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Relatório histórico da ONU afirma que o mundo ultrapassará a meta climática de 1,5°C. E agora?

Já não é mais possível limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, mas o jogo ainda não acabou

3 set 2026 - 17h46
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Resumo
Segundo a ONU, o mundo deve ultrapassar a meta climática de 1,5°C em 2030, agravando riscos e desastres, sobretudo em países insulares. Apesar de o Acordo de Paris ter evitado cenários mais extremos ao impulsionar a energia limpa, o progresso ainda é insuficiente. Para evitar danos irreversíveis e tentar reverter esse desvio até o fim do século, especialistas alertam que as nações precisam acelerar com urgência o abandono dos combustíveis fósseis e adotar tecnologias de remoção de carbono.
Ainda é possível, no entanto, que isso seja um desvio temporário se os países do mundo redobrarem esforços para eliminar os combustíveis fósseis e reduzir outras emissões, limitando o pico do aquecimento a 1,8°C e usando métodos de remoção de carbono para trazer as temperaturas de volta à meta. Christopher Furlong/Getty
Ainda é possível, no entanto, que isso seja um desvio temporário se os países do mundo redobrarem esforços para eliminar os combustíveis fósseis e reduzir outras emissões, limitando o pico do aquecimento a 1,8°C e usando métodos de remoção de carbono para trazer as temperaturas de volta à meta. Christopher Furlong/Getty
Foto: The Conversation

Há mais de uma década o mundo vem tentando limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis de antes da Revolução Industrial. Isso, no entanto, não é mais possível, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas.

De acordo com a publicação, provavelmente ultrapassaremos o 1,5 °C em 2030. E isso não é uma boa notícia para ninguém, muito menos para países insulares, como os das ilhas do Pacífico vizinhas da Austrália, que enfrentam o rápido aumento do nível do mar.

Em resposta ao relatório, o presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., afirmou:

É difícil exagerar a intensidade da emoção para nós que vivemos na linha de frente, depois de termos lutado tanto para colocar o limite de 1,5 grau no centro do Acordo de Paris […] apelos por mais ambição já não são suficientes — precisamos ver um aumento urgente e sem precedentes na vontade política e no investimento em um futuro seguro para o clima

O único ponto positivo é que ainda é possível que isso seja um desvio temporário da meta. Se os países do mundo redobrarem seus esforços para eliminar gradualmente o uso de combustíveis fósseis e reduzir outras fontes de emissões, poderiam limitar o pico do aquecimento a 1,8°C e, em seguida, usar métodos de remoção de carbono para trazer as temperaturas de volta a 1,5°C ou abaixo disso neste século.

Em 2026, o mundo já está cerca de 1,4°C mais quente do que os níveis pré-industriais, e os danos e o número de mortos causados por desastres agravados pelo clima estão aumentando. O Reino Unido alerta para possíveis escassez de alimentos em meio a uma seca histórica. Incêndios florestais atingiram novas áreas na França e na Espanha, enquanto as geleiras estão derretendo rapidamente e os oceanos estão na temperatura mais quente já registrada. O enorme fenômeno El Niño surgindo no Pacífico provavelmente trará grandes perturbações. E cada fração de grau a mais de aquecimento agrava a situação.

Não haverá nenhum resultado positivo se permanecermos acima de 1,5°C. Cortes urgentes nas emissões e esforços para proteger os mais vulneráveis são nossas melhores opções restantes. Não fazer isso traz o risco de prejuízos irreversíveis.

bancos de areia e baixo nível do rio, barco vazio em primeiro plano.
bancos de areia e baixo nível do rio, barco vazio em primeiro plano.
Foto: The Conversation
Os principais rios europeus estão em níveis recordes de baixa este ano, ameaçando o comércio, o funcionamento de usinas de energia e a agricultura. Na foto: o rio Danúbio, no sudeste da Romênia, em 5 de agosto.Agência de Notícias Xinhua/Getty

Por que 1,5°C é tão importante?

O Acordo de Paris de 2015 estabeleceu uma meta comum para o mundo: manter o aumento da temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais "bem abaixo" de 2°C e "envidar esforços" para limitar o aquecimento a 1,5°C.

Essa meta foi definida com base em avaliações científicas especializadas, segundo as quais um aquecimento superior a 2°C seria perigoso e que limitar o aquecimento a 1,5°C era necessário para minimizar os riscos climáticos.

Os países insulares do Pacífico lutaram arduamente para incluir o limite de 1,5°C no acordo, argumentando que isso era essencial para que suas comunidades "permanecessem vivas" diante do aumento do nível do mar e de outras ameaças causadas pelas mudanças climáticas.

No ano passado, a mais alta instância judicial do mundo - a Corte Internacional de Justiça - decidiu que 1,5°C é o limite de temperatura principal com o qual as nações se comprometeram a trabalhar.

