Uso de míssil nuclear hipersônico pela Rússia amplia tensão e marca nova fase da guerra na Ucrânia
Bombardeios russos de grande escala atingiram Kiev na madrugada deste domingo (24), após promessa de retaliação de Vladimir Putin, com relatos de explosões intensas e uso de um míssil hipersônico Orechnik, de capacidade nuclear. O ataque deixou ao menos quatro mortos e dezenas de feridos e ilustra uma nova etapa da ofensiva russa, marcada por armamentos de difícil interceptação e maior pressão estratégica.
Com informações de Lucas Lazo, correspondente da RFI em Kiev, e AFP
Poucos dias após um ataque ucraniano contra um liceu em área ocupada pela Rússia, Moscou lançou uma ofensiva aérea de grande escala contra Kiev entre a noite de sábado (23) e a madrugada deste domingo (24). A ação havia sido antecipada por declarações do presidente Vladimir Putin, que prometeu responder militarmente ao episódio.
Cerca de dez explosões muito fortes foram ouvidas por volta de 1h da manhã, seguidas por novas ondas de ataques vindas de múltiplas direções — terra, ar e no mar Negro. A intensidade dos bombardeios foi percebida em toda a capital ucraniana.
Relatos de jornalistas também registraram rastros luminosos cruzando o céu durante a noite, além de disparos de armas automáticas, possivelmente da defesa antiaérea, na tentativa de neutralizar drones que sobrevoavam o centro da cidade.
Nos abrigos improvisados no metrô, moradores demonstravam cansaço após sucessivas noites sob ataque. A cena, descrita pelo correspondente, indica o desgaste crescente da população civil diante da frequência e da intensidade das ofensivas.
Na manhã de domingo, ainda havia focos de incêndio em áreas residenciais e industriais de Kiev, consequência direta dos impactos de mísseis e drones durante a madrugada.
O prefeito Vitali Klitschko informou que ao menos quatro pessoas morreram, "incluindo uma criança com menos de um ano", e mais de 60 ficaram feridas. Uma escola foi atingida no bairro de Shevchenkivsky, e destroços bloquearam o acesso a um abrigo subterrâneo onde moradores estavam refugiados.
Uso de míssil hipersônico marca escalada militar
Durante a ofensiva, as forças ucranianas alertaram que a capital estava sob "ataque massivo de mísseis inimigos". Segundo a Força Aérea, a Rússia lançou cerca de 90 mísseis e 600 drones, em uma das maiores operações do tipo desde o início da guerra.
O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a infraestrutura civil foi amplamente atingida. "Três mísseis russos atingiram uma instalação de abastecimento de água, um mercado foi incendiado, dezenas de edifícios residenciais foram danificados e escolas foram atingidas", declarou.
Ele também confirmou o uso do míssil balístico hipersônico Orechnik, empregado contra a cidade de Bila Tserkva, ao sul de Kiev. Um porta-voz da Força Aérea reforçou que o sistema, de alcance intermediário e capacidade nuclear, é particularmente difícil de interceptar.
O uso do Orechnik representa uma elevação relevante no padrão dos ataques russos. Trata-se de um armamento projetado para transportar ogivas nucleares, embora não haja indicação de uso desse tipo de carga na ofensiva.
O Ministério da Defesa da Rússia confirmou o emprego do sistema, afirmando que utilizou "mísseis balísticos Orechnik" em conjunto com outros armamentos, como mísseis Iskander, Kinjal e Tsirkon, além de drones e mísseis de cruzeiro.
Segundo Moscou, a operação foi uma resposta a "ataques terroristas da Ucrânia contra infraestruturas civis em território russo" e teria como alvo apenas posições militares. A versão é contestada por autoridades ucranianas.
Pressão internacional cresce diante de risco estratégico
O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que o uso do Orechnik indica "fragilidade relativa" por parte da Rússia e evidencia o impasse de sua ofensiva militar. Ele acusou Moscou de atingir civis, em contraste com a versão do Kremlin.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, classificou o ataque como uma tentativa de "aterrorizar a Ucrânia". Para ela, o uso de mísseis com capacidade nuclear tem caráter de intimidação política.
"Informações sobre o uso desses sistemas constituem uma forma temerária de chantagem nuclear", declarou.
O Orechnik já havia sido utilizado em duas ocasiões anteriores desde 2022, sempre sem ogivas nucleares. O sistema também foi deslocado para Belarus, ampliando seu alcance estratégico em relação a países da Otan e da União Europeia.
A nova ofensiva ocorre em um contexto de intensificação da guerra, com ciclos de ataque e retaliação cada vez mais amplos e sofisticados do ponto de vista militar.
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