'Tortura psicológica': palestinos são obrigados a demolir suas casas e ONU fala em 'limpeza étnica'
As demolições de casas palestinas por Israel se aceleram na Cisjordânia ocupada a leste de Jerusalém, onde alguns moradores são obrigados a destruir o próprio lar para evitar multas que podem chegar a dezenas de milhares de dólares. A prática, denunciada por organizações de direitos humanos como forma de coerção extrema, provoca traumas profundos e expõe a disputa política, jurídica e territorial que molda a vida cotidiana dos palestinos sob a ocupação israelense.
Amira Souilem, da RFI
No bairro de Silwan, em Jerusalém Oriental, onde palestinos convivem com o domínio forçado da ocupação israelense, um homem observa o que resta de sua casa enquanto a televisão, permanentemente ligada na rede Al Jazeera, eibe novas imagens de destruição.
O homem recebeu da prefeitura de Jerusalém uma ordem de demolição: sua casa é considerada uma construção "ilegal". O prazo dado pelas autoridades israelenses foi de 21 dias. Se não demolir por conta própria, enfrentará multas que podem ultrapassar dezenas de milhares de dólares.
Com a ajuda dos filhos, este palestino já derrubou grande parte do andar superior. "Minhas lágrimas caíam enquanto eu fazia isso. Há coisas que a gente sente por dentro e não consegue expressar. Passei dias sem conseguir comer. Estamos no limite. Sim, realmente no limite", diz, em entrevista à RFI, pedindo anonimato.
No térreo, ainda vivem cinco familiares, entre eles a mãe de 97 anos — deslocada três vezes desde 1948 — e um filho de 35 anos com autismo. "Eu juro que não sei para onde vamos", desabafa.
A ONG israelense B'Tselem contabiliza ao menos 1.267 estruturas destruídas em 2025 — entre casas, apartamentos e centros sociais. A maioria das demolições ocorre sob o argumento de ausência de licenças de construção, praticamente impossíveis de obter para palestinos em áreas sob controle israelense. Mas a modalidade mais extrema — obrigar o morador a destruir o próprio lar — ainda é pouco conhecida fora da região.
"Destruir a própria casa é uma forma de tortura psicológica"
Para a psicoterapeuta palestina Razzan Quran, a ordem de autodemolição de seu lar produz um tipo de violência que ultrapassa a perda material.
"Quando sou obrigada a destruir minha casa, é como se eu me destruísse. Isso é feito com minhas próprias mãos. Posso tentar iniciar o luto pela casa, mas também posso me culpar por ter obedecido. Vou me perguntar por que destruí eu mesma o meu lar. É assim que o trauma se aprofunda."
A prática, segundo ela, gera um conflito interno devastador: o morador é forçado a escolher entre acabar com o seu bem com as próprias mãos ou ver o Estado destruir sua casa e ainda arcar com multas impagáveis.
"É uma violência que se infiltra na identidade, na dignidade e na memória familiar", afirma.
Esse tipo de demolição tende a aumentar, segundo organizações de direitos humanos, à medida que Israel intensifica políticas de controle territorial em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia. A pressão urbanística, jurídica e policial se combina a um ambiente político cada vez mais hostil à presença palestina.
"Quem se importa com o direito internacional?"
Na prefeitura de Jerusalém Oriental, o vice‑prefeito Arieh King defende abertamente a ampliação das demolições. Ele é um dos arquitetos dessa política. "É igual em qualquer lugar do mundo. Ninguém daria autorização para construir ilegalmente no meio da Champs‑Élysées", afirma, referindo-se à famosa avenida parisiense.
A comparação ignora, porém, que Jerusalém Oriental é considerada território palestino ocupado segundo o direito internacional. Confrontado com essa realidade jurídica, King reage: "O direito internacional? Quem ainda se importa com o direito internacional? Você se importa mesmo? Sabe qual é o meu direito internacional? A Bíblia."
ONGs israelenses e internacionais afirmam que a política de demolições, combinada à expansão de colônias israelenses, configura uma estratégia de deslocamento sistemático de palestinos. A B'Tselem fala abertamente em "limpeza étnica". A expressão, antes evitada por diplomatas, tornou‑se mais frequente em relatórios e debates multilaterais.
ONU alerta para "sinais de limpeza étnica"
Na segunda‑feira (18), a ONU exigiu que Israel tome "todas as medidas possíveis" para impedir atos de genocídio na Faixa de Gaza e denunciou "sinais de limpeza étnica" tanto no enclave quanto na Cisjordânia. Em novo relatório, o Alto‑Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que as ações israelenses desde 7 de outubro de 2023 constituem "violações flagrantes" do direito internacional, equivalentes em muitos casos a "crimes de guerra e outras atrocidades".
O documento cita demolições, deslocamentos forçados, restrições de circulação e destruição de infraestrutura civil como práticas que, combinadas, podem configurar intenção de expulsar populações inteiras. O Alto‑Comissário Volker Türk pediu que Israel cumpra a ordem da Corte Internacional de Justiça, emitida em 2024, determinando medidas para prevenir atos de genocídio.
As autoridades israelenses rejeitam as acusações e afirmam que suas ações são motivadas por segurança. Já organizações palestinas e internacionais argumentam que a política de demolições — especialmente quando obriga moradores a destruir o próprio lar — ultrapassa qualquer justificativa de segurança e se insere em uma lógica de engenharia demográfica.
A dupla perda: o lar e a capacidade de permanecer
Para casos como o relatado pela RFI em Silwan, a demolição não representa apenas a perda física da casa, mas a ruptura de uma continuidade histórica. A mãe de família de 97 anos, deslocada três vezes desde 1948, enfrenta agora a quarta expulsão. O filho autista, que depende de rotinas estáveis, vive o colapso de seu único ambiente seguro.
A autodemolição também impede que a família recorra a mecanismos legais ou a redes de solidariedade comunitária. Ao destruir a própria casa, o morador elimina a prova material da violência estatal, ao mesmo tempo em que internaliza a culpa pelo ato.
"É uma dupla pena: perder o lar e carregar a responsabilidade simbólica pela destruição", explica a psicoterapeuta palestina Razzan Quran.
Enquanto isso, as demolições seguem. Em 2025, segundo a B'Tselem, foram destruídas 1.267 unidades palestinas. A tendência, afirmam especialistas, é de aceleração.
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