Script = https://s1.trrsf.com/update-1785845726/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Papel do Marrocos na crise migratória de Ceuta divide especialistas

Entrada de milhares de pessoas em território espanhol na África reacendeu suspeitas em Madri sobre atuação do reino marroquino

4 ago 2026 - 08h05
(atualizado às 09h15)
Compartilhar
Exibir comentários

Entrada de milhares de pessoas em território espanhol na África reacendeu suspeitas em Madri sobre atuação do reino marroquino, em um contexto marcado por disputas regionais e desinformação nas redes sociais.O governo do Marrocos demorou a se pronunciar sobre a recente entrada de dezenas de milhares de migrantes na cidade espanhola de Ceuta, exclave europeu no norte da África. Apenas no último domingo (02/08), o porta-voz do Ministério do Interior, Rachid El Khalfi, atribuiu o episódio ao "uso malicioso" das redes sociais, à disseminação de informações enganosas e a interpretações equivocadas de uma decisão da Suprema Corte da Espanha.

Observadores dizem que agentes marroquinas se omitiram, ou não conseguiram conter onda de migrantes
Observadores dizem que agentes marroquinas se omitiram, ou não conseguiram conter onda de migrantes
Foto: DW / Deutsche Welle

O Marrocos também reafirmou sua colaboração com a Espanha e sustentou que os acontecimentos não foram planejados pelo reino.

Na Espanha, porém, a atuação marroquina no caso é questionada, reflexo de uma crise migratória em Ceuta, em 2021, na qual o reino marroquino deliberadamente facilitou o avanço de imigrantes para o exclave espanhol devido a divergências com o país europeu sobre a antiga colônia do Saara Ocidental, ocupada há décadas pelo Marrocos.

Atualmente, as relações entre os países estão estáveis, mas novos atritos surgiram após o governo espanhol sugerir um projeto de lei que concede a nacionalidade espanhola aos saarauís nascidos quando o Saara Ocidental ainda estava sob tutela espanhola, antes de 1977.

A reaproximação entre Espanha e Argélia, que rejeita a reivindicação marroquina sobre o Saara Ocidental, também gerou novos atritos.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, ressaltou a colaboração do Marrocos, mas classificou o episódio como um "ataque à soberania territorial". Vídeos divulgados nas redes sociais mostraram agentes de segurança marroquinos sem tentar impedir o avanço da multidão em direção à fronteira. ONGs marroquinas também criticam o fato de as autoridades do país não terem identificado o imenso fluxo interno de pessoas rumo ao norte.

Especialistas apontam complexidade do caso

Especialistas ouvidos pela DW concordam que explicações simplistas não dão conta da complexidade do caso, embora divirjam quanto ao grau de responsabilidade do Marrocos.

"Hoje estamos diante de uma situação muito diferente da de 2021", afirma Isabelle Werenfels, especialista em Magrebe da Fundação Ciência e Política (SWP). Naquele momento, segundo ela, o reino tinha um interesse claro em pressionar a Espanha em meio às disputas relacionadas ao Saara Ocidental.

Agora, argumenta, uma eventual instrumentalização deliberada da migração teria um custo elevado para o Marrocos. "O país teria muito a perder, especialmente em credibilidade internacional e investimentos."

O pesquisador de migrações Jochen Oltmer, da Universidade de Osnabrück, também alerta contra conclusões precipitadas. "Há uma combinação de interesses muito distintos em jogo", diz. Para ele, fatores como a condição singular de Ceuta, as dinâmicas migratórias acumuladas ao longo de décadas, a influência das redes sociais e o desejo de melhores oportunidades ajudam a explicar os acontecimentos.

Enquanto Werenfels enfatiza os custos políticos que uma ação deliberada poderia trazer ao reino, Oltmer é mais categórico ao avaliar a conduta das autoridades marroquinas.

"Uma travessia dessa magnitude jamais teria ocorrido se as autoridades marroquinas não tivessem, ao menos, optado por ignorá-la", afirma. Sem esse comportamento, acrescenta, seria difícil imaginar uma passagem em massa dessa proporção, sustenta. Segundo a Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH), uma ONG crítica ao governo, cerca de 100 mil pessoas se deslocaram internamente no país antes de metade delas atravessar a fronteira em direção a Ceuta.

Entre um sinal político e uma ação coordenada

Werenfels não descarta que o Marrocos tenha buscado enviar uma mensagem política. Entre os fatores que poderiam explicar esse gesto está a recente reaproximação entre Espanha e Argélia, argumenta. Argel apoia a Frente Polisário, grupo que disputa a soberania do Saara Ocidental com o reino norte-africano. Sánchez esteve no país vizinho ao Marrocos em junho, na primeira visita de um primeiro-ministro espanhol em quatro anos.

