O Antropoceno foi rejeitado como época geológica, mas a ideia continua mudando a forma como vemos o mundo
Nova pesquisa defende que nenhum outro conceito reflete nossa transformação em escala planetária em seu contexto adequado de tempo profundo
Apesar de a Comissão Internacional de Estratigrafia ter rejeitado o Antropoceno como época geológica oficial por sua curta duração de sete décadas, a ciência comprova transformações planetárias reais desde meados do século XX. O conceito segue indispensável para além da geologia, unindo diversas áreas do conhecimento para compreender a rápida degradação ambiental causada pela atividade humana e orientar respostas sistêmicas urgentes aos desafios climáticos e globais em andamento.
O Antropoceno passou a fazer parte do espírito de nossa época depois que o ganhador do Prêmio Nobel Paul Crutzen lançou a ideia em 2000. Trata-se da noção de que um aumento crescente dos impactos humanos levou recentemente a Terra a sair das condições climáticas relativamente estáveis da época do Holoceno — durante a qual a civilização humana se desenvolveu e floresceu —, dando origem a um novo tipo de planeta.
A ideia do Antropoceno como época geológica, no entanto, aparentemente chegou ao fim em 2024, quando a Comissão Internacional de Estratigrafia rejeitou sua incorporação à escala de tempo geológica oficial. Então, onde estamos agora? Nosso planeta não mudou? A ideia do Antropoceno está morta? É compreensível que haja confusão.
O Antropoceno, porém, nunca foi apenas uma questão de como chamar um período geológico. O planeta em que vivemos está ficando mais quente, mais poluído, biologicamente degradado, e sua superfície e subsolo estão sendo cada vez mais remodelados pelas atividades humanas. Antes coisa de ficção científica, esses sintomas agora são reais e não vão desaparecer — eles são, cada vez mais, uma questão de vida ou morte para milhões de pessoas.
Nós e nossos coautores acabamos de publicar dois artigos na revista científica Nature Reviews Earth & Environment que exploram essas questões sob diferentes ângulos. Um deles detalha as evidências apresentadas em nossa proposta de 2023 para tornar o Antropoceno uma nova época geológica formal. Evidências que foram então analisadas em sessão fechada pelos órgãos geológicos responsáveis pela avaliação, mas que só agora foram publicadas após revisão por pares. Mais de cem linhas de evidência, provenientes de 12 locais exaustivamente estudados ao redor do mundo, mostram que, geologicamente, o Antropoceno é sólido como uma rocha.
A Terra realmente mudou, como um sistema interconectado, em meados do século XX; e um nível datado de 1952, quando a primeira explosão termonuclear espalhou partículas de plutônio pelo mundo, marca um limite geológico efetivo para esse novo intervalo de tempo. As evidências apresentadas não foram contestadas. A rejeição oficial, pelo contrário, focou na questão de saber se uma época geológica — geralmente medida em milhões de anos (embora a época do Holoceno tenha menos de 12 milênios) — deveria ser declarada após apenas sete décadas.
Uma ideia que continua se espalhando
Nosso segundo estudo vai além dessa questão do status geológico formal, apresentando o Antropoceno como uma ideia que continua se espalhando e causando impacto. Nos últimos anos, surgiram institutos e redes especializados em Estocolmo, Jena, Viena, Daejeon e Pequim. E sua força reside na união de diferentes disciplinas, nas quais as ciências sociais e humanas são tão — ou mais — importantes quanto as ciências da Terra.
Há uma boa razão para isso. A ciência do Antropoceno é multifacetada e sofisticada. Os padrões que emergem, no entanto, costumam ser surpreendentemente simples: a atividade humana em diversos aspectos acelerou de todas as maneiras possíveis, mais ou menos ao mesmo tempo. O icônico gráfico em forma de taco de hóquei do aumento da temperatura global tem muitos equivalentes, seja ao traçar o aumento da produção de plásticos e alumínio, o consumo de frangos de supermercado ou o uso das telecomunicações.
Uma seleção de muitos gráficos publicados no estudo original sobre a 'grande aceleração' em 2015.Stockholm Resilience Centre / Will Steffen et al 'The trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration (2015)', CC BY-SATodos esses são aspectos da chamada "grande aceleração": o rápido crescimento, desde meados do século XX, da população, da industrialização e da globalização que transformou o impacto da Humanidade sobre a Terra. Esse padrão simples de crescimento acentuado permeia o Antropoceno - mas suas causas e consequências humanas são muito mais difíceis de identificar. Inúmeras forças interligadas estão em ação aqui, analisadas por disciplinas como História, Economia, Direito, Educação e Política, e exploradas pela literatura e pelas artes.
Não se trata simplesmente de uma análise acadêmica. Precisamos influenciar essa transformação planetária, evitando o pior cenário possível de uma Terra-estufa e mitigando as mudanças que são inevitáveis. Tomemos como exemplo o direito internacional do mar, que sustenta a regulamentação das fronteiras nacionais e dos direitos sobre os espaços marítimos. Por quatro séculos, isso pressupunha um contexto de mudanças na política humana e nas nações, mas uma configuração estável de terra e mar "desde tempos imemoriais".
No Antropoceno, essa estabilidade não se mantém mais: o derretimento do gelo marinho, o aumento do nível do mar e a erosão das costas estão alterando a geografia na qual algumas dessas regras se baseavam. Especialistas em direito estão tendo que criar novas formas de adaptar o direito internacional, com o objetivo de defender os direitos e manter a paz em um planeta em rápida evolução. Para nos preparar a todos para os desafios que se avizinham, os especialistas em educação estão elaborando currículos que permitam aos alunos, atuais e futuros, lidar com um mundo em que muitas certezas antigas não se sustentam mais.
Encarando o planeta como um todo
Mas será que o Antropoceno é necessário? Afinal, suas características específicas, como as mudanças climáticas, a elevação do nível do mar, o uso global de água doce, a perda de biodiversidade e a homogeneização, a produção de concreto e a hiperevolução tecnológica, estão sendo ativamente estudadas.
O problema é que essas questões não são isoladas (mesmo que muitas vezes sejam tratadas como tal em nossa estrutura de conhecimento ainda fragmentada). Todas estão intimamente interligadas e fazem parte de um único sistema terrestre que está se transformando como um todo. Portanto, nossa análise - e nossas respostas políticas - precisam ser sistêmicas, e não ad hoc, limitando-se a apagar incêndios a cada sintoma que surge. Nenhum outro conceito reflete essa transformação em escala planetária em seu contexto adequado de tempo profundo.
O Antropoceno precisa ser formalizado? Bem, isso ajudaria muito. O Antropoceno acumulou muitas interpretações desde que foi proposto pela primeira vez, algumas muito diferentes de seu significado original e essencial de um afastamento marcante da estabilidade do Holoceno. A formalização nos ajudaria a falar todos sobre a mesma coisa: uma qualidade útil, quando se trata do planeta que todos compartilhamos.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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