Quem controlou a visibilidade das candidaturas nestas eleições? As big techs e poder político no Brasil
As plataformas digitais não decidiram sozinhas a eleição de 2026. Mas controlaram as regras de visibilidade da disputa, e isso pôs em risco a igualdade democrática
As eleições evidenciaram o poder das big techs na organização da disputa política ao controlarem a infraestrutura de visibilidade digital. Algoritmos de recomendação, anúncios e moderação afetam a circulação de informações e a atenção pública. Casos envolvendo decisões do TSE sobre a Meta e propagandas irregulares mostram a complexidade de fiscalizar empresas transnacionais. Embora não definam o voto sozinhas, as plataformas impõem o desafio urgente de criar transparência e regulação democrática.
As plataformas entraram na disputa. Em seu discurso após a reeleição, em 25 de outubro de 2026, Lula defendeu a regulamentação das grandes plataformas digitais. A manifestação recoloca uma questão que ultrapassa o resultado das urnas: quem controla as condições de circulação das mensagens políticas em uma democracia dependente de infraestruturas digitais privadas?
Em 2026, Meta, Google, TikTok e X foram mais do que intermediárias tecnológicas. Seus sistemas de recomendação, publicidade, moderação e inteligência artificial ajudaram a organizar a competição eleitoral.
Isso não significa que as empresas determinaram o voto. Significa que controlaram a infraestrutura em que candidaturas, partidos, jornalistas e cidadãos disputaram atenção, reconhecimento e legitimidade.
Por isso, a pergunta mais útil não é se uma plataforma favoreceu um candidato de propósito. É como o poder privado de organizar a circulação de informações afeta as condições da competição democrática.
Visibilidade é um recurso político
A política sempre dependeu de dinheiro, redes e prestígio. A novidade é que sistemas técnicos privados passaram a selecionar e distribuir conteúdos em escala massiva.
Os algoritmos não são canais neutros. Seus critérios, ligados a modelos de negócio baseados em publicidade, dados e engajamento, influenciam o que é visto, compartilhado e debatido.
Na sociologia, o campo político é um espaço de disputa pelo poder de representar interesses e definir quais problemas são legítimos. Nele circulam dinheiro, redes, cargos e capital simbólico, isto é, prestígio e reconhecimento. Nas plataformas, a visibilidade virou uma forma desse capital. Ser recomendado e ocupar os fluxos de informação ajuda um ator a apresentar sua leitura da realidade como relevante ou majoritária. Mas exposição não é credibilidade, e credibilidade não é voto.
José van Dijck, Thomas Poell e Martijn de Waal mostram, em The Platform Society, como as plataformas se incorporaram às instituições e reorganizaram a comunicação. Tarleton Gillespie, em Custodians of the Internet, lembra que moderar conteúdo é exercer poder. Decidir o que remover, restringir ou recomendar afeta reputações e a participação na esfera pública.
O problema, portanto, vai além das notícias falsas. Envolve a distribuição desigual da visibilidade e a dificuldade de submeter decisões privadas a controle público.
Dados e atenção: a matéria-prima da visibilidade
A digitalização da vida trouxe outra revolução: a datificação. A vida digital gera dados o tempo todo, e eles podem ser coletados, processados e usados para muitos fins, bons ou ruins.
Nunca houve tanta informação nem tanto poder de computação para analisá-la. As consequências ainda são debatidas, mas ninguém espera voltar atrás.
O documentário O Dilema das Redes, de Jeff Orlowski (Netflix, 2020), mostra o lado comercial dessa história. Ex-funcionários de big techs explicam que o negócio das plataformas depende de prender a atenção e de usar dados para vender anúncios.
Tristan Harris, ex-designer do Google, resume: quem não paga pelo produto é o produto. O filme tem críticos: para alguns, concentra a culpa nas empresas, e o Facebook o chamou de sensacionalista.
Dados e atenção ajudam a entender por que a visibilidade não circula ao acaso. Ela é produzida por sistemas que aprendem com o comportamento dos usuários.
O caso da Meta no segundo turno
A controvérsia envolvendo Meta, Lula e Flávio Bolsonaro mostra o problema na prática. Em outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a empresa garantisse tratamento isonômico às duas candidaturas. O plenário manteve a decisão por unanimidade.
A ordem respondeu a alegações da campanha de Lula de que ferramentas de inteligência artificial e mecanismos de distribuição operavam de modo desigual.
A Meta negou ter favorecido qualquer candidatura. É preciso separar os níveis: houve denúncia, houve negativa e houve decisão judicial para garantir a isonomia. A ordem comprova a intervenção da Justiça, não uma manipulação intencional.
Outro dado vem do NetLab, laboratório da UFRJ. Pesquisadores do laboratório identificaram 1.613 anúncios político-eleitorais na Meta entre julho e setembro, pagos em moedas estrangeiras. Estimou gasto de cerca de R$ 2 milhões e 171 milhões de impressões. Apontou falhas na identificação dos responsáveis e na classificação como publicidade política. A Meta afirmou que reclassificou ou removeu os anúncios quando cabível.
Esses números exigem cautela. Impressões não são eleitores únicos, e muito menos votos alterados. O levantamento mostra a escala possível da propaganda irregular e os limites da fiscalização.
Desinformação e inteligência artificial
Imagens sintéticas e respostas automatizadas deixaram mais turva a fronteira entre registro, montagem e fabricação. Um estudo de Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral, publicado na revista Science, mostrou que notícias falsas se espalharam mais rápido do que as verdadeiras no X, antigo Twitter. Isso não prova que todo conteúdo falso tenha mais alcance em qualquer plataforma, nem que mude o voto.
Quando os critérios de geração, recomendação ou restrição são opacos, a fiscalização pública fica comprometida. Nem toda crítica às instituições é desinformação, e nem toda moderação é censura.
Um problema de soberania
A atuação do TSE revela uma tensão. A Justiça Eleitoral pode impor obrigações, mas depende de dados técnicos e da cooperação de empresas transnacionais, cujas regras valem para milhões de brasileiros.
A resposta não é dar liberdade irrestrita às plataformas. Também não é dar ao Estado poder ilimitado sobre o debate público. O caminho é criar mecanismos de responsabilização que protejam a liberdade de expressão e a igualdade eleitoral.
Isso exige auditorias independentes, acesso de pesquisadores a dados, transparência na publicidade política, identificação de financiadores e meios de recorrer de decisões automatizadas.
As big techs decidiram a eleição?
As evidências não permitem dizer isso. Denúncias, decisões do TSE e anúncios irregulares mostram que as plataformas são atores relevantes da comunicação eleitoral.
Para afirmar que decidiram o resultado, seria preciso ligar a exposição a conteúdos específicos à mudança de comportamento dos eleitores, controlando outros fatores, como organização partidária, cobertura jornalística e economia.
A conclusão mais sólida é outra. As plataformas reconfiguraram a competição porque controlam infraestruturas centrais de visibilidade. Seu poder não depende de escolher um candidato em público, mas de definir regras que afetam quem alcança públicos e constrói reputação.
No fim, a questão decisiva não é só quem venceu, mas quem controlou as condições em que a disputa se tornou visível. Igualdade democrática exige mais do que o direito de publicar. Exige condições justas de circulação, transparência e responsabilização.
Péricles Andrade não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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