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O mundo acertou proteger 30% dos oceanos até 2030, mas a proteção marinha não pode ser avaliada apenas com base na área

Até agora, cerca de 10% dos oceanos contam com proteção formal, à medida que os países trabalham para atingir a meta 30x30, mas muitas áreas ainda estão protegidas apenas no papel

17 jun 2026 - 12h40
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O Atol de Rose é uma grande área protegida na Samoa Americana: sem regras, regulamentações e fiscalização consistentes, juntamente com financiamento e colaboração significativa com governos locais, indústrias e comunidades, muitas áreas correm o risco de se tornarem “parques no papel”. Wendy Cover/NOAA
O Atol de Rose é uma grande área protegida na Samoa Americana: sem regras, regulamentações e fiscalização consistentes, juntamente com financiamento e colaboração significativa com governos locais, indústrias e comunidades, muitas áreas correm o risco de se tornarem “parques no papel”. Wendy Cover/NOAA
Foto: The Conversation

O oceano abriga uma das mais ricas biodiversidades da Terra. Dos recifes de corais e manguezais até as profundezas do mar, os ecossistemas marinhos abrigam inúmeras espécies, sustentam as comunidades costeiras, regulam o clima e são fundamentais para a segurança alimentar global.

Mas esses sistemas enfrentam uma pressão crescente causada pela pesca excessiva, pela perda de habitat, pela poluição e pelas mudanças climáticas.

Em resposta, as nações do planeta adotaram uma meta global ambiciosa de conservar pelo menos 30% dos oceanos do mundo até 2030 - conhecida como 30x30. Essa meta ampliou a proteção marinha em todo o mundo, principalmente por meio de áreas marinhas protegidas.

Mas o que acontece depois que a proteção é anunciada?

Décadas de experiência mostraram que a proteção marinha eficaz requer regras, regulamentações e fiscalização consistentes, juntamente com financiamento e colaboração significativa com governos locais, indústrias e comunidades. Sem isso, essas áreas correm o risco de se tornarem "parques no papel": linhas em um mapa sem impacto no mundo real, onde a vida marinha continua enfrentando a pesca excessiva e outras ameaças.

Uma tartaruga marinha nadando debaixo d’água
Uma tartaruga marinha nadando debaixo d’água
Foto: The Conversation
Uma tartaruga marinha nada no Parque Nacional de Bunaken, uma das primeiras áreas marinhas protegidas da Indonésia.Claus Giering/Unsplash, CC BY

Dois novos relatórios que lideramos, um da Universidade Estadual do Oregon e outro do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, oferecem uma importante análise realista sobre a situação atual da conservação marinha e o que precisa ser feito para alcançar a meta de proteger 30% do oceano.

Juntos, eles argumentam que o principal obstáculo para concretizar a meta de conservação oceânica 30x30 não é mais a ambição de proteger o oceano, mas sim ações eficazes que possam torná-la realidade.

Uma década de compromissos

A meta 30x30 é frequentemente promovida em encontros globais sobre os oceanos, incluindo a 11ª Conferência Our Ocean, que está sendo realizada no Quênia de 16 a 18 de junho de 2026.

De acordo com a análise da Universidade Estadual do Oregon, os compromissos de conservação anunciados em edições anteriores da Conferência Our Ocean ajudaram a estabelecer mais de 10 milhões de quilômetros quadrados de áreas marinhas protegidas, ou cerca de 2,8% dos oceanos globais.

No total, as áreas marinhas protegidas cobrem atualmente quase 10% dos oceanos globais. Mas apenas cerca de 3,5% delas estão completa ou altamente protegidas.

A extensão das áreas protegidas mostra que compromissos voluntários podem se traduzir em ganhos tangíveis de conservação quando o progresso é acompanhado de forma consistente e divulgado publicamente. Mas as conclusões também apontam para um desafio fundamental: a diferença crescente entre a extensão da proteção e sua eficácia.

Em outras palavras, a proteção dos oceanos não pode ser avaliada apenas pela área.

Lacuna na implementação

O relatório do Smithsonian analisa mais detalhadamente o que é necessário para transformar tais compromissos em conservação efetiva.

Desde que o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal foi aprovado em 2022, com quase todos os países concordando em proteger pelo menos 30% das terras e águas da Terra, a proteção marinha se expandiu consideravelmente. Os números globais, no entanto, mostram que pelo menos metade das áreas marinhas protegidas existentes permanecem sem implementação ou inoperantes, com regras e regulamentações ausentes ou que até permitem atividades destrutivas como a pesca de arrasto de fundo.

Alcançar a meta 30x30 ainda exige a proteção de mais 20% do oceano nos próximos quatro anos. O desafio é duplo: ampliar a cobertura e, ao mesmo tempo, garantir que as áreas estejam de fato beneficiando a vida marinha e as pessoas.

