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Política

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Lula chega à sétima disputa ao Planalto com versão 3.0 do 'nós contra eles'

Estratégia da campanha é montada com base em pesquisas que tentam identificar, entre eleitores independentes, a resposta para a seguinte pergunta: por que o presidente merece o quarto mandato?

1 ago 2026 - 20h12
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BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai disputar a sétima eleição ao Palácio do Planalto tendo como mote de campanha a ideia de que representa o caminho seguro para impedir a entrega do Brasil a "aventureiros". A convenção do PT que homologará a candidatura de Lula neste domingo, 2, mais uma vez com Geraldo Alckmin (PSB) como vice da chapa, dará o pontapé inicial nessa estratégia, definida nos bastidores como a versão 3.0 do "nós contra eles".

Diante de um País dividido, e na esteira do tarifaço imposto a produtos brasileiros pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a campanha de Lula focará no conceito da soberania, na tentativa de mostrar que o petista defende o Brasil da interferência externa e só ele pode impedir riscos ao País. O objetivo é despertar no eleitorado o medo do que pode significar uma eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL e principal adversário do presidente.

O desafio do PT, porém, será superar o alto índice de rejeição de Lula e dar argumentos aos eleitores independentes - aqueles de centro, descolados do lulismo e do bolsonarismo - para votar no petista. Haverá ainda uma ofensiva nas redes sociais para conter a abstenção.

Na eleição de 2022, por exemplo, 32,2 milhões de eleitores deixaram de votar. O número é próximo do eleitorado da Argentina de Javier Milei - o mandatário que chamou Lula de "presidiário" -, hoje estimado em pouco mais de 35 milhões.

Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 24 mostrou que Lula e Flávio são os candidatos mais rejeitados desta temporada eleitoral: na sondagem, 46% dos entrevistados afirmaram que não votariam no petista de jeito nenhum e 48% se posicionaram da mesma forma em relação a Flávio.

Para definir a linha da campanha, a cúpula do PT fez uma série de pesquisas. Em uma das rodadas, pediu a eleitores independentes que respondessem à seguinte pergunta: por que Lula merece/não merece o quarto mandato?

Foi nessas sondagens que, apesar das críticas ao governo Lula, muitos admitiram ter mais medo do retorno da família Bolsonaro ao poder do que da reeleição do presidente.

"Aos 80 anos, Lula não precisava disputar mais nada e só está sendo candidato para derrotar o fascismo no País", disse o deputado Jilmar Tatto, vice-presidente do PT e coordenador do Grupo de Trabalho Eleitoral do partido. "Queremos fazer uma campanha de agradecimento a ele. É o fechamento de um ciclo", completou.

Pela quantidade de ações impetradas até agora na Justiça, a disputa deste ano será uma das mais agressivas dos últimos tempos. "Esta não é uma campanha de Lulinha paz e amor", resumiu o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. "Mesmo porque não é pouca coisa que está em risco".

O presidente e o vice Geraldo Alckmin: aliança renovada para a disputa de outubro.
O presidente e o vice Geraldo Alckmin: aliança renovada para a disputa de outubro.
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

Na quinta-feira, 30, o ministro do Supremoo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizou a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar suspeitas de tráfico de influência no governo por parte do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente.

"Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa. Não haverá nenhum privilégio", garantiu Lula em entrevista ao podcast Inteligência Ltda. O presidente observou, porém, que o filho jura para ele, "todo dia", ser inocente. "E eu acredito nele", emendou.

Além disso, no momento em que o PT tenta associar Flávio ao escândalo do Banco Master - com o carimbo de Bolsomaster -, investigações da Polícia Federal revelam cada vez mais ligações entre Jaques Wagner, ex-líder do governo no Senado, e o empresário Augusto Lima. O executivo foi sócio de Daniel Vorcaro, dono do Master.

Na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, o grande problema a ser enfrentado por Lula, no entanto, é o sentimento antilulista que predomina em boa parcela do eleitorado. "O maior adversário de Lula, nesta campanha, é o incremento de sua rejeição", argumentou Lavareda, presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). "O fator protetivo é que seu oponente tem uma rejeição levemente maior que a dele".

Na prática, o principal foco do presidente nesta temporada será São Paulo, maior colégio eleitoral do País. Tanto é assim que a convenção do PT para oficializar sua candidatura ocorrerá na capital paulista, no Expocenter Norte.

Duas semanas depois, no dia 16, o primeiro ato da campanha acontecerá no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, berço político do PT.

A escolha tem forte caráter simbólico: foi em Vila Euclides que Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, comandou as greves que desafiaram o regime militar, no fim dos anos 70. E, a partir daí, construiu sua trajetória política.

Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) - hoje em prisão domiciliar, após condenação por tentativa de golpe - teve mais votos do que Lula no Estado de São Paulo. Mas o petista venceu na capital, fator considerado decisivo para sua vitória no segundo turno.

Desde a semana passada, o PT gastou cerca de R$ 320 mil para manter ativos 421 anúncios no Facebook e no Instagram sobre investimentos do governo Lula. O alvo da estratégia é justamente o Estado de São Paulo. Na ordem de segmentação das peças aparecem as cidades de São Paulo, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo e Ribeirão Preto.

Um dos anúncios mais veiculados exibe Lula de mãos dadas com o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes. Detalhe: Haddad é, hoje, o nome mais cotado nas fileiras do partido para ser o sucessor de Lula.

"O que está em jogo nestas eleições é a consolidação do projeto democrático e nós vamos mostrar isso na campanha", observou o deputado Emídio de Souza (PT), que coordena o programa de governo de Haddad. "O bolsonarismo ocupou o lugar do PSDB de maneira piorada, mas ganhou o poder. O País rejeitou esse projeto, em 2022, e agora vamos ter o tira-teima", completou Emídio.

Nesta sétima disputa à Presidência, Lula conseguiu unir a esquerda e comemora a neutralidade do MDB e de partidos do Centrão na corrida rumo ao Planalto, além das ruidosas brigas no comitê de Flávio.

Desde o tarifaço de Trump e do pacote de bondades anunciado pelo Palácio do Planalto, com medidas que já consumiram R$ 145 bilhões do Orçamento, Lula vem liderando as pesquisas de intenção de voto. Mas há na equipe petista uma avaliação de que o presidente só deve participar de debates no segundo turno para evitar o fogo cruzado de todos contra ele na primeira rodada. A decisão final, no entanto, ainda não foi tomada.

"A gente não pode calçar sapato alto, achar que está ganho e ponto final. É uma eleição disputada", disse ao Estadão o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães.

Apresentado como "terceira via", o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) não conseguiu até agora se firmar como alternativa à polarização.

"Há um apagão de lideranças no País e esta será a eleição dos rejeitados", definiu o cientista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Para Fornazieri, a estratégia do presidente do PSD, Gilberto Kassab, de projetar uma opção de centro-direita está certa. "O problema é que ele escolheu o candidato errado para desempenhar essa tarefa, porque Caiado representa a velha política", argumentou.

No Centrão, embora a senadora Tereza Cristina (PP-MS) tenha aceitado ser vice de Flávio, o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), barrou a aliança ao confirmar que o partido se manterá neutro nas eleições. Ex-chefe da Casa Civil na gestão Bolsonaro, Ciro negociou com Lula uma reciprocidade no Piauí - Estado administrado pelo PT - para ser reeleito senador.

"Precisamos de uma nova correlação de forças para governar e para garantir a governabilidade porque isso está muito sofrido", admitiu o ministro Guimarães, responsável pela articulação política do Planalto com o Congresso.

Petista entrou em depressão após perder três eleições seguidas

Quando conquistou o terceiro mandato, em 2022, Lula disse que não disputaria outra eleição. Agora, afirma que, apesar dos 80 anos, "mas com energia de 30".

Depois de perder as disputas presidenciais de 1989, 1994 e 1998 e entrar em depressão, o petista venceu pela primeira vez em 2002, quando apresentou a Carta ao Povo Brasileiro para acalmar o mercado financeiro. Foi reeleito em 2006, apesar do escândalo do mensalão no ano anterior, desbancando Geraldo Alckmin, então no PSDB.

À época, o slogan da campanha era "Deixa o homem trabalhar". Veio, então, o período Dilma Rousseff (PT), a presidente que sofreu impeachment em 2016.

Em 2018, Lula foi preso no âmbito da Operação Lava Jato e Haddad concorreu no seu lugar. Em 2022, com os processos anulados pelo STF, ele venceu mais uma eleição presidencial, desta vez contra Jair Bolsonaro, e conquistou o terceiro mandato à frente do Planalto.

Estadão
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