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Protestos estudantis na França e resposta do governo são sem precedentes e imprevisíveis

As reivindicações dos estudantes franceses por mais recursos para a educação são recorrentes, mas o contexto geral e forma do movimento são novos, assim como a resposta inicialmente violenta do governo

9 out 2026 - 15h22
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Resumo
Iniciada nos subúrbios de Paris em 2026, a mobilização dos estudantes franceses denuncia a precariedade crônica do ensino e reflete tensões com o avanço da extrema-direita e crises climática e geopolítica. Sem poder formal de greve, os jovens recorreram a bloqueios nas escolas para ganhar visibilidade. O movimento ganhou força nacional e apoio popular, mas enfrentou uma resposta governamental inédita e desproporcional, focada na repressão policial e no fechamento em massa de colégios.

A mobilização dos estudantes do ensino médio da França, que teve início nos subúrbios de Paris em setembro de 2026, se insere em um contínuo de mobilizações no início dos anos letivos que o ensino médio francês vem enfrentando em resposta a condições consideradas precárias (falta de professores, turmas superlotadas, instalações precárias, etc.), de forma cíclica desde o final da década de 1970, contrastando com o tipo de mobilizações "primaveris" que marcaram os "idos de 68".

Já em 1978, pôde-se observar que o que até então havia caracterizado os escolas técnicas e as colégio vocacionais (comumente conhecidos na França como LT e CET) havia se tornado um problema generalizado nas escolas de ensino médio.

"O início do ano letivo de 1978 se revelou desastroso, com turmas superlotadas e falta de professores e de pessoal. Em Seine-Saint-Denis, no subúrbio norte de Paris, chegou-se até a duvidar que o início do ano letivo tenha ocorrido. Já em 15 de setembro, os professores do colégio de Saint-Denis e do de Noisy-le-Sec iniciaram uma greve, com o apoio ativo das associações de pais de alunos e de vários representantes locais, para exigir a criação de vagas e a abertura de novas turmas. (…) Pela primeira vez desde maio-junho de 1968, as escolas estão ocupadas dia e noite; esse é o caso, em especial, no departamento 93, em Saint-Denis, em Aubervilliers e em Montreuil.»

Trecho de Didier Leschi e Robi Morder, Quand les lycéens prenaient la parole. Les années 68, Syllepse, 2018.

Essas questões recorrentes também deram origem a fortes mobilizações dos estudantes do ensino médio em 1990 e em 1998, resultando em medidas significativas consideradas vitórias. Outros movimentos de outono na França também envolveram estudantes do ensino médio, mas em torno de outras questões, como, por exemplo, a mobilização contra a reforma previdenciária em 2010.

O que é inédito nessa mobilização do outono francês de 2026 é, em primeiro lugar, o contexto global do movimento, com uma guerra no leste da Europa acompanhada por um aumento nos orçamentos militares que contrasta com a insuficiência crônica de verbas para a educação, uma crise climática que afeta escolas mal isoladas termicamente, onde os alunos do ensino médio sofrem com o calor e o risco de a extrema direita chegar à Presidência da República em 2027. Esse último desafio foi percebido por muitos estudantes do ensino médio dos subúrbios populares — onde o movimento teve início — como uma ameaça existencial.

Como se fazer ouvir?

Para fazer valer suas reivindicações, as ações possíveis dos estudantes são limitadas. A representação dos alunos do ensino médio existe por lei (estudantes ocupam cargos nos conselhos administrativos e em instituições nacionais ligadas ao Ministério da Educação da França), mas com pouco alcance.

Além de não ser um direito dos estudantes, a greve, como simples paralisação do trabalho, não é de forma alguma um meio de pressão (uma greve de estudantes do ensino médio não incomoda ninguém, não interrompe nenhuma produção). Consequentemente, para que um movimento estudantil do ensino médio seja eficaz, não basta faltar às aulas; é preciso ainda ser visível, audível e ter repercussão na mídia.

Vale ressaltar a mudança de vocabulário ocorrida nas últimas décadas. "Piquete de greve" foi substituído por "bloqueio", ou "bloco", especialmente desde o movimento estudantil contra a Lei Fillon em 2005. As assembleias gerais realizadas nas escolas de ensino médio, nas quais se decidia pela realização de piquetes de greve (piquetes "de filtragem" ou piquetes "de bloqueio"), tornaram-se mais difíceis de organizar, sobretudo quando os governos não os autorizam, às vezes simplesmente por falta de salas. Atualmente, tanto as organizações estudantis quanto os governos não falam mais em escolas em greve, mas contabilizam "escolas bloqueadas".