Um mapa mostrando diversas áreas marinhas protegidas espalhadas principalmente ao redor de ilhas
Um mapa mostrando diversas áreas marinhas protegidas espalhadas principalmente ao redor de ilhas
Foto: The Conversation
O Banco de Dados Mundial sobre Áreas Protegidas mapeia áreas protegidas terrestres e marinhas em todo o mundo. As áreas marinhas protegidas estão em azul.Banco de Dados Mundial sobre Áreas Protegidas

A conservação eficaz e duradoura depende de planos de gestão, pessoal treinado, sistemas de monitoramento, capacidade de fiscalização, financiamento sustentável e participação da comunidade. Sem esses elementos, a designação legal por si só não leva à proteção da biodiversidade, a ecossistemas prósperos e a benefícios para as pessoas.

Em todas as regiões o relatório do Smithsonian identificou um padrão preocupante: a ambição dos países de criar áreas protegidas está superando sua capacidade de garantir o sucesso dessas áreas.

Identificamos duas restrições principais: a falta de coordenação em torno do desenvolvimento de capacidades — o fortalecimento das habilidades e ferramentas necessárias para alcançar efetivamente uma meta — e a aplicação de uma abordagem única a contextos regionais distintamente diferentes.

Mergulhadores com uma fita métrica em um recife
Mergulhadores com uma fita métrica em um recife
Foto: The Conversation
Mergulhadores do Parque Natural Marinho de Mayotte, entre Madagascar e a África continental, verificam a saúde de um recife de corais protegido.Alexis Rosenfeld/Getty Images

Muitos países e comunidades estão comprometidos com a proteção marinha, mas muitas vezes precisam de melhores governança e políticas contínuas, engajamento e inclusão das partes interessadas, dados e tecnologia, integração socioecológica e comunicação para a implementação eficaz das áreas marinhas protegidas ao longo do tempo.

Da mesma forma, garantir financiamento para a conservação marinha continua sendo um desafio persistente. Quando conversamos com grupos e comunidades envolvidos na conservação marinha, eles frequentemente citaram processos complexos de solicitação e estruturas de financiamento que muitas vezes não correspondem às suas realidades ou prioridades locais. Isso cria um descompasso entre a forma como a conservação é financiada e como é implementada.

Existem esforços para eliminar essa lacuna. A Iniciativa do Triângulo de Coral sobre Recifes de Coral, Pesca e Segurança Alimentar do Centro do Triângulo de Coral, com sede em Bali, e seu Roteiro de Capacitação trabalham para conservar áreas oceânicas em uma região que abriga a mais rica biodiversidade marinha do planeta. Por meio de centros regionais de treinamento, programas de liderança, estágios e plataformas digitais, a iniciativa já treinou mais de 8.200 funcionários públicos, líderes comunitários e representantes do setor privado em práticas de conservação marinha baseadas na ciência.

A Sustainable Finance Coalition, um grupo de organizações sem fins lucrativos e internacionais, está utilizando sua expertise de outra forma: encontrando maneiras criativas de garantir recursos para projetos na África e no Sudoeste do Oceano Índico, com o objetivo de proteger habitats essenciais em terra e no mar. Até o momento, a coalizão mobilizou mais de US$ 43 milhões para proteger a natureza e apoiar o manejo eficaz de 170.500 acres (69.000 hectares).

Além das linhas no mapa

Os dois relatórios constataram que o impulso político para a proteção dos oceanos é forte. Governos, povos indígenas, comunidades locais, cientistas e organizações de conservação se uniram em torno da meta 30x30, criando um movimento global de apoio.

O desafio agora é concretizar esse impulso.

Alcançar as metas de conservação por trás do plano 30x30 dependerá menos do anúncio de novas áreas protegidas e mais do investimento em capacitação, financiamento, fiscalização e apoio institucional de longo prazo necessários para ajudar essas áreas protegidas a funcionarem conforme o planejado.

À medida que 2030 se aproxima, a questão central se torna mais premente. Não se trata mais simplesmente de quanto do oceano pode ser protegido — mas se essa proteção pode se tornar real, duradoura e eficaz.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Kirsten Grorud-Colvert não declarou nenhuma afiliação relevante além de seu cargo na Universidade Estadual do Oregon. Kirsten Grorud-Colvert recebe financiamento relacionado a este trabalho das organizações Oceans 5, Bloomberg Ocean Fund, Oceankind, Pew Bertarelli Ocean Legacy e The Pew Charitable Trusts.

Ana Spalding não declarou nenhuma afiliação relevante além de seu cargo no Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais. Quanto ao relatório citado no artigo, esse trabalho foi viabilizado graças ao apoio do Bloomberg Ocean Fund, no âmbito da Ocean Impact Partnership, um projeto patrocinado pela Rockefeller Philanthropy Advisors.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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