0

O senador por trás da estratégia do Podemos

Apoiador da Lava Jato, Oriovisto Guimarães considera Moro nome ideal para disputar Presidência

2 out 2019
11h08
atualizado às 11h49
  • separator
  • 0
  • comentários

Identificado como "partido da Lava Jato", o Podemos atraiu a ira do bolsonarismo, conforme mostrou o Estado no domingo , 29. Entre as novas caras do partido está o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR).

A ficha do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão do regime militar, é incisiva: "Foi ativista que, em maio de 1968, com atuação marcante e agressiva, liderou as agitações estudantis na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná". Passados 51 anos, Oriovisto é um dos estrategistas do "Muda, Senado; Muda, Brasil", grupo que está por trás do que o governo de Jair Bolsonaro considera outro tipo de "distúrbio" na ordem institucional: a ofensiva pela CPI da Lava Toga e pelo impeachment dos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

O senador Oriovisto Guimarães (Pode-PR)
O senador Oriovisto Guimarães (Pode-PR)
Foto: Eduardo Matysiak / Futura Press

Apoiador da Operação Lava Jato, Oriovisto considera o ministro da Justiça, Sérgio Moro, o nome ideal para presidir o País. Ele diz nunca ter compartilhado da intimidade do ex-juiz federal de Curitiba, mas não esconde a esperança de vê-lo como candidato ao Planalto em 2022. "Moro seria muito bem aceito em qualquer partido, menos no PT", observa. "Magalhães Pinto (ex-senador, ex-chanceler e ex-governador de Minas Gerais) já dizia que política é igual nuvem, você olha para o céu e cada dia elas têm uma formação diferente." Uma das principais lideranças do grupo, Oriovisto atua nos bastidores na definição de estratégias de atuação, apresentação de projetos que miram uma reforma do Judiciário e para barrar reações da classe política à Lava Jato, bandeira do Podemos.

O senador diz que "o maldito foro privilegiado" cria uma dependência entre senadores e ministros do STF e sintetiza os atuais descontentamentos da centro-direita. Diz-se frustrado com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que teve seu voto na eleição interna da Casa contra o "velho" Renan Calheiros (MDB-AL), de quem "não é amigo, nem sequer conhecido".

Também revela decepção com o presidente Jair Bolsonaro, sua escolha no segundo turno em 2018, por ações que teriam sido tomadas para beneficiar filhos: a criação da Unidade de Inteligência Financeira do Banco Central para substituir o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), cujas apurações atingiram o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), e o anúncio da indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada nos Estados Unidos. "São coisas que me decepcionaram profundamente. Tem que tratar os filhos como qualquer cidadão."

Preso no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna (SP), em 1968, e fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) como "membro da ala extremista do Partido Comunista", Oriovisto abandonou a militância de esquerda ainda na juventude. Aos 74 anos, considera o marxismo tese "démodé". "É uma história sem importância, conversa saudosista, coisa de estudante."

Professor de Matemática e empreendedor, Oriovisto comandou por 40 anos o Grupo Positivo. Fez de um cursinho pré-vestibular paranaense inaugurado nos anos 1970 um império educacional. Construiu patrimônio de R$ 240 milhões, o maior entre os senadores eleitos em 2018.

Um dos alunos de mais destaque da história do cursinho foi Deltan Dallagnol, procurador que coordena a força-tarefa da Lava Jato. Aprovado em primeiro lugar no vestibular da Universidade Federal do Paraná, em 1996, o adolescente Dallagnol ganhou como prêmio do Positivo um carro popular, vendido para doar a instituições de caridade. "É um guri que tem preocupação social forte. Tem vários Deltans entre os procuradores e vários Moros entre os juízes, gente que quer transformar o País. Acho isso fantástico", diz o senador.

Em 2012, ele passou o comando da empresa para os filhos, investiu no mercado financeiro, em imóveis e tirou um ano sabático, até que sentiu "um vazio" e decidiu retomar a veia política. Por influência do amigo Álvaro Dias, senador paranaense que lidera o Podemos, e do ex-governador José Richa, Oriovisto passara anos filiado ao PSDB, mas se afastou do partido que considera, assim como o PT, uma instituição "em frangalhos".

Hotel

Em 2006, Oriovisto passou perto do Senado. Foi convidado para ser suplente de senador na chapa vitoriosa de Álvaro Dias, que tem quatro mandatos na Casa, mas abandonou a ideia, convencido por seu entorno de que o movimento explícito em oposição ao ex-presidente Lula, à época no Palácio do Planalto, poderia provocar retaliação. Ele temia não conseguir o aval do Ministério da Educação para expandir os negócios no ensino superior e credenciar a Universidade Positivo.

Mesmo estreante no ano passado, Oriovisto conquistou o primeiro lugar no Senado, com 2,9 milhões de votos. "O mais lógico seria eu perder, mas comecei a dizer umas verdades. Falei da reforma da Previdência, da reforma política e do nosso sistema judiciário, da tributária e da administrativa, porque somos um elefante. O que se gasta nesse Senado, na Câmara, é um absurdo", constata.

O senador reformou seu gabinete no Senado com dinheiro do próprio bolso e abriu mão de verbas e benesses do cargo. Passa as noites em Brasília num hotel, sem pedir reembolso ou auxílio-moradia, e não usa passagens aéreas emitidas pelo Congresso. Para o ir e vir entre Brasília e Curitiba, comprou um jatinho executivo, um luxuoso Embraer Phennon 300E, de nove passageiros. Preço de mercado: US$ 10 milhões. O jatinho tem como prefixo o acrônimo PR-OGS. Oriovisto não revela quanto pagou na transação. Faz questão de dizer que não usou financiamento do BNDES e que não pede reembolso nem do querosene de aviação: "Seria uma imundície".

Oriovisto não prevê vida longa como "político profissional". Diz que sua participação termina em 2026. Atual relator do Plano Plurianual 2020-2023, ele prefere as comissões ao tumulto do plenário. Os discursos que "ninguém ouve" e as votações "pré-combinadas" não lhe agradaram.

Veja também

 

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade