O que se sabe sobre teste de míssil da China lançado de submarino
Teste de míssil balístico desagrada países do Indo-Pacífico e gera temores diante da crescente militarização da China.A Marinha da China realizou, nesta segunda-feira (06/07), o teste de lançamento de um míssil balístico de longo alcance a partir de um submarino de propulsão nuclear. Segundo especialistas, o teste demonstra a crescente capacidade de Pequim no âmbito de sua estratégia de dissuasão nuclear.
Segundo a agência de notícias chinesas Xinhua, o teste, realizado às 12h01 (horário local), fez parte do plano anual de treinamento militar, e o míssil, equipado com uma ogiva de treinamento simulada, caiu precisamente na zona marítima pretendida.
Qual míssil foi lançado?
A China não divulgou o modelo do míssil usado no teste, mas especialistas disseram que pode se tratar de um míssil balístico JL-2 ou JL-3, ambos lançados a partir de submarinos (SLBM).
A Xinhua publicou uma foto do míssil nesta terça-feira, sem fornecer detalhes adicionais. Especialistas disseram que as imagens disponíveis não eram nítidas o suficiente para uma identificação precisa.
O jornal estatal Global Times afirmou que se tratava, "muito provavelmente", de um míssil JL-3, com alcance superior a 10 mil quilômetros.
O secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional de Taiwan, Joseph Wu, afirmou que o projétil testado por Pequim era um JL-2, que tem um alcance superior a 8 mil quilômetros.
Qual submarino teria sido usado?
O lançamento foi feito a partir de um submarino de propulsão nuclear, informou a Xinhua, sem especificar a classe do submarino. Pelas informações disponíveis, ele corresponderia à Type 094, a única classe de submarinos de propulsão nuclear em serviço ativo na China capaz de lançar mísseis balísticos.
Onde o míssil caiu?
Segundo a Xinhua, o míssil foi disparado em direção a uma área específica de alto mar do Oceano Pacífico e caiu com precisão dentro das águas designadas.
Wu divulgou um gráfico da suposta trajetória do míssil, que teria começado no Mar da China Meridional, sobrevoado o norte das Filipinas e caído no Pacífico Central, a sudeste de Nauru, um pequeno país insular de pouco mais de 11 mil habitantes.
Como reagiram os países da região?
A ação provocou protestos dos EUA, bem como de países da Ásia e do Pacífico. As potências regionais do Pacífico (Austrália, Nova Zelândia e Japão) receberam apenas um aviso prévio pouco antes do teste e disseram que ele foi insuficiente.
O Japão afirmou que, ao ser notificado sobre o lançamento iminente, "expressou profunda preocupação com o aumento da atividade militar chinesa" e instou a China a reconsiderar.
Em resposta às críticas, a China afirmou que outros países devem "evitar interpretações exageradas", mas especialistas dizem que há fundamento nas preocupações.
Grande parte delas resulta da falta de informações claras, disse o especialista Drew Thompson, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, em Singapura. "A modernização e o desenvolvimento militar da China ocorreram sem aumentos simultâneos na abertura e na transparência, resultando em incerteza sobre as intenções", comentou.
O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, disse que a China não avisou o governo com antecedência suficiente. "Não há dúvida de que este é um ato provocativo da China que desestabiliza a região", disse ele durante uma visita às Ilhas Salomão. "Este foi um teste de um míssil balístico intercontinental com capacidade nuclear disparado de um submarino movido a energia nuclear. Isso é realmente preocupante porque o que precisamos é de menos armas nucleares, certamente não mais", acrescentou.
O governo da Nova Zelândia chamou o teste de "indesejável e preocupante" e acrescentou que o míssil foi lançado em águas abrangidas pelo Tratado da Zona Livre de Armas Nucleares do Pacífico Sul, ou Tratado de Rarotonga, violando o espírito do acordo.
Essa zona foi estabelecida pelo tratado de 1986, que proíbe armas nucleares em toda a região. A China ratificou os protocolos do tratado em 1987, comprometendo-se a não testar armas nucleares na área e a não ameaçar utilizá-las contra signatários que possuíssem território na região.
O primeiro-ministro das Ilhas Salomão, Matthew Wale, disse que a China é uma nação amiga, "mas isso não é algo que um amigo faça".
E por que agora?
O teste coincidiu com a assinatura, em Fiji, de um pacto de defesa mútua entre essa nação insular e a Austrália. A aliança Oceano de Paz compromete a Austrália e Fiji a defenderem-se mutuamente caso sejam atacadas.
