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Opinião: É hora de tornar a vacinação obrigatória na Alemanha

19 nov 2021 - 13h12
(atualizado às 17h07)
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Os alemães se veem em meio à quarta onda de covid-19, mas os políticos seguem discordando sobre como combater a pandemia. Somente a vacinação é capaz de conter as infecções e quebrar esse ciclo, opina Sabine Kinkartz.Jornalistas tendem a ser muitas vezes frios e calculistas. Tentamos não deixar que os sentimentos influenciem no nosso trabalho. Em princípio, essa parece ser uma boa premissa. Afinal, nosso ofício é observar e analisar o mundo à nossa volta, comparar e contextualizar diferentes pontos de vista, além de destacar problemas e equívocos. Mas quando se encara uma tragédia cotidiana de maneira muito próxima, bem, aí os jornalistas também são seres humanos.

Foto: DW / Deutsche Welle

Uma colega minha visitou recentemente uma UTI para ver, em primeira mão, como os hospitais alemães estão lidando com o dramático pico de infecções por coronavírus. Quando ela retornou à redação, disse que ainda precisava digerir o que havia acabado de testemunhar. A enfermeira e o médico que ela entrevistou debulharam-se em lágrimas devido à terrível situação que eles enfrentam diariamente.

Profissionais exasperados

Médicos são confrontados com o sofrimento humano e a morte todos os dias. No entanto, eles estão perplexos por observarem pacientes perfeitamente saudáveis morrerem após contraírem a covid-19. Pacientes que, sem a infecção, teriam muitos outros anos de vida plena pela frente.

Atualmente, mais de 200 pacientes estão morrendo dirariamente por causa do coronavírus na Alemanha - e os números estão aumentando. Uma vez que os casos seguem crescendo, o Natal ameaça tornar-se uma época de luto, e não de festividades, com vários entes queridos tirados para sempre de suas famílias.

Muitos dos mortos serão aqueles que decidiram não arregaçar as mangas para tomar a vacina contra o coronavírus. Essas pessoas foram ou são contra a vacina. Por alguma razão, duvidam da sua segurança e eficácia ou sentem-se pressionadas a imunizarem-se. De qualquer forma, elas não consideram a covid-19 uma doença grave.

Os cínicos céticos da vacina

Estamos em novembro de 2021, e a Alemanha se encontra em meio a um surto de infecções por coronavírus ainda pior do que no ano passado. A situação é intrigante, porque há vacinas à disposição. Ainda assim, a taxa de imunização não chegou a 70% no país. O número de pessoas vacinadas é especialmente baixo nos estados da Saxônia e da Baviera. Mas por que há tanta gente indisposta a se vacinar? Muitas pertencem ao movimento "Querdenken" ("pensamento lateral", em tradução livre para o português), que é profundamente cético em relação ao estado alemão, à política, à mídia e à sociedade em geral. Afinal, o que os torna tão desconfiados, o que alimenta o ódio a ponto de ameaçar rasgar o tecido da sociedade?

Não há uma explicação específica. Mas os legisladores alemães certamente carregam parte da culpa. Desde o começo da pandemia, muitas vezes, eles parecem inseguros e indecisos. Os estados raramente têm entrado em acordo sobre qual é a melhor maneira de conter a pandemia. Como resultado, o governo federal assumiu o comando. Isso ajudou a racionalizar a abordagem do país para lidar com o vírus - mas somente até a chegada das eleições parlamentares em setembro.

Medo de perder votos

Durante o verão, quando alguns estados europeus impuseram vacinas obrigatórias para certas profissões, os partidos alemães torceram o nariz. Eles preferiram não agir, temendo que qualquer medida pudesse levar eleitores a migrarem seus votos para a AfD (Alternativa para a Alemanha, partido populista de ultradireita), que tem cortejado o movimento "Querdenken" e aqueles que se opõem à vacinação.

Durante a campanha eleitoral, todos os partidos disseram que as vacinas permaneceriam voluntárias. E essa promessa os vinculou a isso. Agora, planejam barrar os não vacinados. Meses depois, os governadores retomaram as conversas com a chanceler federal Angela Merkel e decidiram lançar a regra 2G ("geimpft oder genesen", ou seja, vacinado ou curado, em português) e 2G plus (vacinados ou curados, porém ambos também testados, isto é, devem apresentar ainda um teste negativo para acessarem locais públicos). A medida torna, assim, mais difícil a vida de quem não se vacinou.

Ainda uma emergência epidemiológica nacional

Se as medidas citadas no parágrafo acima fossem realmente a solução para o problema… Ninguém pode ser barrado de serviços essenciais. Todos têm o direito de comprar comida e ir ao trabalho, e esses lugares terão de deixar os vacinados e recuperados entrarem, bem como os não vacinados que apresentarem um teste negativo. E como aplicar essas regras no transporte público? A nova coalizão governamental - provavelmente, de centro-esquerda, entre sociais-democratas, ambientalistas verdes e neoliberais de centro-direita - pensou nisso quando aprovou a nova Lei de Proteção contra Infecções?

A Lei de Proteção contra Infecções substitui a Lei Nacional de Emergência Epidemiológica, que se tornou legalmente insustentável, uma vez que a maioria dos alemães está vacinada (em torno de 68% da população total). Mesmo assim, a situação epidemiológica permanece catastrófica, e os políticos deveriam ter agido da mesma forma. Em vez disso, os legisladores têm enfatizado que o novo ato colocará menos restrições à vida cotidiana. Regras mais rígidas entrarão em vigor apenas se os casos de coronavírus continuarem a subir.

Tornar a vacinação obrigatória

A Lei de Proteção contra Infecções coloca os 16 estados alemães de volta no comando. Isso significa que, mais uma vez, não haverá uma resposta nacional coerente contra a pandemia. Ao invés disso, ocorrerá uma cacofonia de opiniões e discussões intermináveis sobre como sair da pandemia.

Isso, no entanto, é uma perda de tempo, já que sabemos o que precisa ser feito: vacinar todos! Há muitas doses a serem administradas, basta a determinação para impulsionar a aplicação das vacinas.

Quando os deputados finalmente entenderão que apelar aos não vacinados e estimular todos a agirem de forma responsável não é o bastante? Há apenas uma solução para essa bagunça: tornar a vacinação obrigatória para todos. É inacreditável que as vacinas ainda não sejam obrigatórias para qualquer pessoa que trabalhe no setor de saúde da Alemanha, em casas de repouso, escolas e jardins de infância.

Aprendendo com os erros

O que precisamos são líderes que tenham coragem de agir, mesmo que qualquer medida a ser tomada agora seja tardia demais para conter a já corrente quarta onda de infecções. No Natal, muito mais pessoas terão morrido após contraírem coronavírus. A menos que mudemos de rumo e tomemos medidas decisivas, a quinta e sexta ondas chegarão também. Somente as vacinas e as doses de reforço podem quebrar esse ciclo.

Sabine Kinkartz é jornalista. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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