?", escreveu no Twitter, deixando claro tratar-se de sarcasmo.

Citando o próprio passado da Alemanha, na quinta-feira a ministra do Exterior e colíder do Partido Verde alemão, Annalena Baerbock, descartou o envio de armas para o exterior.

Ucrânia minimiza situação

Em meio à crise, autoridades da UE dizem que houve um aumento na desinformação pró-Kremlin, sobretudo desde novembro de 2021. Os veículos pró-governo russo fizeram inúmeras publicações, descrevendo a Ucrânia como um "brinquedo do Ocidente".

Segundo o jornal britânico The Guardian, chega-se a afirmar que Kiev estaria realizando uma campanha de terror equivalente ao domínio nazista, e que os governos ocidentais planeja um ataque químico de "bandeira falsa" na região de Donbas, na Ucrânia.

Enquanto o Ocidente se mantém alerta para uma possível guerra, o governo da Ucrânia tenta minimizar a ameaça. Segundo The Guardian, o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, teria declarado nesta sexta-feira que o total de soldados russos perto da fronteira é de cerca de 130 mil, número comparável ao de meados de 2021. Na ocasião, as tropas foram retiradas após exercícios militares intensos.

No entanto, de acordo com uma pesquisa recente, 48,1% da população do país acredita que a ameaça de uma invasão seja real. Além do aspecto geopolítico, há também uma questão econômica nas desavenças entre Moscou e o Ocidente:o gasoduto Nord Stream 2, entre a Rússia e a Alemanha.

O gasoduto foi construído com o intuito de dobrar a quantidade de gás natural fornecida pela Rússia diretamente para a Alemanha via Mar Báltico - ou seja, sem passar pela Ucrânia, tradicional país de trânsito, e que recebe taxas por isso.

Além disso, a Rússia é acusada de estar por trás de uma insurgência de separatistas no leste da Ucrânia, que já matou mais de 13 mil desde 2014, ano em que Moscou também anexou a Península da Crimeia, pertencente ao território ucraniano.

le (Reuters, ots)

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