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Primeira mulher a treinar equipe masculina de primeira divisão na Europa é nova vitória na luta feminina por ascensão no futebol

No futebol feminino, de um total de nove edições de Copas do Mundo, mulheres ocuparam apenas 24% das vagas disponíveis para treinadores, mas conquistaram 44% dos títulos em jogo durante o período

14 abr 2026 - 12h56
(atualizado às 13h05)
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O anúncio pode até soar como um roteiro trivial. Ex-atleta, cuja carreira contém títulos de expressão nacional e continental, transitando à área técnica a partir das categorias de base até chegar a uma equipe profissional na primeira divisão do esporte em seu próprio país. Uma trajetória comumente celebrada pela economia de atenção que permeia os noticiários do futebol. Porém, desta vez, a protagonista em questão representa o gênero feminino na liderança técnica de um ambiente predominantemente masculino.

Marie-Louise Eta, a primeira mulher anunciada como treinadora (interina) na Bundesliga alemã chega para romper barreiras, preconceitos e paradigmas de ordem histórica na modalidade esportiva que (poderia) fomenta(r) debates democráticos com maior frequência no planeta.

Apesar de ocupar o cargo apenas de forma temporária (pois espera-se que em junho ela assuma oficialmente a equipe feminina no mesmo clube, o 1.FC Union Berlin), a treinadora se posiciona como pioneira entre as grandes ligas do futebol europeu.

Antes dela, sua conterrânea Sabrina Wittmann foi a precursora dos holofotes ao assumir o comando da equipe profissional do FC Ingolstadt, também na Alemanha, embora o clube ainda permaneça na terceira divisão do futebol masculino no país.

Tal pioneirismo de ambas essas mulheres em solo alemão pode elucidar as conquistas que já acompanham o percurso de suas colegas de profissão no alto rendimento esportivo mundo afora.

Especificamente no futebol feminino, treinadoras mulheres venceram as últimas seis Olimpíadas (entre 2004 e 2024), bem como as últimas oito Eurocopas da UEFA (entre 1997 e 2025). Além disso, desde 2003 apenas duas seleções nacionais lideradas por treinadores homens terminaram a Copa do Mundo da FIFA como campeãs (Japão em 2011 e Espanha em 2023).

Num total de nove edições do mundial feminino, as mulheres ocuparam apenas 24% das vagas disponíveis para treinadores, mas conquistaram 44% dos títulos durante o período de 1991 a 2023.

Pesquisa da UEFA

Uma pesquisa quantitativa financiada pela UEFA e conduzida em parceria com a Federação Belga de Futebol examinou justamente a realidade de 1010 treinadoras (mulheres) no futebol europeu em 2025. Implementada em 17 países do continente e focada em perspectivas positivas, a pesquisa adotou uma análise econométrica para entender as condições que possam potencializar o presente e o futuro das treinadoras atuantes na Europa. Ao traduzir os cálculos em resultados práticos, destacam-se três implicações centrais:

Primeiro, o entorno social das treinadoras influencia como elas acreditam em sua própria capacidade e como elas optam em avançar com suas respectivas carreiras no futebol. Segundo, a formação das treinadoras deve ser aplicada para e por mulheres, multiplicando a presença de instrutoras e a disseminação de conhecimento específico sobre o futebol feminino. Terceiro, a jornada das treinadoras deve ser devidamente valorizada, possibilitando a transferência de suas experiências a oportunidades de trabalhos remunerados e progressivos.

Embora essa pesquisa recente subsidiada pela UEFA identifique caminhos para aumentar a representatividade de treinadoras no continente europeu, a aceitação de mulheres ocupando cargos de liderança no futebol masculino (e até mesmo feminino) ainda depende de uma conjuntura sociocultural. Na literatura que tenta explicar a ausência feminina na gestão do esporte, estudos apontam que mulheres tendem a assumir posições de comando mediante situações de maior risco ou quando as circunstâncias já se encontram desfavoráveis à organização.

'Penhasco de vidro'

Trata-se, por exemplo, do 'penhasco de vidro' (glass cliff), um fenômeno que condiciona o insucesso da pessoa selecionada a liderar. Outro efeito semelhante corresponde ao 'teto de vidro' (glass ceiling), que confina o progresso de mulheres devido a barreiras socioculturais presentes no ambiente de trabalho.

Ou seja, quando uma treinadora se compromete a percorrer as etapas tidas como necessárias para atingir meritocracia em seu respectivo clube, a mesma se depara com limites de ascensão profissional que nem sempre são replicados aos treinadores do genêro masculino.

Consequentemente, a sub-representação de treinadoras no futebol deve ser percebida como um sintoma das práticas organizacionais, não como um problema relacionado à competência feminina.

Para fortaceler e multiplicar nomes que possam espelhar os caminhos traçados por Marie-Louise Eta e Sabrina Wittmann no futebol masculino, torna-se necessário um comprometimento por mudanças socioculturais que visem reduzir e, preferencialmente, eliminar estereótipos ligados à atividade e à carreira das treinadoras.

Afinal, em meio à terceira década do século XXI, anúncios que questionem paradigmas também servem para nos alertar sobre o atraso de um regime majoritariamente masculino retendo decisõesque poderiam transformar estruturas esportivas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Matheus Galdino não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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