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Pesticidas, obesidade e diabetes: uma relação comprovada de exposição e dano

Estudos mostram que a exposição a pesticidas também tem sido associada à obesidade e ao diabetes em humanos. Em modelos experimentais essa correlação se dá em função de seus efeitos como desreguladores endócrinos

26 jan 2026 - 11h13
(atualizado às 11h25)
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Soma-se a esses dados alarmantes, os mais de 500 milhões de adultos que vivem com diabetes no mundo, com estimativas recentes chegando a cerca de 828 milhões. O número de diabéticos continua a crescer. E quase metade das pessoas não sabe que tem a doença. As projeções indicam que mais de 1,3 bilhão de pessoas terão diabetes até 2050, com aumentos alarmantes em países de baixa e média renda.

Por incrível que pareça, no passado recente nem a obesidade e nem a diabetes eram consideradas epidemias globais. E por que se tornaram?

Possíveis vilões

Estudos têm apontado que, entre outros fatores, a exposição a pesticidas também tem sido associada à obesidade e ao diabetes em humanos e em modelos experimentais, realizados em pesquisas de laboratório. Essa correlação se dá, principalmente, em função de seus efeitos como desreguladores endócrinos.

Os desreguladores endócrinos são substâncias químicas (naturais ou sintéticas) que interferem no sistema hormonal de humanos e animais, imitando, bloqueando ou alterando a ação dos hormônios naturais.

Esse fenômeno pode causar efeitos negativos na saúde, como problemas de fertilidade, puberdade precoce, desenvolvimento neurológico e até certos tipos de câncer.

Para quem não é da área, é importante esclarecer que um dos primeiros contatos com pesticidas ambientais ocorre em fases críticas da vida.

Durante a gestação e a lactação, bebês podem ser expostos. E essa exposição pode levar a danos em tecidos centrais e periféricos e, consequentemente, à programação de distúrbios metabólicos tanto no início quanto mais tarde ao longo da vida.

Nós, pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Endócrina, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicamos artigo científico no periódico Endocrine.

O artigo faz uma revisão de quase 100 estudos epidemiológicos e experimentais que associaram a exposição a pesticidas durante a gestação e a lactação com a obesidade e diabetes na prole.

Uma breve história dos pesticidas

Os pesticidas são substâncias químicas heterogêneas utilizadas em larga escala para o controle de pragas em residências, jardins, plantações. Além disso, são utilizados no controle de doenças transmitidas por vetores (como a malária) e de doenças transmitidas por alimentos.

Existem diferentes tipos de pesticidas, nomeados de acordo com sua capacidade de eliminar organismos específicos. Alguns exemplo: inseticidas (insetos), herbicidas (plantas), rodenticidas (roedores) e fungicidas (fungos).

Essa ampla capacidade de aplicação está associada a uma elevada exposição humana a essas substâncias. A exposição pode ocorrer pelas vias oral, respiratória e dérmica.

Os efeitos decorrentes têm sido objeto de pesquisas que avaliam repercussões de curto e/ou longo prazo.

Diversos eventos marcantes relacionados à expansão industrial e agrícola ocorreram ao longo dos anos. Estes moldaram a relação entre a exposição a substâncias químicas e a programação metabólica.

O uso de pesticidas sintéticos teve início na década de 1940 com a descoberta do diclorodifeniltricloroetano (DDT). Seu auge aconteceu na década de 1960 com a Revolução Verde. Na época, houve a expansão do agronegócio, reduzindo danos às plantações e aumentando a produtividade.

Desfechos negativos não previstos

O que não se sabia naquela época era que o uso indiscriminado de pesticidas poderia gerar muitos desfechos negativos para produtores diretamente expostos às substâncias químicas, consumidores e o meio ambiente.

Apenas em 1962, um alerta mundial sobre os potenciais efeitos desse uso foi detalhadamente publicado pela bióloga norte-americana Rachel Carson, no livro Primavera Silenciosa (em inglês, Silent Spring).

No livro, ela enfatizou os efeitos deletérios dos pesticidas, especialmente a infertilidade em aves.

Desde então, diversas publicações têm denunciado os efeitos adversos à saúde humana e ao meio ambiente causados por diferentes tipos de pesticidas.

Estudos mais recentes têm relacionado o aumento do uso dessas substâncias ao surgimento de asma, doença de Parkinson, autismo e vários tipos de câncer.

Poluentes persistentes

A maioria dos pesticidas é classificada como poluentes orgânicos persistentes (POPs). São considerados compostos sintéticos que resistem à degradação e apresentam grande potencial de biomagnificação e bioacumulação.

