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Munições são bomba-relógio tóxica nos mares da Alemanha

19 ago 2026 - 15h16
(atualizado às 15h36)
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Remanescentes da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, armas já contaminam a vida marinha. Poluição aumenta com as décadas, alertam cientistas, que pedem remoção sistemática, para proteger seres humanos.Sob as águas da costa norte da Alemanha, vastas quantidades de bombas, minas e outras armas estão enferrujando lentamente. Elas fazem parte de um volume estimado em 1,6 milhão de toneladas de munições convencionais no Mar do Norte e no Mar Báltico, um legado de duas guerras mundiais e do descarte em massa de armamentos após 1945.

Remover munições antigas da costa da Alemanha exige injeção de recursos e anos de trabalho
Remover munições antigas da costa da Alemanha exige injeção de recursos e anos de trabalho
Foto: DW / Deutsche Welle

Durante décadas, esse material foi em grande parte deixado onde estava, a menos que representasse risco de explosão. Mas, à medida que os invólucros metálicos se corroem, surge um problema ambiental.

"Está claro que, devido à corrosão desses artefatos, compostos químicos entram no ecossistema marinho e passam a fazer parte da vida marinha", diz o toxicologista Edmund Maser, da Universidade de Kiel. "Descobriu-se que esses compostos são tóxicos e cancerígenos, tanto para os seres humanos quanto para a vida marinha."

Entre as substâncias mais perigosas está o trinitrotolueno, conhecido como TNT, um explosivo militar. Jörn Scharsack, do Instituto Thünen de Ecologia da Pesca, procurou sinais dele em espécimes de linguado. "Encontramos nos peixes os produtos da metabolização e da degradação do TNT."

As quantidades são mínimas, medidas em nanogramas, e nem todos os peixes contêm níveis detectáveis. Ainda assim, pesquisadores encontram repetidamente esses compostos em áreas conhecidas por concentrarem munições antigas.

Impacto na fauna

Até agora, a contaminação não parece estar causando doenças agudas nos peixes. Há, porém, uma anormalidade recorrente.

"Os peixes parecem saudáveis quando os retiramos da água. Eles não apresentam um número maior de doenças virais, bacterianas ou causadas por parasitas", disse Scharsack. "O que vemos são tumores no fígado. Isso aparece repetidamente."

Também o grupo de Maser encontrou compostos provenientes de munições em peixes e mexilhões. Em parceria com o Instituto Alfred Wegener (AWI), em Bremerhaven, sua equipe identificou anormalidades hepáticas em mais de 50% dos peixes que viviam nas proximidades de algumas áreas de descarte de munições e de naufrágios, em comparação com apenas 1% a 2% dos peixes em condições normais.

Os mexilhões, por sua vez, apresentaram sinais bioquímicos de estresse oxidativo. Quando o TNT é metabolizado, formas altamente reativas de oxigênio podem danificar proteínas, lipídios e até o DNA. "Isso pode ser um passo rumo ao câncer", explica Maser.

Compostos relacionados ao TNT estão ainda presentes em amostras de tecido de duas baleias encalhadas, mostrando que essas substâncias químicas estão chegando a animais predadores que ocupam o topo da cadeia alimentar marinha.

Perigo para pessoas?

Os cientistas dizem que as pessoas que consomem frutos do mar não estão em risco.

As baleias enfrentam uma exposição constante, por meio das presas que consomem e da água ao redor, enquanto os seres humanos são expostos apenas ocasionalmente pela alimentação. Seria necessário comer muito peixe para realmente atingir um nível perigoso.

A preocupação é o que acontecerá à medida que as munições continuarem a se deteriorar. "A situação provavelmente vai piorar se observarmos a corrosão contínua das munições. Os invólucros estão se corroendo. Cada vez mais substâncias tóxicas ficam expostas diretamente à água," aponta Scharsack.

O problema parece ser mais grave no Mar Báltico do que no Mar do Norte. As correntes mais fracas e uma menor renovação da água fazem com que os poluentes vazados permaneçam no ambiente, em vez de serem dispersados.

Contaminação progressiva

As pesquisas de Maser sugerem que isso já pode estar acontecendo. Sua equipe analisou mexilhões arquivados desde 1985 e constatou que a contaminação relacionada ao TNT vem aumentando de forma constante desde cerca de 2000 até 2022.

"Acreditamos que, nas próximas décadas, tenhamos concentrações que possam prejudicar consumidores humanos de frutos do mar," ele afirma. Para os cientistas, isso transforma a remoção das munições em uma corrida contra o tempo.

A vida marinha já sofre pressão do que Maser descreve como um "coquetel" de poluentes produzidos pelo ser humano, incluindo microplásticos, pesticidas e compostos farmacêuticos.

Ao contrário de muitos desses poluentes, que já estão dispersos pelos oceanos, bombas e minas ainda são objetos identificáveis que podem ser recuperados e descartados. Mas essa janela de oportunidade não permanecerá aberta para sempre.

Pouco demais, tarde demais?

A Alemanha só recentemente iniciou projetos-piloto de remoção sistemática para evitar danos ambientais.

"O tema foi ignorado durante décadas. Ninguém queria falar sobre isso", afirmou Scharsack. O plano envolve plataformas flutuantes de tratamento, semelhantes a pontões, onde as munições recuperadas podem ser incineradas com segurança no mar, sem necessidade de transporte para terra firme.

Maser estima que uma única instalação possa processar apenas entre 700 e mil toneladas por ano. Com cerca de 1,6 milhão de toneladas de munições convencionais em águas alemãs, a escala da tarefa significa que a remoção completa levaria décadas.

São necessários mais desses pontões, segundo ele. "Se esperarmos talvez 40 anos, todos esses invólucros metálicos poderão estar corroídos e não teremos mais condições de retirar esses compostos das águas."

Mesmo a remoção deixará para trás pequenos fragmentos de explosivos, alguns não maiores do que um cubo de açúcar. Maser investiga se bactérias e fungos marinhos poderiam, eventualmente, decompor esses resíduos em dióxido de carbono e água. O trabalho ainda está em estágio laboratorial e, segundo ele, não pode substituir a retirada física das munições.

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