Museus investem em engajamento social para se manterem atuais
Com América Latina de exemplo, inclusão de comunidades vira pauta ao redor do mundo, mesmo em instituições tradicionais. Focos incluem moradores, grupos marginalizados e jovens.Cerca de 530 a.C., o primeiro museu público do mundo abriu suas portas no Estado mesopotâmico de Ur, o atual Iraque. A curadora era uma princesa-sacerdotisa, e o museu fazia parte do complexo palaciano, exibindo artefatos da região com legendas informativas em vários idiomas.
Mais de dois milênios depois, os museus já não oferecem só exposições estáticas. Dos acervos digitalizados à realidade virtual, as tecnologias recentes permitem que o público interaja com as coleções de novas maneiras.
Mas, recentemente, uma mudança ainda mais profunda vem ocorrendo ao redor do mundo, com destaque para a América Latina, sobre o que um museu deve ser e oferecer.
O foco muda dos objetos expostos para quem os observa, à medida que os museus promovem engajamento e atendem a necessidades sociais mais amplas. "Os museus estão caminhando nessa direção", diz Sandro Debono, consultor e acadêmico da área museológica.
Pioneirismo da América Latina
O Conselho Internacional de Museus (ICOM) hoje reconhece explicitamente a inclusão, a diversidade e a participação comunitária como aspectos essenciais do trabalho museológico. Em 2022, a organização alterou a sua definição de museu para incluir o envolvimento da sociedade - a versão anterior se limitava a estipular que os museus deveriam "servir" a ela.
A América Latina tem abraçado de forma particular as práticas participativas, segundo Debono. Na região, ideias de museus como espaços de participação e inclusão, como museus cidadãos e comunitários, podem ser rastreadas desde os anos 1970.
Algumas décadas depois, surgiria o conceito de museologia social, que não se concentra nos objetos, mas nas pessoas vivas, especialmente as marginalizadas, apoiando seu empoderamento, seu patrimônio e a transformação social.
Agora, outras partes do mundo, incluindo a Europa, adotam abordagens semelhantes, à sua maneira. Mesmo instituições tradicionais têm se inspirado pelo impulso de migrar "da coleção à conexão".
"Os museus precisam deixar de ser principalmente os locais que você visita para se tornarem aquelas infraestruturas sociais e cívicas que você utiliza, ou espaços de confiança onde as pessoas possam se encontrar e trocar ideias," diz Julia Pagel, secretária-geral da Rede de Organizações Museológicas Europeias (NEMO). Segundo ela, o financiamento, em grande parte oriundo do Estado, se vincula cada vez mais à relevância social.
Da ioga à dança, novas formas de engajamento
Palestras, visitas escolares guiadas e eventos sociais sempre foram pilares das ações educativas e de extensão nos museus tradicionais. Hoje, entretanto, várias iniciativas envolvem engajar visitantes não só na interação com um acervo específico, mas de formas mais amplas.
No Museu Nacional de Singapura, idosos com dificuldades cognitivas e de memória podem participar de atividades, como aulas de dança, oficinas de arte e grupos de discussão. O museu vira um espaço de socialização para pessoas frequentemente excluídas da vida pública.
Entre os próximos eventos de debate do museu Hammer em Los Angeles, na Califórnia, estão leituras de poesia e um painel com especialistas jurídicos, que vão analisar decisões recentes da Suprema Corte dos Estados Unidos.
Além disso, muitas instituições participam de programas de "museus por prescrição". Isto é, firmam-se parcerias com sistemas nacionais de saúde, para que visitas a museus sejam reconhecidas como uma forma de tratamento para problemas como depressão e solidão.
No Rio, um museu "vivo" sobre favelas
No Rio de Janeiro, o Museu de Favela (MUF) se descreve como um museu vivo, onde sua principal coleção são os moradores e seus modos de vida. Criado em 2008, ele é uma organização não governamental mantida por lideranças culturais das favelas Pavão, Pavãozinho e Cantagalo.
A iniciativa integra os moradores da favela em todos os aspectos do seu trabalho, desde exposições com grafites de rua e depoimentos orais até ciclos de palestras e oficinas de artesanato conduzidas por moradores locais.
Já em alguns museus mais tradicionais, o incentivo à participação cidadã passa por envolver não especialistas na curadoria das exposições.
Em 2022, a Galeria Matica Srpska, em Novi Sad, na Sérvia, sediou um projeto chamado "Cidadãos de Novi Sad Escolhem", no qual membros proeminentes da sociedade selecionaram uma obra de arte que tivesse significado pessoal para eles, que então foi exibida em uma mostra especial.
Derrubando o muro do museu
Enquanto isso, a Bundeskunsthalle, museu de arte contemporânea em Bonn, na Alemanha, há muito se vê como "espaço ativo de encontro", afirmou Katja Schöpe, responsável por inclusão e integração no museu. "Isso levanta a questão de como podemos permanecer um espaço aberto e acessível, relevante para as pessoas independentemente de sua origem ou escolaridade, e pertinente a uma sociedade diversa", explica.
Para alcançar esse objetivo, o museu lançou, em 2023, o Gesellschaftsforum, ou "fórum da sociedade". Inicialmente, ele foi concebido como conselho único, formado por 31 cidadãos locais para aconselhar o museu sobre seu futuro e sobre como melhor servir aos moradores.
A experiência foi tão positiva que o conselho recomendou a criação de um órgão permanente, sugestão que o museu acolheu.
Uma versão reduzida agora assessora regularmente a instituição sobre como tornar suas atividades mais acessíveis, abertas e fáceis de compreender, derrubando o muro entre a equipe do museu e a comunidade.
Participação mais do que pontual
Também o museu Stedelijk de Amsterdã, na Holanda, dedicado à arte moderna e contemporânea, também inclui "pessoas de fora do museu" em sua equipe.
Todos os anos, há 18 anos, um grupo diverso de 15 adolescentes trabalha em diferentes funções no museu, trazendo perspectivas e ideias para as operações da instituição, desde visitas guiadas até marketing e programação.
Em um estudo de impacto coassinado por ex-participantes do programa, os autores concluíram que, se os museus quiserem permanecer relevantes para gerações jovens e diversas, precisam instituir "um programa juvenil intensivo, adequadamente incorporado, contínuo, de longo prazo e inclusivo".
"Esforços pontuais", afirma o estudo, "farão pouco para tornar o setor mais inclusivo ou diverso".
A visão dos autores se alinha à de Debono - independentemente do lugar ou da forma, o envolvimento não pode ser superficial."As práticas participativas são o nome do jogo", disse ele, "embora os museus interpretem isso de maneiras variadas. O que mais importa, no entanto, é a profundidade da participação".
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