Pequim e as potências ocidentais, lideradas pelos EUA e pela Austrália, disputam há anos influência nessas nações insulares estrategicamente localizadas, e alguns analistas sugeriram que a coincidência de datas poderia estar relacionada.
O analista Mark Douglas, da empresa de rastreamento de navios Starboard Maritime Intelligence, sediada na Nova Zelândia, afirmou que o teste provavelmente foi planejado com bastante antecedência, mas que o momento escolhido pela China para o aviso foi "interessante, para dizer o mínimo".
Nouwens sugeriu que a China poderia estar tentando sinalizar seu descontentamento com o acordo entre a Austrália e Fiji, mas que o lançamento pode se mostrar contraproducente e afetar negativamente a imagem da China entre os países do Pacífico Sul.
O que o teste diz sobre a militarização da China?
A Xinhua afirmou que o lançamento fez parte de um treinamento anual de rotina, estava em conformidade com o direito e as práticas internacionais e não tinha como alvo nenhum país ou local específico.
O míssil transportava uma ogiva de teste (sem carga explosiva) e não uma ogiva nuclear. O lançamento em águas internacionais foi um evento incomum, embora os EUA também tenham realizado procedimentos semelhantes em seus próprios testes de mísseis.
O teste mais recente de um míssil balístico intercontinental pela China havia sido em 2024. Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, este seria o primeiro teste conhecido de um míssil lançado de um submarino chinês desde 1982, e o primeiro teste registrado realizado a partir de um submarino de propulsão nuclear, uma peça fundamental da arquitetura de dissuasão do país.
Especialistas afirmaram que o lançamento acirra as tensões em torno da crescente militarização na Ásia. "É uma provocação que desestabiliza a região do Indo-Pacífico. A China acaba de demonstrar, mais uma vez, que é uma potência agressiva em sua região", afirmou Wu.
O teste ocorreu em meio ao aumento da atividade militar chinesa no Pacífico Ocidental e coincidiu com o início dos exercícios navais conjuntos sino-russos Mar Conjunto-2026, que continuarão até 13 de julho no Mar Amarelo, próximo à costa de Qingdao.
O presidente chinês, Xi Jinping, tornou a modernização do Exército de Libertação Popular uma prioridade máxima de seu governo. A China já possui o maior exército permanente e a maior marinha do mundo. Embora seu arsenal nuclear esteja aquém do dos EUA e da Rússia, o país vem expandindo seu estoque de ogivas nucleares. Também tem desenvolvido novos mísseis de maior alcance e drones avançados.
O orçamento de defesa da China, projetado para atingir 270 bilhões de dólares em 2026, cresceu cerca de 7% nos últimos quatro anos e mantém-se abaixo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No entanto, análises independentes sugerem que os gastos reais podem ser muito maiores. Por exemplo, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) estima o valor total para 2024 em 313,7 bilhões de dólares.
Em resposta à expansão militar e às atividades da China, países da região aumentaram seus próprios gastos com defesa. Entre eles está o Japão, que está rompendo com seu limite de longa data de 1% do PIB para dobrar o orçamento para 2%. Já as Filipinas concordaram em permitir que os EUA expandissem sua presença militar no país, concedendo acesso a mais quatro bases.
"O lançamento chinês agrava as relações já profundamente tensas entre Pequim e Tóquio. Desde os comentários feitos no ano passado pela [primeira-ministra Sanae] Takaichi, sugerindo que o Japão se envolveria num conflito por causa de Taiwan, a China endureceu os controles de exportação para o Japão e acusou o país de adotar uma 'nova era de militarismo'", afirmou a analista Emma Chanlett-Avery, diretora de Assuntos Políticos e de Segurança do Asia Society Policy Institute.
E o que isso significa para Taiwan?
O gabinete presidencial de Taiwan classificou o teste como uma tentativa da China de intimidar a comunidade internacional. A ilha vem alertando há tempos sobre o aumento da atividade militar de Pequim.
Uma autoridade sênior de segurança de Taiwan afirmou, na segunda-feira, que o governo em Taipé estava monitorando uma "tendência de alta" nos movimentos navais chineses durante o período de pico de exercícios militares, incluindo manobras conjuntas com a Rússia.
Grande parte das preocupações de segurança sobre um possível envolvimento militar da China numa guerra concentra-se em Taiwan, a ilha com governo democrático próprio que a China reivindica como sua e contra a qual não descartou o uso da força para retomar o controle.
A China também envia regularmente aeronaves de combate e navios da marinha para as águas ao redor da ilha, no que descreve como exercícios militares.
as/cn (Efe, AFP, Reuters, Xinhua)
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