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UE planeja adaptação a aquecimento global de 3 °C, enquanto gases de efeito estufa batem recorde

A União Europeia quer se preparar para a possibilidade de o aquecimento global atingir 3 °C até o final do século. Para isso, pretende exigir que seus 27 Estados-membros elaborem planos de adaptação com base nesse cenário. A menos de duas semanas da COP31, que será realizada na Turquia, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou nesta terça-feira (27) que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera atingiram níveis recordes em 2025 e continuaram a aumentar em 2026.

27 out 2026 - 13h24
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Resumo
A União Europeia propôs que seus 27 países elaborem planos de resiliência até 2030, projetando uma adaptação a uma alta de até 3 °C até 2100 para conter prejuízos econômicos bilionários, sem abandonar a meta de 1,5 °C. A medida surge em meio a alertas da ONU de que os principais gases de efeito estufa bateram recordes na atmosfera em 2025, impulsionando eventos extremos e comprometendo o planeta com um aquecimento contínuo decorrente de atividades humanas e do uso de combustíveis fósseis.

A Comissão Europeia apresentou na terça-feira um projeto de lei para instituir planos de "resiliência climática". Pela proposta, os 27 países da UE deverão elaborar seus planos até o final de 2030.

As medidas deverão se basear em um cenário climático comum, fundamentado nos dados científicos disponíveis, que considera um aquecimento global progressivo nas próximas décadas, em relação aos níveis pré-industriais: de 1,5 °C até 2030, de 2 °C até 2050 e de 3 °C até 2100.

"O desafio é agir antes que as mudanças climáticas causem impactos insuportáveis à nossa economia e à nossa sociedade", declarou Teresa Ribera, vice-presidente da Comissão Europeia responsável pela Transição, em uma entrevista coletiva.

Segundo estimativas citadas pela Comissão, os prejuízos econômicos provocados por incêndios florestais, inundações e secas relacionados às mudanças climáticas somaram cerca de € 50 bilhões por ano entre 2022 e 2025. A conta não inclui os impactos sobre a saúde, especialmente nas cidades, cujos habitantes estão particularmente expostos a ondas de calor extremo.

Esses prejuízos podem disparar no futuro se as temperaturas continuarem a subir, alerta a Comissão Europeia, com sede em Bruxelas. A instituição estima, por sua vez, que a adaptação da Europa às mudanças climáticas exigirá investimentos de € 70 bilhões por ano.

O plano não significa, no entanto, que a UE vá abandonar o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C, assegurou o comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra.

Vale lembrar também que a trajetória de 3 °C em 2100 é um cenário de referência para avaliar riscos e preparar medidas de adaptação, não uma previsão de que esse aquecimento seja inevitável.

"Precisamos de duas coisas: por um lado, fazer todo o possível para nos mantermos o mais próximo possível de 1,5 °C e, caso ultrapassemos esse patamar, conseguir reduzir novamente o aquecimento. Por outro, preparar-nos, sem demora, para um cenário de temperaturas ainda mais elevadas", resumiu.

Imagem de arquivo. Um navio-tanque, com pouca carga, navega pelo rio Reno — uma via de grande importância econômica — em um cenário de nível baixo das águas, decorrente de uma onda de calor e de uma seca prolongada, em Düsseldorf, Alemanha, na quarta-feira, 5 de agosto de 2026.
Imagem de arquivo. Um navio-tanque, com pouca carga, navega pelo rio Reno — uma via de grande importância econômica — em um cenário de nível baixo das águas, decorrente de uma onda de calor e de uma seca prolongada, em Düsseldorf, Alemanha, na quarta-feira, 5 de agosto de 2026.
Foto: RFI

Futuro mais quente

A ONU alertou nesta terça-feira que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera atingiram níveis recordes em 2025 e continuaram a aumentar neste ano, comprometendo o planeta com "um futuro mais quente".

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas, as concentrações atmosféricas dos três principais gases de efeito estufa de longa permanência associados às atividades humanas (dióxido de carbono, metano, e óxido nitroso) bateram recordes no ano passado.

"Mais um ano, um novo recorde. Os gases de efeito estufa retêm uma quantidade sem precedentes de calor na atmosfera, o que intensifica os fenômenos meteorológicos extremos e amplia os riscos para nossas economias e sociedades", afirmou a secretária-geral adjunta da OMM, Ko Barrett.

"Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, e essa tendência deve continuar. O CO2 permanece na atmosfera por muito tempo e, por isso, afeta o clima global não apenas durante anos, mas também por décadas ou até séculos", acrescentou.

