Peças escultóricas que falam sobre o tempo dão o tom à nova coleção da Aluf
A marca autoral de Ana Luisa Fernandes preza pela atemporalidade e voltou às passarelas depois de 3 anos
Onde começa a história de uma marca? Na moda, principalmente quando estamos falando de trabalho autoral, muitas vezes marca e criador se confundem na cronologia dos fatos. A prova de que esta teoria se aplica à Aluf surge logo de cara durante minha entrevista com sua jovem fundadora e diretora criativa Ana Luisa Fernandes, de 27 anos.
"Se for para contar do começo, vou considerar que foi quando eu tinha 15 anos e pedi uma máquina de costura", diz a estilista enquanto estamos sentadas no belo jardim aos fundos de sua primeira loja, um espaço inaugurado no fim do ano passado na Rua da Consolação, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Um espaço que traz na arquitetura uma extensão do trabalho de Ana Luisa. Um mundo singular pautado por curvas, harmonia, elegância e poesia.
Ana Luisa nasceu em Belém, PA, aos 3 anos se mudou com a família para Niterói, RJ, e lá passou a maior parte de sua vida. Desde cedo, Fernandes viu a moda como forma de expressão e objetivo de carreira, seu plano inicial, no entanto, era ser jornalista e escrever sobre o tema. A vocação para trabalhar com produto falou mais alto quando a estilista se mudou para São Paulo para cursar moda em 2013.
Quatro anos depois - em 2017 - nasceu a Aluf, fruto de uma coleção feita como trabalho de conclusão de curso e de um artigo acadêmico, ambos baseados nos fundamentos da arteterapia e em estudos sobre como desenvolver uma marca comercial de princípios, valores e produtos sustentáveis.
SUCESSSO. O sucesso veio rápido e já em 2018 a marca apresentou sua coleção em um showroom em Londres e fez sua estreia no SPFW, durante a edição de outubro. Desde então, ao lado de seu sócio Bruno Cardozo - que ocupa o posto de CEO da marca desde 2019 -, a diretora criativa vem trilhando sua história na moda brasileira com a Aluf, que no último sábado ganhou um novo capítulo com o desfile de sua nova coleção intitulada Relembrar.
As coleções da marca, por sinal, são perenes, não têm "data de validade" e não entram em liquidação ao final de cada temporada. O movimento que está em perfeito alinhamento com as conversas sobre uma moda mais sustentável e ecológica, na verdade, é visto por Ana Luisa como "um pensamento lógico". A estilista entende que grandes marcas lançam mão de tais artifícios por questões de estoque e logística, mas ao mesmo tempo é apaixonada por cada uma de suas peças e valoriza com paixão o trabalho envolvido na criação delas.
Com isso em mente, arquitetou uma estratégia de vendas - que envolve um estoque mais enxuto e produção de peças sob medida - para preservar tanto o valor financeiro quanto o simbólico de suas criações. Abordagem esta que torna sua moda verdadeiramente atemporal.
Tempo é uma palavra-chave para falar da nova coleção da Aluf. Longe das passarelas há cerca de três anos, Ana Luisa Fernandes fala principalmente sobre o passado em Relembrar. As peças curvilíneas e escultóricas, que aparecem majoritariamente em tons crus e são pontuadas por uma profusão de texturas, são uma homenagem à Ana Luísa de 2017.
"A conclusão dos sonhos daquela Ana mais jovem, para encerrar este capítulo e abrir espaço a novos sonhos", diz a estilista, que está prestes a abrir mais uma loja em São Paulo ainda em novembro. De 2019 para cá, a Aluf passou por um crescimento de 700% e as expectativas para este novo momento são altas.
BRASILIDADE. "Algumas pessoas definiram minha moda como minimalista ou como 'a nova alfaiataria'. Não sei se concordo", declara a estilista. De fato, definir a Aluf como tal seria tirar de suas criações a exuberância repleta de curvas, suas texturas, seus volumes, seu olhar histórico de pura brasilidade.
Ana Luisa equilibra vários aspectos com maestria. Uma moda minimalista exuberante, intelectual, poética com um aroma brasileiro de sensualidade. Uma jovem potência criativa brasileira a ser acompanhada de perto.