Essa decisão significa que, se os governos não agirem da forma mais ambiciosa possível, poderão ser processados em tribunais internacionais.

Em maio deste ano, a maioria dos países votou na Assembleia Geral da ONU para endossar a decisão do tribunal e instar à adoção de medidas para limitar o aquecimento em 1,5°C.

Não é hora de desistir

Um aquecimento de 1,5°C já será ruim. Mas um de 1,6°C será pior, e de 1,7 °C, ainda mais. Cada aumento trará mais fenômenos climáticos extremos, mais perda de natureza, mais perda de terras para o mar e mais prejuízos aos seres humanos.

Se permanecermos com um aquecimento acima de 1,5°C, corremos o risco de desencadear pontos de inflexão climáticos - mudanças repentinas que não podem ser revertidas em escalas de tempo humanas. Isso inclui o derretimento das plataformas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, o colapso de correntes marítimas cruciais para a distribuição de calor no Oceano Atlântico ou a transformação da Floresta Amazônica em uma fonte de emissões líquidas.

Ultrapassar o 1,5°C não significa que seja hora de descartar o Acordo de Paris. Ele não está funcionando rápido o suficiente, mas está funcionando.

A energia solar e os veículos elétricos cresceram exponencialmente desde então, e o processo de eletrificação se acelerou. Os países reduziram as emissões o suficiente para evitar os piores cenários climáticos, como um aumento de 3°C ou até mais. De acordo com o Climate Action Tracker, o Acordo de Paris evitou o equivalente a 1°C de aquecimento. Em vez de atingir 3,6°C até 2100, o mundo está a caminho de uma alta de 2,6°C até o fim deste século.

Embora isso seja um progresso, não é suficiente. As emissões globais estão se estabilizando, mas ainda não começaram a cair de fato.

À medida que os prejuízos causados pelas mudanças climáticas se agravam, os líderes mundiais devem agir e começar a reduzir rapidamente as emissões para manter viva a meta de emissões líquidas zero até 2050.

Para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C, também precisaremos retirar gigatoneladas de dióxido de carbono da atmosfera por meio do plantio de árvores e da restauração da natureza. Talvez também precisemos de abordagens tecnológicas, como a captura de CO2 em rochas ou o aumento da alcalinidade oceânica, embora essas medidas ainda não tenham sido testadas em grande escala e possam acarretar outros riscos.

turbina eólica e usina a carvão vistas à distância, céu cinza.
turbina eólica e usina a carvão vistas à distância, céu cinza.
Foto: The Conversation
Houve progresso em relação às mudanças climáticas desde 2015 - mas não o suficiente.acilo/Getty

Estamos todos juntos nessa

Pode parecer que as ações climáticas enfrentam obstáculos insuperáveis à medida que o populismo político cresce e o atual governo dos Estados Unidos reafirma sua aposta nos combustíveis fósseis.

Mas vale a pena olhar além dessas manchetes. Levou quase 70 anos para o mundo instalar um terawatt de energia solar, mas depois bastaram apenas dois anos para o segundo e outros dois para o terceiro terawatt. Em dez anos, esse número provavelmente terá triplicado. Os países em desenvolvimento estão avançando rapidamente para adotar o transporte elétrico não poluente.

As mudanças climáticas não podem mais ser ignoradas. À medida que os danos se acumulam, os países terão que cooperar para reduzir as emissões o mais rápido possível e descobrir como retirar o carbono da atmosfera de forma segura e equitativa. A ação climática depende de forte vontade política, governança inclusiva e financiamento para ajudar os países em desenvolvimento a reduzir as emissões e se adaptar.

Em novembro, a Austrália liderará as negociações na próxima cúpula internacional sobre o clima, a COP31, na Turquia. Líderes e diplomatas trabalharão para manter a meta de 1,5°C ao nosso alcance - mesmo após um desvio. A Austrália pode destacar sua própria e rápida transição para a energia limpa e instar outros países a traçarem caminhos claros para a eletrificação - e se livrarem da extração e do uso de combustíveis fósseis.

As mudanças climáticas têm sido descritas como um problema extremamente complexo - grande, complicado e impossível de ser resolvido de forma simples. A solução é reconhecer a urgência da questão e agir de forma cooperativa para enfrentá-la. Se deixarmos esse problema para a próxima geração, talvez não haja mais volta para um clima seguro.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Jacqueline Peel recebe financiamento do Australian Research Council para seu Programa Laureate sobre Responsabilidade Corporativa Global em Questões Climáticas. Ela é afiliada ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, atuando como autora principal coordenadora do Grupo de Trabalho III (mitigação) para o Sétimo Relatório de Avaliação.

Wesley Morgan é membro do Conselho Climático da Austrália.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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