Ainda assim, Werenfels ressalta que existe uma diferença significativa entre transmitir um sinal diplomático e organizar deliberadamente uma movimentação migratória de grandes dimensões.

"Considero pouco plausível que o Marrocos tenha planejado algo dessa escala, embora não seja possível descartar totalmente essa hipótese", afirma. Segundo a pesquisadora, as informações disponíveis continuam insuficientes para uma conclusão definitiva.

A questão da responsabilidade

Para Oltmer, diversos elementos indicam que Rabat pode ter agido em defesa de interesses próprios. Segundo ele, o reino se apresenta há anos como um parceiro indispensável da Europa na gestão da migração e frequentemente ressalta o grau de dependência da União Europeia em relação à sua cooperação.

Além disso, o conflito envolvendo o Saara Ocidental e a rivalidade com a Argélia continuam sendo componentes centrais da política externa marroquina.

"Tenho dificuldade em imaginar que os acontecimentos recentes tenham ocorrido sem algum interesse específico por parte do governo marroquino", diz.

Werenfels, por sua vez, defende uma análise mais cuidadosa. Ela considera possível que o Marrocos pretendesse emitir um sinal político, mas admite que a situação pode ter escapado ao controle.

Na avaliação da especialista, é difícil imaginar que o reino esteja disposto a comprometer suas relações com a Espanha e com a União Europeia. Essa cautela seria ainda mais importante diante da organização conjunta da próximaCopa do Mundo por Marrocos, Espanha e Portugal, além da dependência marroquina das exportações espanholas de gás. Em 2025, um quarto da venda do combustível teve como destino o país norte-africano.

Mesmo no cenário de uma tentativa de pressão diplomática, ela considera improvável que as autoridades do reino tenham organizado conscientemente um movimento migratório dessa dimensão, devido aos elevados riscos políticos e econômicos envolvidos.

Sem evidências de participação de outros países

Os dois especialistas afirmam não haver indícios consistentes de envolvimento de outros governos.

Werenfels admite que atores estatais ou grupos políticos possam ter tentado explorar o episódio para promover suas próprias agendas ou ampliar sua repercussão. Ainda assim, não há elementos que permitam atribuir a eles um papel central nos acontecimentos.

Também permanece sem resposta a questão sobre a rapidez com que a situação evoluiu. A pesquisadora considera provável que rumores sobre uma suposta abertura da fronteira tenham se espalhado em poucas horas, levando muitos jovens marroquinos a se deslocarem espontaneamente para Ceuta.

Outra possibilidade é que agentes de segurança locais não tenham conseguido ou simplesmente não tenham tentado conter o fluxo diante da velocidade dos acontecimentos.

Muitos jovens ouvidos pela imprensa dizem ter visto informações nas redes sociais de que a fronteira teria sido rompida. O fluxo teria se iniciado após uma decisão judicial espanhola que passou a proibir a devolução imediata de imigrantes que atravessem a fronteira por via marítima, o que pode ter motivado muitos a chegar a Ceuta a nado. Os agentes espanhóis passaram a tratar esses casos com mais cautela em meados de julho, até a crise da última semana. Diferente do que muitos acreditavam, porém, o despacho não proibia a deportação.

"Trata-se de esperança e expectativas de futuro"

Ao analisar as causas mais profundas da migração, os dois especialistas chegam a conclusões semelhantes.

"Trata-se de esperança e expectativas de futuro", resume Oltmer. Segundo ele, o Marrocos é há décadas um país de emigração, e as amplas redes familiares e de amizade estabelecidas na Europa facilitam a decisão de buscar uma vida melhor no exterior.

Werenfels acrescenta que os fatores econômicos e sociais continuam sendo decisivos. Embora o reino tenha registrado avanços nos últimos anos, muitos jovens não perceberam benefícios concretos em seu cotidiano.

Problemas persistentes nas áreas de educação e saúde, aliados à falta de perspectivas profissionais, contribuem para que muitos estejam dispostos a assumir riscos significativos na tentativa de migrar.

Apesar das divergências sobre o grau de responsabilidade do Marrocos no episódio, os dois pesquisadores concordam em um ponto: o que ocorreu em Ceuta não pode ser explicado por uma única decisão política nem por teorias conspiratórias. A combinação de tensões geopolíticas, interesses ligados à política migratória e perspectivas limitadas para parte da juventude marroquina ajuda a compreender por que os acontecimentos ganharam tamanha dimensão.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra