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No admirável mundo novo da oncologia, o dilema entre a inovação para poucos e o cuidado para muitos

A resposta a esse dilema deve pautar os próximos passos no panorama do câncer no Brasil e no mundo. Se a ciência continuar avançando sem um projeto claro de acesso, entraremos na rota de uma medicina brilhante mas injusta

5 fev 2026 - 12h17
(atualizado às 12h29)
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Ontem, 4 de fevereiro, foi o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica esta semana uma série de artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.

Nas duas últimas décadas, a oncologia entrou em um admirável mundo novo, e uma série de boas notícias traz perspectivas positivas e esperança. Saímos aos poucos de um tripé que sustentou historicamente a base do tratamento do câncer — cirurgia, radioterapia e quimioterapia — para um arsenal em expansão, com terapias-alvo, imunoterapia, conjugados anticorpo-droga (ADCs), estratégias celulares e combinações cada vez mais sofisticadas orquestradas pela jornada molecular do câncer. Esse avanço é real, rápido, muito bem-vindo e, para uma parte dos pacientes, já mudou o destino: pessoas que antes teriam meses de vida hoje convivem com a doença por anos, trabalhando, criando filhos, envelhecendo com mais qualidade.

O problema é que a mesma velocidade científica que salva vidas está ampliando um dilema ético e econômico: vamos seguir avançando em tratamentos altamente complexos e caros, acessíveis a poucos, ou vamos investir em novos caminhos para democratizar o cuidado oncológico em grande escala? A pergunta não é retórica. Ela define o cenário para quem vive com câncer, quem não vai sobreviver à doença e o que consideramos um sistema de saúde "justo".

Por que o custo do tratamento importa para todo mundo?

A medicina de precisão depende de diagnóstico sofisticado, equipes altamente treinadas, infraestrutura e medicamentos com preços elevados. Quando somamos isso ao aumento da incidência (em parte por envelhecimento populacional e, sobretudo, por fatores ambientais e de estilo de vida), o resultado é uma pressão contínua sobre sistemas públicos e privados.

No Brasil, há um ponto que costuma entrar com parcimônia no debate da saúde, mas é preciso encará-lo com objetividade: os recursos financeiros são finitos e certas escolhas acabam sendo inevitáveis. Dados de estudos sobre gastos do SUS mostram que o custo direto do tratamento do câncer (excluindo promoção e prevenção) chegou a cerca de R$ 3,9 bilhões em 2022, com a maior parte concentrada em tratamento ambulatorial (como quimioterapia e radioterapia). Isso não é um "argumento contra" a tecnologia; é um alerta sobre como a conta fecha ou não fecha.

Enquanto isso, políticas que deveriam proteger o paciente seguem desafiadas pela realidade. A lei que garante início do primeiro tratamento no SUS em até 60 dias após o diagnóstico existe desde 2012. Quando prazos não são cumpridos, a doença avança, o tratamento se torna mais caro e a chance de cura diminui. Ineficiência, aqui, não é apenas desperdício: é sofrimento que poderia ser evitado.

Em dezembro de 2023, o Brasil sancionou a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (Lei 14.758/2023), um marco ao estabelecer diretrizes para reduzir incidência, mortalidade e desigualdades, além de organizar a linha de cuidado. É um passo relevante, mas política pública não se sustenta apenas no papel. Sem financiamento estável, governança, metas e monitoramento, a perspectiva positiva diante da nova lei tende a aprofundar a frustração.

Um falso dilema: "ou inovação ou acesso"

Muito se fala sobre essa discussão como um cabo de guerra: de um lado, inovação; do outro, acesso. Mas essa pode ser uma forma equivocada de enxergar o problema. A questão não é escolher entre ciência e equidade. É garantir que a ciência gere equidade.

Isso passa por três mudanças de rota:

  1. Incorporar com responsabilidade Nem toda tecnologia precisa ser usada em todos os pacientes. O avanço da personalização permite escolher melhor e usar melhor. O que precisamos é de um modelo de incorporação baseado em valor (benefício real, custo-efetividade, impacto orçamentário), com negociação de preços e contratos de desempenho quando possível. É assim que se protege o sistema e o paciente.

  2. Reequilibrar o investimento: prevenção e diagnóstico precoce não são coadjuvantes

O câncer é, em grande parte, prevenível. Vacinação (como HPV), rastreamento bem organizado, combate ao tabagismo, redução de obesidade e sedentarismo: isso evita novos casos, reduz tratamentos tardios e libera recursos para quem realmente precisa de terapias avançadas. A inovação mais "escalável" costuma ser a que impede a doença de aparecer ou a detecta cedo.

  1. Educação e comunicação: vencer o estigma também é política de saúde

O tabu do câncer diminuiu, mas não acabou. O medo do diagnóstico e a desinformação ainda atrasam exames e vacinas, especialmente em nichos sociais específicos. Quando a cultura empurra o paciente para longe do cuidado, o sistema paga mais — e tarde demais.

O caminho possível

O admirável mundo novo da oncologia não deve ser um clube exclusivo. Se a ciência continuar avançando sem um projeto claro de acesso, entraremos na rota de uma medicina brilhante mas injusta. A alternativa é encarar, de frente, a acomodação necessária: econômica, organizacional e cultural.

A principal homenagem a quem vive com câncer, e a quem perdemos, é trocar o entusiasmo solitário com a inovação por um compromisso coletivo com escala, prioridade e impacto. Porque, no fim, não basta tratar melhor. É preciso tratar mais gente, a tempo, e com qualidade.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Foi pesquisador Sênior da Coordenação de Pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) entre 2002 e 2015, onde exerceu as seguintes atividades: Chefe da Divisão de Pesquisa Clínica, Chefe do Programa Científico de Pesquisa Clínica, Idealizador e Pesquisador Principal do Banco Nacional de Tumores e DNA (BNT), Coordenador da Rede Nacional de Desenvolvimento de Fármacos Anticâncer (REDEFAC/SCTIE/MS) e Coordenador da Rede Nacional de Pesquisa Clínica em Câncer (RNPCC/SCTIE/MS).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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