Esses compostos atuam no organismo e promovem a desregulação do sistema endócrino e interferem nos mecanismos de ação dos hormônios, resultando em desequilíbrio da homeostase corporal.

Como desreguladores endócrinos, algumas das disfunções associadas aos pesticidas incluem excesso de peso, alterações no metabolismo da glicose, diabetes, mudanças na função reprodutiva e prejuízos ao desenvolvimento neurológico.

Pesticidas, obesidade e diabetes

Tanto a obesidade quanto o diabetes são doenças metabólicas multifatoriais que atingiram proporções pandêmicas nas últimas décadas.

Os pesticidas podem atuar como obesogênicos por meio da desregulação da homeostase lipídica. Isso significa aumento da adipogênese e do acúmulo de lipídios.

Além disso, podem causar alterações hormonais e alterar vias relacionadas ao apetite, à saciedade e ao balanço energético, por meio de diversos mecanismos possíveis.

Em 2002, a cientista Paula Baillie-Hamilton publicou um artigo no qual propôs a hipótese de que os níveis atuais de exposição humana a substâncias químicas poderiam ter comprometido os mecanismos naturais de controle do peso corporal. Ela associou a epidemia de obesidade ao aumento da presença de toxinas sintéticas.

De fato, desde o início da década de 1970, diversos estudos demonstraram que a exposição a agentes químicos ambientais em roedores pode desencadear ganho de peso corporal.

Mas somente anos depois, a hipótese de que substâncias químicas sintéticas poderiam levar à obesidade foi confirmada. E produtos como os pesticidas organoclorados, entre outros, passaram a ser associados também a diferentes doenças metabólicas.

Além disso, esses pesticidas também podem modular a sensibilidade à insulina em tecidos endócrinos, como o pâncreas, os tecidos adiposos branco e marrom, o músculo e o fígado. E por isso, considerados potencialmente diabetogênicos.

Exposição materna

Em nosso estudo, analisamos vários artigos científicos que comprovam que a exposição materna a organoclorados é arriscada.

Esses compostos podem ser detectados no soro materno humano, na placenta, no cordão umbilical e no leite materno, sendo prejudiciais aos bebês.

Os organofosforados como Glifosato e Malathion são os mais comuns utilizados na agricultura.

Durante a vida intrauterina e a lactação, o Glifosato compromete a fertilidade feminina, reduz o número de embriões implantados e induz efeitos adversos na segunda geração, como atraso no crescimento e anomalias congênitas.

A maioria dos modelos de programação metabólica relacionados à exposição perinatal ao Glifosato está associada a disfunções reprodutivas masculinas e a prejuízos cognitivos e comportamentais.

Os primeiros Neonicotinoides direcionados para controle de pragas, entraram no mercado nos anos 1990. Mais tarde, estudos começaram a apontar que estes produtos também estão relacionados a disfunções reprodutivas e comportamentais nos descendentes.

No entanto, poucos estudos têm investigado o metabolismo da glicose e a obesidade como desfechos. Vale destacar que os Neonicotinoides são devastadores para insetos polinizadores, como as abelhas, inclusive já tendo sido o seu uso suspenso por alguns países.

Em nossa revisão de literatura, identificamos estudos que apontam que o Imidacloprida, um inseticida do grupo dos Neonicotinoides e amplamente utilizado, já foi descrito como capaz de estimular a formação de células de gordura e de favorecer o desenvolvimento da obesidade. Isso leva a resistência à insulina em camundongos machos.

Já a exposição ao pesticida Nitenpiram durante a gestação pode provocar inflamação grave no fígado — conhecida como esteato-hepatite não alcoólica — além de alterações na microbiota intestinal, tanto em machos quanto em fêmeas.

Estudos mais recentes mostram que mesmo doses consideradas "seguras" de Clotianidina, quando a exposição ocorre no período perinatal, podem causar toxicidade reprodutiva em camundongos adultos de ambos os sexos.

Outros pesticidas dessa classe também têm sido associados a efeitos preocupantes. O Acetamiprida foi relacionado a prejuízos na memória.

Estes são apenas alguns exemplos e só reforçam a importância e urgência em nossas políticas com o uso de pesticidas. Precisamos reformular ações regulatórias a fim de reduzir o impacto desses produtos sobre a saúde das futuras gerações.

Esta pesquisa contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), que também apoio a divulgação deste artigo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Patrícia Cristina Lisboa recebe financiamento da FAPERJ, do CNPq e da CAPES

Egberto Gaspar Moura recebe financiamento da Faperj, CNPq e Capes.

Rosiane Aparecida Miranda recebe financiamento da FAPERJ.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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