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Parasitos de lambaris de rios da Mata Atlântica ganham nome e sobrenome

Laboratório de Helmintos Parasitos de Peixes do Instituto Oswaldo Cruz acaba de encontrar as duas espécies de parasitos desconhecidas pela Ciência

22 jul 2026 - 11h28
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Em cada lambari que nada tranquilo pelas águas de um rio existe um mundo em miniatura que quase ninguém nunca viu. Nas suas brânquias, parasitos menores que um milímetro vivem, se reproduzem e evoluem. Dois deles acabam de ganhar nome e sobrenome na Ciência.

Em uma coleta de rotina dentro da Mata Atlântica, no Rio de Janeiro, descobrimos novos parasitos de Astyanax taeniatus (Jenyns), popularmente conhecido como lambari. Os parasitos estavam escondidos em suas brânquias.

O lambari é um dos peixes de água doce mais comuns e abundantes de grandes rios brasileiros, mas também em riachos de mata fechada e até em ambientes mais degradados, graças à sua notável tolerância a águas pobres em oxigênio e a variações de temperatura.

Além disso, para quem é de Minas Gerais ou São Paulo já deve ter ouvido ou experimentado a iguaria. O lambari frito é um prato tradicional e quase que um item obrigatório em festas de rio.

O peixinho também é amplamente usado como isca viva por pescadores em busca de espécies maiores.

Ecologicamente, cumpre um papel importante: alimenta-se de insetos, frutas e sementes caídas na água, contribui para a dispersão de sementes e o equilíbrio da cadeia alimentar de pequenos cursos d'água. Uma outra curiosidade é que os machos durante a reprodução têm cores mais vivas.

Novas espécies

No Laboratório de Helmintos Parasitos de Peixes, do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, coletamos frequentemente peixes para analisar os parasitos.

Durante um levantamento parasitológico em peixes do rio Engenho Novo, na Estação Biológica da Fiocruz Mata Atlântica, encontramos as duas espécies de parasitos desconhecidas pela Ciência.

As espécies fazem parte de uma família de parasitos conhecida como Dactylogyridae, que vive principalmente nas brânquias. Por isso também são chamados de "vermes de brânquias".

Nosso estudo representa o primeiro levantamento helmintológico de peixes que habitam esse rio e amplia o conhecimento atual sobre a fauna de helmintos de peixes de água doce do Rio de Janeiro.

Batizamos uma das novas espécies de parasito com o nome Diaphorocleidus santosclappae. Essa escolha se deu em homenagem à pesquisadora Michelle Santos-Clapp, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que foi orientadora da primeira autora do estudo.

Concluímos que era uma nova espécie, pois ela difere de todos os seus congêneres, na morfologia de sua peça acessória, que compõem o órgão copulatório masculino desses parasitos, que são hermafroditas.

A outra espécie nova, Jainus mataatlanticaensis, recebeu o nome em homenagem ao bioma em que foi encontrada e também apresenta características morfológicas distintas das demais espécies do gênero.

Homenagear o bioma foi uma forma de sinalizar o quanto de biodiversidade a ser descoberta ainda deve existir na Mata Atlântica, tão impactada pela ação humana.

Importância da descoberta

Estudos como o nosso revelam ainda o quanto ainda desconhecemos sobre a biodiversidade parasitária. Muitas espécies de helmintos são altamente específicas de hospedeiro e coevoluíram com peixes ao longo de milhões de anos. Descrever novas espécies ajuda a entender relações filogenéticas e processos de especiação.

A identificação desses parasitos em lambaris de ambiente natural ganha uma relevância ainda maior pelo fato de que essas espécies também são amplamente cultivadas. Sendo assim, a descoberta é importante tanto para a saúde dos peixes como para a produtividade da aquicultura.

Muitos helmintos parasitos, como os Dactylogyridae, podem causar mortalidade significativa em peixes cultivados, especialmente em sistemas de alta densidade. Portanto, conhecer a fauna parasitária local, mesmo em populações silvestres, funciona como uma ferramenta preventiva essencial para evitar surtos e prejuízos econômicos na piscicultura.

Temos que destacar que as espécies encontradas nos lambaris não representam qualquer prejuízo à saúde humana. Esses parasitos não utilizam o homem como hospedeiros em seus ciclos.

A composição e abundância de parasitos em uma população de peixes pode refletir a saúde do ecossistema aquático e os parasitos podem funcionar como bioindicadores ambientais. Mudanças na comunidade de parasitos às vezes sinalizam poluição, alterações de habitat ou estresse ambiental antes que outros indicadores mostrem problemas.

Acreditamos que este primeiro levantamento helmintológico de um rio da Mata Atlântica cria um importante registro de referência. Sob nosso ponto de vista, isso é essencial para monitorar mudanças futuras e avaliar impactos de atividades humanas em áreas protegidas.

Hotspot de biodiversidade

A Mata Atlântica é a segunda maior floresta tropical da América do Sul, superada apenas pela Floresta Amazônica. Apesar de sua alta biodiversidade e endemismo, e de seu reconhecimento como um hotspot global de biodiversidade, esse bioma sofreu uma fragmentação severa, resultando em uma redução de aproximadamente 90% de sua área original

A Floresta da Pedra Branca é o maior remanescente de Mata Atlântica na zona Oeste do município do Rio de Janeiro e a maior floresta urbana das Américas. Uma parcela significativa dessa vegetação é protegida pelo Parque Estadual da Pedra Branca, que integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

O campus Fiocruz Mata Atlântica está localizado no Maciço da Pedra Branca situado dentro do Parque Estadual. A Estação Biológica Fiocruz Mata Atlântica totaliza 430 hectares. É importante destacar que 262 hectares (61%) do território da estação se sobrepõem ao Parque Estadual.

Este estudo recebeu apoio da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB) da Fiocruz e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e contou com a parceria dos pesquisadores da Fiocruz Mata Atlântica, especialmente aos pesquisadores Ricardo Moratelli e Iuri Veríssimo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Rayane Duarte recebe financiamento da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas, VPPCB, da Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Marcia Cristina Nascimento Justo, Robertta Gitahy Freire, Simone Chinicz Cohen e Yuri Costa de Meneses não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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