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O que a vitória democrata significa para a economia dos EUA sob Trump

4 nov 2026 - 15h36
(atualizado às 15h49)
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Resumo
A vitória democrata no Congresso dos EUA sinaliza forte oposição popular às tarifas de Donald Trump e ao avanço desregulamentado da inteligência artificial. Contudo, analistas preveem um impasse político em Washington, já que o presidente mantém poder de veto para blindar suas diretrizes econômicas. Enquanto os mercados temem estagnação, a pressão legislativa e o risco de investigações por corrupção podem forçar Trump a negociar sua política comercial e buscar a redução no preço do petróleo.

Preço do petróleo, IA e tarifas estiveram no centro das eleições legislativas de meio de mandato. Mas não está claro o quanto os democratas conseguirão impor mudanças diante do poder de veto do presidente.Para os milhões de americanos que participaram das eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, encerradas na terça-feira (03/11), a economia foi o tema mais importante da disputa.

Mas o presidente Donald Trump, cujo Partido Republicano perdeu as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, ainda tem dois anos de mandato na Casa Branca.

O que, então, as vitórias da oposição democrata de fato significam para a economia e a política econômica dos EUA?

Reação do mercado

A reação inicial dos mercados foi moderada, mas com tendência negativa. As bolsas globais caíram ligeiramente, enquanto o dólar seguiu o mesmo caminho.

Com os democratas agora detendo maiorias confortáveis nas duas casas do Congresso e Trump ainda na Casa Branca, isso pode levar a um impasse político em Washington. Trump já afirmou que se tornará o "Senhor Veto", indicando que bloqueará projetos que os democratas aprovarem no Legislativo.

"A magnitude dos ganhos dos democratas nas eleições de meio de mandato não altera muito as perspectivas de políticas públicas no curto prazo, já que o partido ainda não dispõe de uma maioria capaz de superar uma obstrução parlamentar no Senado, e o presidente Trump tem poder de veto para bloquear legislações", escreveu Stephen Brown, economista-chefe para a América do Norte da Capital Economics.

Para Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Peterson Institute for International Economics, "estamos olhando para dois anos de impasse completo".

No entanto, alguns investidores parecem preocupados com a possibilidade de os democratas conseguirem impor regulamentações para a inteligência artificial (IA), especialmente se também conquistarem a Casa Branca em 2028. A crescente oposição entre amplas maiorias da população dos EUA aos centros de processamento de dados, a principal infraestrutura por trás da IA, ajudou a garantir vitórias para muitos candidatos democratas.

Kirkegaard, que também é pesquisador sênior do Centro Europeu de Estudos Econômicos Bruegel, aponta que a votação mostrou a extensão dessa oposição. Mesmo que os democratas não consigam impor regulamentações, ele acredita que a resistência local dificultará a construção de centros de dados, o que poderia afetar as avaliações de mercado das grandes empresas de tecnologia que se beneficiaram do boom da IA.

"Esta eleição mostra que a sustentação política da narrativa de crescimento rápido e agressivo da IA é frágil", afirma. "Isso não significa que ela vá parar ou ser tornada ilegal, mas a dinâmica dessa narrativa de crescimento mudou."

Brown destaca que, se os democratas vencerem a Presidência em 2028, estarão em posição ideal para promover mudanças importantes. "Isso inclui a possibilidade de aumentos de impostos para empresas e indivíduos de alta renda, bem como regulamentações que poderiam atrasar a implementação da IA."

E as políticas tarifárias de Trump?

Segundo uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center no início de outubro, 56% dos americanos afirmam que as políticas tarifárias de Trump terão impactos predominantemente negativos para o país. Outros 20% afirmam que terão impactos predominantemente positivos.

Esse sentimento claramente contribuiu para a vitória de muitos democratas nas eleições de meio de mandato, especialmente em estados onde as tarifas tiveram efeitos particularmente negativos. Isso inclui estados com setores dependentes de exportações, como Texas, Michigan, Iowa e Illinois, que foram por tarifas retaliatórias, além de estados com elevado volume de comércio com o Canadá.

Ainda assim, a menos que haja uma mudança de posição sem precedentes por parte de Trump, que defende ideologicamente as tarifas há quase 50 anos, não está claro como os democratas poderão impor mudanças substanciais à principal política econômica do presidente.

"Trump não será moderado", disse Deborah Elms, chefe de política comercial da Fundação Hinrich, em Singapura, à DW anteriormente neste ano. "Espere que ele continue com suas políticas de disrupção comercial e de tarifas enquanto permanecer no Salão Oval."

Embora a Constituição dos EUA atribua ao Congresso o poder de arrecadar e organizar tarifas, diversas leis aprovadas ao longo dos anos concederam aos presidentes autoridade para implementar tarifas quando alegam determinadas condições, como questões de segurança nacional ou emergências econômicas.

Trump já utilizou esses instrumentos para impor suas taxas e pode continuar a fazê-lo, apesar de algumas contestações judiciais. No entanto, embora o Congresso não possa necessariamente forçar o fim das tarifas já existentes, agora ele pode adotar novas medidas legais contra elas para evitar uma escalada ainda maior.

Guerra no Irã e preços do petróleo

Kirkegaard avalia que, embora Trump e os democratas claramente não devam atuar em conjunto, a dimensão da derrota republicana pode forçar Trump a ser menos errático em sua formulação de políticas, desde a escalada da guerra comercial com o Canadá até sua política em relação ao Irã.

Após as derrotas de terça-feira, Trump afirmou que iria "trabalhar com" os democratas. Ao Financial Times, ele disse, antes da votação, que era improvável uma ampliação da guerra no Irã.

Caso um acordo seja alcançado com o Irã, os altos preços da energia, uma questão central nesta eleição, poderiam finalmente recuar, atendendo os eleitores preocupados com o custo de vida.

"É preciso chegar a um acordo com o Irã e reduzir os preços da gasolina", afirma Kirkegaard. "Do ponto de vista político, essa é agora a questão mais importante."

George Saravelos, analista do Deutsche Bank FX Research, acredita que os mercados estão começando a se tornar mais otimistas nesse aspecto.

"Com os fluxos de petróleo pelo Oriente Médio tendo se recuperado substancialmente, o mercado está precificando um elevado prêmio de risco imediato associado a uma nova escalada e a interrupções no fornecimento de energia", escreveu em relatório.

Trump poderá negociar?

Apesar da dimensão da vitória democrata, o fato de Trump continuar na Casa Branca complicará todos os esforços para impor mudanças em suas principais políticas econômicas.

Ainda assim, o Congresso poderá exercer pressão significativa. Outra questão considerada vital pelos eleitores foi a corrupção e a crença de que o governo Trump se envolveu em corrupção e enriquecimento pessoal durante o exercício do poder.

Isso aumenta a possibilidade de que o novo Congresso controlado pelos democratas lance investigações legais e possivelmente promova mais um processo de impeachment contra Trump, o que poderia forçar o presidente a negociar em questões econômicas para garantir sua sobrevivência política.

"É possível encontrar 10 ou 12 senadores republicanos que, diante de evidências esmagadoras de corrupção, estejam dispostos a votar por artigos de impeachment? Eu não descartaria essa possibilidade", afirma Kirkegaard. "E esse é um cenário em que Trump poderia, de repente, mostrar-se muito mais disposto, por exemplo, a abandonar a maior parte de suas tarifas."

Ainda que os eleitores tenham demonstrado uma rejeição clara às políticas econômicas de Trump, os novos senadores, deputados e deputadas democratas enfrentarão uma batalha difícil para tentar revertê-las.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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