'Pretos também precisam ser enxergados como belos', diz dermatologista André Moreira
Médico quer desmistificar a ideia de que pele negra é 'mais resistente'
O dermatologista goiano Dr. André Moreira é um dos poucos profissionais brasileiros especializados em cuidados com a pele preta. "Sendo preto, senti e sinto na pele as dificuldades de cuidar e ter acesso a informação e estudos precisos quando se trata da nossa pele", disse o médico, que com seu trabalho pretende desmistificar crenças de que a pele preta é mais resistente ao sol do que a pele branca, ou que não existem tratamentos para elas. "Existe um racismo estrutural por trás disso. Pele preta também precisa de protetor solar". Confira a entrevista a seguir.
Quais os principais cuidados quando se trata de uma pele preta?
Uma boa hidratação, proteção solar, diagnosticar os problemas da pele. Existem inúmeras diferenças entre a pele preta e a branca. O amadurecimento, por exemplo. A pele preta amadurece diferente da pele branca. Enquanto a pele branca tem um dano solar muito marcado, que a gente chama de foto envelhecimento, na pele preta a gente tem as perdas de volume, vai perdendo a gordura que mantém a estrutura da pele, isso vai causando o envelhecimento. Essas são algumas das características.
No verão, teoricamente as peles pretas aguentam mais sol que as brancas. Isso é verdade?
Existe um racismo estrutural por trás disso. Pele preta também precisa de protetor solar. Sempre. Historicamente a população preta sempre foi animalizada, especialmente quando descrita pelo branco colonizador. As mulheres pretas tomam menos anestesia no trabalho de parto do que as brancas, muito por conta de acreditarem que nós pretos somos mais resistentes.
Quais as maiores crenças e dificuldades que encontra para tratar as peles pretas?
São vários pontos de dificuldade, vários gargalos. Um exemplo é a crença de que as peles pretas são mais resistentes, um impacto direto do racismo estrutural. Então, quando a pessoa preta ouve isso, impede que ela vá a um dermatologista. Ela pensa, porque vou a um dermatologista se a minha pele é mais resistente? Então, a desconstrução desse racismo, que é muito presente na nossa sociedade, é um ponto muito necessário para que, de fato, a gente consiga ocupar esse espaço.
O mercado de beleza ainda deixa muito a desejar quando se trata de produtos para peles pretas? Sente que está melhorando?
Já foi bem pior. Está melhorando. De uns poucos anos para cá foram lançados produtos específicos para a pele e cabelo pretos, maquiagens e protocolos de tratamentos. Graças ao esforço da Skin of Color Society, por exemplo, que é uma sociedade na qual faço parte, de colegas dermatologistas do Brasil e do exterior, estudiosos percebem essa necessidade de inclusão dos diversos tipos de pele. Para se ter uma ideia, quando vamos fazer um levantamento das imagens disponíveis em livros de dermatologia, uma parcela mínima, em torno de 3%, é de fotos de pessoas de pele preta. Como vamos aprender se não tem referência? Pretos também precisam ser enxergados como pessoas belas.
Acredita que essa questão afeta em cheio a autoestima das pessoas pretas?
Sim, cito a música Autoestima, de Baco Exu do Blues, música belíssima em que fala que demorou 25 anos para se achar lindo. A construção dessa percepção da imagem é muito importante. Para você ver, Baco, que é um homem lindo, belíssimo, demorou esse tanto de tempo para se enxergar um homem belo. Precisamos resgatar nosso direito de nos cuidar, para que um dia a gente não precise mais ouvir que a nossa pele é mais resistente e simplesmente ouvir que somos belos./SOFIA PATSCH
Bloco de notas
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RANKING. O Einstein alcançou 76/100 na avaliação sobre adoção de critérios Ambientais, Sociais e de Governança nas suas atividades, segundo a S&P Global Rating. Na comparação com outras análises públicas da S&P, a pontuação coloca a organização como uma das três melhores do mundo na cadeia de saúde.
VISÍVEL. O Dia da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, ganha programação especial no Canal Brasil durante todo o mês que vem.