Vaticano excomunga 6 bispos por ordenações à revelia do Papa
Decisão marca a primeira grande crise do pontificado de Leão XIV
O Vaticano decretou nesta quinta-feira (2) a excomunhão dos bispos da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X que participaram de uma ordenação episcopal em Écône, na Suíça, à revelia do papa Leão XIV, que vive a primeira grande crise de seu pontificado.
Essa é a segunda vez que os expoentes de grupo tradicionalista fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) em 1970, em oposição às reformas modernizantes do Concílio Vaticano II, são excomungados pela Igreja Católica.
A medida atinge os bispos que celebraram a cerimônia - Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay - e os quatro que foram ordenados: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier. De Galarreta e Fellay já haviam sido excomungados em 1988, pelo papa João Paulo II, mas a decisão foi revertida em 2019, por Bento XVI, em uma tentativa de reconciliação com os "lefebvrianos".
Em decreto assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o Vaticano afirma que os prelados incorreram na excomunhão por ter cometido "um ato de natureza cismática" ao realizar a "consagração episcopal de quatro presbíteros, sem mandato pontifício e contra a vontade do Sumo Pontífice".
"Todos os fiéis são exortados a permanecer firmes na comunhão com o Romano Pontífice, com os bispos em comunhão com ele e com toda a Igreja e a se abster de participar das celebrações e atividades promovidas pela Fraternidade Sacerdotal de São Pio X", diz o texto.
O dicastério lembra ainda que as "múltiplas tentativas de reconduzir os adeptos do movimento iniciado por dom Marcel Lefebvre à plena comunhão com a Igreja Católica se revelaram vãs".
O documento também adverte os fiéis que aqueles que aderirem formalmente à fraternidade serão "considerados cismáticos e excomungados", mas ressalta que as "variadas situações" serão analisadas "caso a caso". Além disso, o Vaticano alerta que os sacramentos da penitência e do matrimônio administrados por ministros "lefebvrianos" são "inválidos". "A Igreja vai acolher com sincero afeto todos aqueles que desejarem voltar à plena comunhão", afirma o decreto.
Em reação, a fraternidade lamentou o fato de seu superior, o padre italiano Davide Pagliarani, não ter sido recebido pelo papa Leão XIV, mas disse que a "profunda alegria" pelas ordenações em Écône "não pode ser ofuscada". Já o novo bispo Michael Goldade, em vídeo publicado nas redes sociais, criticou a "Igreja moderna", dizendo que ela é um "deserto que mata tudo o que toca" por ter colocado "o homem no lugar de Deus".
Os membros da fraternidade defendem a missa tridentina ? celebrada em latim e com o sacerdote de costas para os fiéis ? e criticam os ideais de liberdade religiosa e ecumenismo implementados na doutrina católica pelo Concílio Vaticano II, na década de 1960.
Na última segunda-feira (29), Leão XIV enviou uma carta a Pagliarani para pedir, "com todo o coração", que a fraternidade desistisse das ordenações, mas o apelo foi ignorado.
"A Igreja está aberta a um caminho de diálogo e compreensão que o Espírito Santo pode tornar possível e frutífero, mas lacerar a túnica de Cristo é um pecado de extrema gravidade", disse o Papa no texto.
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