No hospital, cacique Raoni pensa no futuro da luta por direitos indígenas e espera demarcação da terra natal
Nossa equipe entrevistou o neto do líder Kaiapó, que aos 93 anos, internado no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ainda tem muito a dizer, enquanto espera pela demarcação de seu território
Uma das lideranças mais importantes do século, Raoni Mẽtyktire é cacique do povo Mebêngôkre, também chamado Kayapó. Seu povo vive em terras indígenas localizadas entre o norte de Mato Grosso e o sul do Pará, formando um dos maiores corredores contínuos de floresta protegida da Amazônia brasileira.
Estima-se que Raoni tenha 93 anos, embora não se saiba ao certo a data do seu nascimento. Desde 19 de junho, o líder indígena está internado no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sob os cuidados intensivos de uma equipe médica especializada em saúde indígena. O mundo torce por sua recuperação.
A editora Mônica Tarantino, da equipe do The Conversation Brasil, entrevistou o neto de Raoni, Takakpe Tapayuna Mẽtyktire, 33 anos, integrante de uma nova geração de lideranças. Pedagogo, intérprete do avô e assessor político-institucional do Instituto Raoni, organização fundada pelo cacique, Takakpe participou da elaboração do livro Memórias do Cacique (Companhia das Letras, 2025), escrito a partir de entrevistas dadas por Raoni em língua Mebêngôkre a seus sobrinhos e netos entre 2020 e 2023.
Os relatos do cacique, vertidos para o português por tradutores indígenas e organizados com a ajuda do antropólogo Fernando Niemeyer, apresentam em primeira pessoa a infância de Raoni, a cosmologia e a organização social de seu povo, o registro de sua atuação política e as transformações vividas pelos Mebêngôkre. Nesta entrevista, Takakpe fala das preocupações antigas e atuais de Raoni e sobre o legado do avô.
TCB - Como está a saúde do seu avô, o grande líder Raoni?
Takakpe - Conforme está passando pela idade, meu avô está sofrendo muita fragilidade. Ele tem o cuidado dos médicos e nós estamos acompanhando a saúde física e mental dele. Tem as horas para fazer fisioterapia e há momentos em que ele tem que conversar, né? Conversar com as pessoas da idade dele ou com idade mais próxima. Precisa sentir essa interação, o cotidiano tradicional. Na idade em que ele está, os anciãos sempre relembram as memórias dos antepassados. Isso faz se sentirem bem e em segurança espiritualmente.
TCB - Foi preciso convencer Raoni a diminuir o ritmo?
Takakpe - Antes de adoecer, quando ele começou a sentir algumas coisas espiritualmente, já comunicou a gente. "Não estou me sentindo firme para poder atender os convites." Disse que tínhamos de juntar os primos e falar com nosso tio, Megaron Txucahamãe, para poder suceder a luta, sensibilizar as pessoas a respeito da nossa cultura, território e atender as autoridades. Ele começou a sentir alguma coisa e a ter essa consciência de que os nossos tios começassem a dar continuidade à luta. Vovô também cancelou um encontro com o Papa Leão XIV e depois de alguns dias adoeceu e foi para o hospital. Voltou para casa, passou mal e foi de novo para o hospital. Mas teve um alerta espiritual antes de adoecer e alertou a gente.
TCB - O que mais preocupa o cacique hoje?
Takakpe - Uma das preocupações principais do vovô é se a nova geração não continuar com a luta dele. É conosco, com a luta pelos avanços na nossa organização social e política dentro do nosso território e institucionalmente. Hoje, o Instituto Raoni, fundado por ele, defende os interesses do povo Kaiapó. Temos essa coletividade e uma governança de lideranças dentro da instituição para poder ter essa força.
Mais uma preocupação dele é não deixar que os não indígenas com dinheiro convençam alguns dos nossos parentes e consigam tomar nossas terras. Nós não pensamos no dinheiro, pensamos na vida. O que nos sustenta é a terra, o que nos sustenta é o rio, o que nos sustenta é a natureza, os recursos que temos dentro do nosso território. Para os não indígenas, a riqueza é o dinheiro. Para os indígenas, riqueza é ter um território cheio de recursos naturais para o sustento. A linha de raciocínio do meu avô é dar continuidade a esse pensamento. Vamos levar adiante o legado dele.
TCB - Seu avô continuará na linha de frente?
Takakpe - Enquanto ele se sentir fisicamente e espiritualmente preparado, vai para a frente. Mas agora está priorizando o tratamento de saúde. Enquanto está se tratando, nosso tio Megaron Txukarramãe, filho do irmão dele, está na linha de frente.
TCB - Raoni diz no livro que a luta não termina com uma pessoa. Ele preparou lideranças?
Takakpe - Sim, temos as pessoas que acompanham nosso avô. Dentro do nosso território, ele tem essa visão com o nosso tio Megaron. Meu avô, que não é estudado, também dá muita importância para que os netos estudem. Reforça isso com a gente e costuma dizer:
"Vocês mesmos têm que escrever as ideias de vocês, para defender o povo de vocês. Vocês são protagonistas nisso. Estudem, mas não percam a nossa cultura. Tem que sustentar a nossa cultura tradicional. Desse jeito vocês terão força para enfrentar qualquer ataque, também desses que vêm atacando juridicamente os direitos dos povos indígenas. Então, se preparem. Não sejam corrompidos, porque os não indígenas se corrompem com dinheiro. Confiem somente no não indígena que realmente abraça a causa indígena."
TCB - O que você estudou?
Takakpe - Fui estudar Enfermagem porque queria ajudar a cuidar da saúde do nosso povo. Depois conheci o curso de Pedagogia Intercultural Indígena da Universidade Federal de Goiás, voltado para a formação de professores indígenas. É uma universidade de referência que recebe indígenas de muitos povos. Achei mais interessante preparar as crianças por meio da educação, fortalecer a nossa cultura tradicional e manter viva a nossa língua. Foi esse o caminho que segui. Hoje faço parte do Instituto Raoni como intérprete e assessor político-institucional. Também atuo como professor e acompanho as lideranças nos assuntos ligados às políticas públicas do território, como saúde, educação, meio ambiente, demarcação de terras e monitoramento territorial. Faço a tradução das conversas e dos documentos para a nossa língua, para que os anciãos possam entender e conduzir as decisões. A gente faz esse papel de intermediar e transmitir as mensagens. Quem decide são sempre as lideranças. Agora estou me preparando para fazer o mestrado em Antropologia.
TCB - Seu avô passou a vida explicando que proteger a floresta é fundamental para a sobrevivência do planeta. Hoje há maior entendimento sobre isso?
Takakpe - As mudanças climáticas são uma pauta mundial. Estamos no mesmo planeta, respirando o mesmo ar. Como a gente faz parte da natureza, temos a visão que o rio não está secando no período certo, a chuva e o frio aparecem fora de hora, mudou tudo. Algumas pessoas entenderam que precisam proteger o clima, principalmente quem estuda a natureza, a temperatura, a chuva, os recursos naturais dentro da floresta. Mas também estamos diante de empresários que pensam pelo dinheiro, desmatam muito, querem produzir mais, ganhar mais, e isso prejudica mais e mais o planeta.
TCB - Você acredita que um dia a produção será mais sustentável e os direitos indígenas respeitados?
Takakpe - É muito complicado, porque cada ser humano já vem sendo ensinado conforme a tradição do seu povo. Por exemplo, a economia movimenta a sociedade, as pessoas na cidade. O agro é gigante economicamente e tem deputados e senadores. Esse setor precisa seguir as leis criadas pelo seu próprio povo, mas não segue. O Congresso fez legislações que protegem o meio ambiente, mas isso não está sendo respeitado. O garimpo e o desmatamento continuam. Isso prejudica a população, a floresta, os rios. São visões muito diferentes. Nós, indígenas, vamos ficar na natureza. Mas acho que o livro contando a história do meu avô e do nosso povo pode ajudar as pessoas a entenderem mais da nossa cultura para poder nos apoiar e abraçar a nossa causa.
TCB - Qual capítulo do livro Memórias do Cacique você considera mais importante para os não indígenas?
Takakpe - Tem uma parte do livro que conta que a família de Raoni não esteve no primeiro contato com os irmãos Villas-Bôas, em 1954. Mais ou menos nessa época, no período pós-contato, teve um conflito e os vizinhos não indígenas, que eram fazendeiros, mataram o irmão do meu avô. Raoni tinha 23 ou 24 anos e era um jovem guerreiro. Naquele tempo, ele começou a aprender português e a se comunicar com os não indígenas. Passou então a facilitar a comunicação com os irmãos Villas-Bôas. Os irmãos entenderam que o meu avô tinha boa visão das coisas e começaram a falar com ele sobre o conhecimento das pessoas não indígenas, do cuidado que tinha que ter com os brancos.
É importante para nós e para o Raoni que as pessoas leiam o livro para entender a terra tradicional onde o cacique nasceu, cresceu, passou a infância. Depois que mataram o irmão do meu avô, os Kaiapó saíram de lá e os não indígenas tomaram o território. Mas é um território sagrado e tradicional para nós e hoje estamos lutando pela sua demarcação. É a Terra Indígena (TI) Kapoto-Nhĩnore, lugar de origem do grupo Mẽtyktire, ao qual pertence o cacique Raoni. A área é ligada à TI Kapoto-Jarina e teve os estudos de identificação e delimitação aprovados pela Funai em 2023.
TCB - Já viu seu avô desanimado com os rumos do país?
Takakpe - Sim, ele fica muito desanimado com a demarcação demorada. Os estudos antropológicos e o ritmo processual do Estado brasileiro são muito lentos. Também ficou muito chateado porque o governo anterior desrespeitou muito ele, disse que não era uma liderança. Este governo demarcou terras. Um dos sonhos do meu avô é ver demarcado o território onde ele nasceu, Kapoto-Nhĩnore, mas o processo anda devagar demais, mesmo a gente conversando com o presidente da Funai e com o Ministério dos Povos Indígenas. Ele quer muito ver isso acontecer. Podiam dar essa alegria e fazer essa homenagem a ele.
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