Separada da família há 10 anos, Nobel da Paz iraniana é transferida em urgência para hospital em Teerã
Vencedora do Nobel da Paz de 2023, a ativista iraniana Narges Mohammadi, 54, foi libertada sob fiança no domingo (10) e levada às pressas a um hospital em Teerã após piora grave de saúde, com risco de vida, segundo seus aliados. Presa repetidas vezes por sua militância contra a pena de morte, o regime clerical e o uso obrigatório do véu islâmico, ela passou mais de uma década detida e segue como um dos principais rostos da luta por liberdades no Irã.
A ativista iraniana de direitos humanos Narges Mohammadi recebeu o Prêmio Nobel da Paz em reconhecimento a décadas de militância - centrada na defesa de liberdades civis no Irã, como o fim da pena de morte, o direito das mulheres de escolher como se vestir e críticas ao sistema político-religioso do país -, mas sua luta a manteve separada da família por mais de uma década e colocou sua saúde em risco.
Mohammadi foi libertada no domingo sob fiança de seu mais recente período na prisão e transferida com urgência para um hospital em Teerã depois que apoiadores alertaram que sua vida corria perigo devido ao agravamento de seu estado de saúde.
A concessão do prêmio em 2023 pelo comitê norueguês foi uma vitória para Mohammadi, que passou grande parte das duas últimas décadas entrando e saindo da prisão enquanto atuava em campanhas por temas como o fim da pena de morte e o fim da obrigatoriedade do uso do hijab - véu islâmico que cobre o cabelo e, em alguns casos, parte do corpo das mulheres, cujo uso é obrigatório por lei no Irã.
Mas ela não estava em Oslo para receber o Nobel que reconhecia o trabalho de toda a sua vida, pois novamente se encontrava presa. O prêmio foi recebido por seus filhos gêmeos adolescentes Ali e Kiana, hoje com 19 anos, acompanhados de seu marido, Taghi Rahmani.
Ao conceder o prêmio a Mohammadi, o comitê Nobel destacou que sua "luta corajosa teve um custo pessoal enorme".
Seus filhos, que hoje vivem com o pai no exílio em Paris, não veem a mãe há mais de uma década e muitas vezes sequer conseguiram falar com ela durante seus períodos na prisão. Ainda assim, eles não pouparam elogios à coragem e às escolhas dela.
"Minha mãe pagou um preço alto. Ela trabalhou muito e ficou longe de nós por muito tempo. Mas, quando estava comigo e com Kiana, era uma mãe maravilhosa", disse Ali em um comunicado lido em entrevista coletiva neste mês em Paris.
"Se eu tivesse a chance de falar com minha mãe, seria a mesma mensagem de antes: 'Minha querida mãe, saiba que você não está sozinha. O povo iraniano está a seu lado.'"
"Questão de vida ou morte"
Mohammadi estava em saída temporária da prisão quando foi presa novamente pela última vez, em dezembro, ao discursar na cidade de Mashhad, no leste do país, durante o funeral de um advogado que havia morrido em circunstâncias consideradas suspeitas por apoiadores.
Em um gesto típico de desafio, ela não usava o hijab e denunciou o sistema clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. Esse processo político derrubou a monarquia então apoiada pelo Ocidente e instaurou uma República Islâmica liderada por autoridades religiosas, concentrando poder político no clero e estabelecendo leis baseadas em interpretações do islã.
Segundo apoiadores, ela foi presa com violência e agredida antes de ser transferida em fevereiro para outra prisão, na cidade de Zanjan, no norte do Irã, onde sofreu dois supostos infartos.
"A vida de Narges Mohammadi está por um fio", disse o marido, Rahmani, após ela ser levada a Teerã no domingo. "Sua liberdade é uma questão de vida ou morte."
Apesar de sua projeção internacional e da atenção do Judiciário, as autoridades iranianas e a imprensa pró-governo parecem cautelosas em dar visibilidade a Mohammadi. Quando ela foi presa em dezembro, a agência de notícias Fars afirmou que ela estava "agindo contra a segurança nacional" e a acusou de incitar "sedição" - termo que se refere a ações ou discursos que contestam ou tentam enfraquecer a ordem política estabelecida, como protestos e críticas públicas ao regime.
"Sofrimento indescritível"
Ainda assim, o espírito de resistência sempre foi uma característica central de Mohammadi, que organizou protestos inclusive quando estava presa na penitenciária de Evin, em Teerã, enquanto manifestações sacudiam o Irã em 2022 e 2023 - uma onda de protestos contra restrições às liberdades individuais, sobretudo de mulheres, e contra a repressão estatal.
Em entrevista à AFP realizada por meio de mensagens escritas em setembro de 2023, ela afirmou: "devemos continuar lutando e fazendo sacrifícios" enquanto liberdade e democracia não forem alcançadas no Irã.
"Meu sofrimento mais incurável e indescritível é o anseio de estar com meus filhos, de cujas vidas me afastei quando eles tinham oito anos", reconheceu.
Segundo sua equipe jurídica baseada em Paris, Mohammadi já passou mais de 10 anos de sua vida na prisão e atualmente enfrenta um total acumulado de 18 anos de condenações por diferentes acusações relacionadas à segurança nacional.
Nascida em 1972 em Zanjan, Mohammadi estudou física antes de se tornar engenheira. Depois, iniciou uma nova carreira no jornalismo, trabalhando em jornais que, à época, faziam parte do movimento reformista iraniano.
Nos anos 2000, ela se uniu ao Centro de Defensores dos Direitos Humanos, fundado pela advogada iraniana Shirin Ebadi - vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2003 -, onde atuou especialmente pela abolição da pena de morte e pela defesa de direitos fundamentais.
"Prisioneira de consciência"
Em seu livro "White Torture" ("Tortura branca"), Mohammadi denunciou as condições de detenção no Irã, em especial o uso de confinamento solitário, ao qual afirmou ter sido submetida.
A Anistia Internacional a classifica como "prisioneira de consciência" - termo usado para pessoas presas por suas convicções políticas, religiosas ou ideológicas, sem terem cometido crimes violentos, e cuja detenção é considerada arbitrária.
"Eu espero pelo dia em que minha mãe e todos os presos políticos sejam libertados sem condições e que nenhuma criança no mundo precise mais ser separada de sua mãe", disse sua filha Kiana.
Com AFP
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