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Ofensiva de Israel no Líbano coloca acordo EUA-Irã à prova

19 jun 2026 - 08h00
(atualizado às 10h45)
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Ataques no Líbano deixaram dezenas de mortos e colocam em xeque acordo entre EUA e Irã. Teerã exige que israelenses cessem ações em território libanês, que começam a provocar fissuras entre Tel Aviv e Washington.Israel bombardeou o sul do Líbano durante a madrugada desta sexta-feira (19/06), no que teria sido o mais mortal ataque desde o início das investidas israelenses na região, a partir de março deste ano. O Ministério da Saúde do Líbano confirmou a ofensiva e comunicou que ao menos 18 pessoas morreram e mais de 30 ficaram feridas,, enquanto Israel relatou a morte de quatro soldados.

Durante a tarde, sob pressão dos EUA, Israel e o Hezbollah concordaram com um novo cessar-fogo.

O ataque e a pausa posterior ocorreram apenas horas depois da assinatura do acordo provisório de paz entre os EUA, aliado de Israel, e do Irã, aliado da milícia libanesa Hezbollah, lançando uma sombra sobre os esforços diplomáticos e levando Teerã a cancelar sua participação numa nova rodada de negociações em Genebra, na Suíça. No documento assinado na quinta-feira, consta que deve ser garantida a "integridade territorial e soberania" libanesas.

Moradores e meios de comunicação libaneses afirmaram que bombardeios e ataques aéreos atingiram várias cidades no distrito de Nabatieh durante a noite e nas primeiras horas desta sexta-feira, num episódio que a agência de notícias estatal libanesa NNA descreveu como um dos mais intensos das últimas semanas.

Israel afirmou que os ataques tinham como alvo membros e infraestruturas do Hezbollah em diferentes áreas do sul do Líbano e que os ataques ocorreram em resposta às repetidas violações de cessar-fogo por parte do grupo.

O Hezbollah afirmou que os seus combatentes emboscaram uma tropa do exército israelense que avançava perto da colina de Ali al-Taher, destruindo três tanques Merkava com mísseis guiados e atacando as tropas também com artilharia.

Impasse entre EUA e Israel

O acordo provisório assinado e divulgado nesta quarta-feira por EUA e Irã não inclui Israel e Hezbollah como partes. Enquanto o Irã insiste que Israel deve se afastar do sul do Líbano, o documento não é explicíto sobre isso.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que tem eleições pela frente ainda este ano, recusou a retirada das tropas, afirmando que as forças israelenses permanecerão no Líbano até que a ameaça do grupo Hezbollah seja eliminada.

O presidente dos EUA, Donald Trump, no entanto, tem criticado abertamente as medidas de Netanyahu, reafirmando, às vésperas da assinatura do acordo com o Irã, que "sem os EUA, não haveria Israel".

"Sem mim, não haveria Israel, porque nenhum outro presidente estava disposto a fazer o que eu fiz. Tenho uma excelente relação com ele [Netanyahu]. Mas ele precisa ser mais responsável no que diz respeito ao Líbano", afirmou Trump.

JD Vance adia viagem à Suíça e critica Israel

Os mais recentes ataques israelenses no Líbano ocorreram em meio ao adiamento das negociações e da assinatura formal do acordo entre Irã e EUA, que estavam previstas para ocorrer em Genebra, na Suíça, nesta sexta.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, adiou a viagem à Europa, que estava programada para esta quinta-feira, para liderar as negociações. A Casa Branca atribuiu o adiamento a questões logísticas, mas o anúncio surgiu depois de uma reportagem do canal árabe Al-Mayadeen - politicamente aliado do Hezbollah - ter afirmado que o Irã iria adiar o envio da sua delegação à Suíça devido à ofensiva militar de Israel em curso no sul do Líbano.

Inicialmente cético em relação à possibilidade de os EUA entrarem em guerra com o Irã, Vance tem se tornado o rosto do governo americano no conflito e defendido um acordo.

Nesta quinta-feira, ele compareceu à Casa Branca para defender o acordo inicial de prorrogar o cessar-fogo por 60 dias e permitir mais negociações, argumentando que, embora os EUA ofereçam concessões, o Irã precisa primeiro cumprir as exigências dos americanos.

Vance também dirigiu uma advertência direta a Israel, afirmando que Trump era "o único chefe de Estado em todo o mundo que demonstra simpatia pelo país neste momento".

"Minha resposta seria: qual é exatamente a proposta de vocês? Vocês são um país de 9 milhões de habitantes. Não podem simplesmente matar todos os seus problemas de segurança nacional", afirmou Vance em mensagem aos israelenses.

Acordo com 14 pontos

Trump assinou o documento provisório, chamado de Memorando de Entendimento [entre EUA e Irã] na quarta-feira, durante um jantar com o presidente francês Emmanuel Macron no Palácio de Versalhes, na França, durante a cúpula do G7.

Logo após a assinatura, os EUA afirmaram ter permitido a passagem de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, depois de meses sem poderem utilizar esse canal estratégico, por onde trafega um quinto da produção mundial de petróleo vindo do Golfo Pérsico rumo ao Mar Arábico.

O bloqueio do gargalo tem causado fortes impactos na economia global e é considerado por muitos especialistas, junto com a questão nuclear do Irã, o principal tema entre as pautas do acordo.

Estima-se que cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto, condensado e combustíveis sejam transportados pelo local diariamente, segundo dados da Vortexa, uma consultoria do mercado de energia e frete.

Com apenas 33 quilômetros de largura, o Estreito de Ormuz é o gargalo para o transporte de petróleo mais importante do mundo, na definição da Administração de Informações de Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês).

Mesmo assim, o acordo provisório suscitou críticas severas nos EUA, a exemplo de alguns republicanos mais fervorosos no Congresso, que temem que Washington tenha feito concessões demais ao Irã com o alívio de sanções e um potencial fundo de 300 bilhões de dólares para ajudar na reconstrução do país.

Irã aceita conversações

O líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, pareceu apoiar tanto o acordo quanto as possíveis negociações presenciais. Por meio de uma declaração divulgada por veículos de comunicação estatais, "as negociações cara a cara que se realizarão no futuro não significam aceitar a opinião do inimigo".

Esta foi a primeira reação de Khamenei ao texto, sendo interpretada como uma mudança na abordagem do Irã em relação ao conflito e aos EUA. Membros mais conservadores, a exemplo do pai de Khamenei, ex-líder supremo do Irã, morto em fevereiro deste ano após ataques conjuntos de EUA e Israel, sempre se opuseram às conversações diretas.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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