Para se tornarem visíveis, precisam, portanto, realizar ações espetaculares. Como qualquer grupo social, os estudantes do ensino médio utilizam o que têm à mão: lixeiras para bloquear ou retardar a entrada na escola, manifestações nos seus bairros ou cidades — o que se tornou mais difícil devido às medidas proibitivas —, convocação de personalidades (como autoridades eleitas, por exemplo) capazes de atrair a curiosidade da mídia, cartazes etc.

É nesse contexto que surge a questão da violência. É preciso aguardar informações mais precisas sobre os perfis dos jovens detidos. Sabe-se que, na grande maioria, trata-se de menores de idade. Mas são eles estudantes do ensino médio ou jovens que abandonaram, ou foram excluídos, do sistema escolar? As circunstâncias e as acusações podem variar de um indivíduo para outro.

Enquanto isso, vale lembrar que, nos primeiros dias de maio de 1968 no Quartier Latin, havia um número significativo de jovens trabalhadores que se juntaram aos estudantes para, de certa forma, se vingar das humilhações sofridas em seus conjuntos habitacionais e bairros pela polícia, como lembrou o sociólogo Gérard Mauger.

A crise atual combina as características das mobilizações dos estudantes do ensino médio com as dos "motins protopolíticos" ocorridas nos subúrbios franceses — notadamente em 2005. Vale ressaltar que os "jovens dos subúrbios" são também estudantes do ensino médio, universitários e, às vezes, desempregados ou em situação precária. Eles agem e reagem tanto em seus locais de estudo, de trabalho quanto em suas residências. As manifestações dos estudantes do ensino médio também são pontos de convergência política em nível local.

Resposta policial inédita diante de adolescentes

O que também é singular é a maneira como as autoridades ignoraram a situação, embora a falta de recursos e de pessoal seja relatada regularmente e, ainda neste início de ano letivo, pelos sindicatos de professores.

Embora os governos franceses, desde 2017, tenham enfrentado conflitos inéditos, como os protestos dos coletes amarelos, as manifestações ambientalistas de Sainte-Soline e distúrbios urbanos, os movimentos de estudantes do ensino médio ou universitários são recorrentes e podem ser resolvidos por meio de negociação. Desde 2016 (Lei do Trabalho), porém, a reação "firme" parece ter se tornado a norma, com o risco de confrontos violentos, tornando perigosa a participação em manifestações, ainda que legais. Quando aplicada a adolescentes, ela parece manifestamente desproporcional e perigosa.

Parece que, após ignorar a amplitude dos problemas, a opção pela repressão prevaleceu. Foi o Ministério do Interior que assumiu a liderança, priorizando o fechamento em massa das instituições. Em movimentos anteriores, já havíamos visto alguns fechamentos excepcionais, mas nunca em tal escala.

Depois de alegar uma "instrumentalização" do movimento por parte de La France Insoumise (LFI) — devido ao apoio declarado deste partido e à presença de seus representantes eleitos em frente às escolas (embora outros partidos tenham feito o mesmo) —, o discurso do governo acabou admitindo que as reivindicações eram legítimas. Sem dúvida, a opinião dos franceses, que aprovam a legitimidade das reivindicações dos alunos do ensino médio, fortaleceu o movimento, bem como a amplitude e o bom andamento das manifestações de 6 de outubro. Os sindicatos anunciam 450.000 manifestantes, enquanto o ministério estima 250.000, em toda a França.

Ora, quem fala em negociação, fala em relação de forças. O que era possível antes do movimento para tentar "acalmar os ânimos" revela-se insuficiente hoje, enquanto a mobilização se mantém e se estende, com uma união com outros movimentos de descontentamento que pesa sobre o governo. Nas redes sociais utilizadas pelos jovens, muitos fazem referência não apenas aos protestos com outros sindicatos, mas também ao chamado à mobilização contra o alto custo de vida, no próximo dia 17 de outubro, como um retorno dos "coletes amarelos. De certa forma, a tensão está aumentando.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Robi Morder é integrante do sindicato francês do Ensino Superior SNESup e da Associação sem fins lucrativos de autogestão RESU.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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