O boletim anual da OMM sobre gases de efeito estufa foi publicado às vésperas da COP31, prevista para ocorrer de 9 a 20 de novembro em Antalya, na Turquia. O documento analisa as concentrações de gases acumuladas na atmosfera, e não apenas as emissões liberadas a cada ano.

Bombeiros posicionam suas mangueiras para combater incêndios perto de La Berle-de-Cassy, ​​durante os incêndios florestais que assolam o sudoeste da França, em julho de julho de 2026.
Bombeiros posicionam suas mangueiras para combater incêndios perto de La Berle-de-Cassy, ​​durante os incêndios florestais que assolam o sudoeste da França, em julho de julho de 2026.
Foto: RFI

Sobrecarga

Cerca de metade do CO2 emitido a cada ano permanece na atmosfera, enquanto a outra metade é absorvida pelos ecossistemas terrestres e pelos oceanos. Segundo a OMM, a concentração média global de CO2 atingiu 426,8 partes por milhão (ppm) em 2025, o equivalente a 153% do nível registrado antes da era industrial, em 1750.

Os dados "mostram que os níveis de CO2 continuarão a aumentar em 2026", afirmou Barrett a jornalistas em Genebra.

"Cada parte por milhão adicional é importante, pois retém mais calor. Em suma, estamos sobrecarregando os oceanos e a atmosfera", disse ela.

O CO2 é responsável por cerca de 66% do efeito de aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa de longa permanência, e sua taxa de crescimento triplicou desde a década de 1960.

Entre 2024 e 2025, a concentração média global de CO2 aumentou 2,8 ppm, acima da média da década, mas abaixo do aumento excepcional observado entre 2023 e 2024.

A alta mais moderada no ano passado se explica, em parte, pela "redução das emissões de carbono associadas a incêndios em 2025, após o forte episódio de El Niño de 2023 e 2024", segundo Oksana Tarasova, cientista sênior da OMM.

Ainda assim, um aumento anual de 2,8 ppm representa um acréscimo considerável de carbono à atmosfera, proveniente da queima de combustíveis fósseis.

Tarasova alerta que o atual episódio de El Niño deverá afetar as concentrações de CO2, uma vez que as secas e os incêndios reduzem a capacidade dos ecossistemas terrestres de absorver carbono.

Imagem de arquivo. Um agricultor corta uma plantação de milho danificada pela seca em Tecoluca, no departamento de San Vicente, em El Salvador, em agosto de 2026. A escassez de chuvas, associada ao fenômeno El Niño, tem causado prejuízos econômicos a muitos agricultores.
Imagem de arquivo. Um agricultor corta uma plantação de milho danificada pela seca em Tecoluca, no departamento de San Vicente, em El Salvador, em agosto de 2026. A escassez de chuvas, associada ao fenômeno El Niño, tem causado prejuízos econômicos a muitos agricultores.
Foto: RFI

Outros gases

A concentração média global de metano (CH4) atingiu 1.948 partes por bilhão (ppb) em 2025, o equivalente a 267% do nível de 1750. O gás é responsável por cerca de 16% do efeito de aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa de longa permanência, mas fica menos tempo na atmosfera do que o CO2.

Cerca de 35% do metano liberado na atmosfera provém de fontes naturais, como áreas úmidas, que também são sensíveis às mudanças climáticas.

Os 65% restantes têm origem em atividades humanas, como a pecuária, o cultivo de arroz, a exploração de combustíveis fósseis, os aterros sanitários e a queima de biomassa.

O óxido nitroso (N2O), o terceiro gás de efeito estufa de longa permanência mais importante, provém tanto de fontes naturais quanto de atividades humanas, como a queima de biomassa, o uso de fertilizantes e diversos processos industriais. Sua concentração média global atingiu 339,1 ppb em 2025, o equivalente a 126% do nível de 1750.

O boletim também chama a atenção para dois gases menos abundantes, mas relevantes para a transição energética: o hidrogênio molecular (H2) e o hexafluoreto de enxofre (SF6). Ambos estão associados à produção e à distribuição de eletricidade, e suas concentrações atmosféricas estão aumentando.

"Por que deveríamos nos preocupar com isso? Porque o SF6f pode permanecer na atmosfera por mais de mil anos. Seu potencial de aquecimento global é cerca de 24.300 vezes superior ao do CO2 em um período de 100 anos", alertou Barrett.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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