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Sanções econômicas causam centenas de milhares de mortes anuais, um custo comparável ao das guerras

Desde sua criação, ao fim da Primeira Guerra Mundial, as sanções internacionais nunca foram aplicadas de forma tão abrangente quanto hoje. Embora se apresente como uma alternativa menos letal à guerra convencional, esse regime causa centenas de milhares de mortes todos os anos.

30 abr 2026 - 15h51
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Anne Bernas, da RFI em Paris

O propósito original das sanções era manter a paz e a segurança ou punir comportamentos considerados ilegítimos no cenário internacional. No entanto, um estudo de 2023 do Centro de Pesquisa de Política Econômica (CEPR), com sede em Londres, estima que 38 milhões de pessoas morreram em todo o mundo em decorrência de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia entre 1971 e 2021.

Em 2025, outra pesquisa, publicada pela revista The Lancet Global Health, analisou os efeitos das sanções de EUA e União Europeia em 152 países no mesmo período. O estudo constatou que medidas unilaterais de retaliação resultaram em 564.258 mortes por ano, totalizando pouco mais de 28 milhões em cinco décadas. Ao considerar todas as modalidades de penalidades, o número salta para 776.610 mortes anuais, sendo que mais da metade das vítimas eram crianças menores de cinco anos.

Durante a Guerra Fria, as sanções eram majoritariamente comerciais e focadas em países envolvidos em disputas geopolíticas, como Cuba e Coreia do Norte. Nos anos 1990 - conhecidos como a "década das sanções" - especialmente a partir deste século, surgiu um novo modelo: as "Sanções Inteligentes". Elas foram projetadas para atingir alvos específicos e poupar a população civil, excluindo bens essenciais e medicamentos das restrições.

Contudo, nos últimos 15 anos, o uso de sanções pelas potências ocidentais cresceu exponencialmente. Países sob algum tipo de penalidade representavam 5% da economia global na década de 1960; na década de 2010, o índice chegou a 25%. Atualmente, um terço da economia mundial provém de nações sancionadas.

Estados Unidos lideram aplicação de medidas

A União Europeia, por exemplo, aplicava pouco mais de cem sanções no ano 2000; em 2024, o número ultrapassou 5.000. Mas o motor do sistema são os Estados Unidos. As sanções internacionais - que podem ser econômicas, diplomáticas, militares ou simbólicas - são iniciadas por diversos atores e blocos, mas os EUA são pioneiros nas medidas "unilaterais".

Em 2023, 40% das sanções mundiais foram impostas por Washington, segundo o Banco de Dados Global de Sanções, enquanto a ONU respondeu por 30% e a UE por 20%. O estudo da The Lancet mostra, porém, que o custo humano das sanções da ONU é consideravelmente menor do que o das medidas impostas pelos americanos ou europeus.

Manifestantes ucranianos exigem um embargo ao petróleo russo durante um protesto em frente às instituições da UE, antes de uma reunião extraordinária de líderes europeus, em Bruxelas, em 30 de maio de 2022.
Manifestantes ucranianos exigem um embargo ao petróleo russo durante um protesto em frente às instituições da UE, antes de uma reunião extraordinária de líderes europeus, em Bruxelas, em 30 de maio de 2022.
Foto: RFI

Populações são as principais vítimas

Desde 1962, Washington mantém um bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba. Em março de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para a situação "profundamente preocupante" na ilha após seis décadas de embargo. Milhares de cirurgias foram adiadas e pacientes oncológicos ou gestantes foram colocados em risco devido à falta de eletricidade para equipamentos médicos e para a rede de refrigeração de vacinas. "A saúde deve ser protegida a todo custo e jamais ficar à mercê da geopolítica", enfatizou o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesuss na rede social X.

O impacto das sanções é severo nas populações: escassez, inflação, desemprego e pobreza atingem os mais vulneráveis. No Irã, entre 2015 e 2018, o alívio das sanções após o acordo nuclear de Viena fez a inflação despencar de 50% para 10%. Já no Níger, em 2023, as sanções da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) comprometeram a segurança alimentar. O fechamento de fronteiras e a suspensão de voos humanitários por falta de combustível paralisaram a ajuda internacional, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA).

No Afeganistão, a estratégia americana de sufocamento financeiro contribuiu para a perda de 700 mil empregos em 2023. Segundo o site Orient XXI, as elites talibãs não foram afetadas; o preço é pago pelos cidadãos comuns, que precisam escolher entre aquecer a casa ou comer. Cerca de 20 milhões de afegãos enfrentam insegurança alimentar aguda desde a retirada das tropas americanas, aponta a FAO.

Refugiados afegãos que retornaram após fugirem do Irã se reúnem em um centro do ACNUR localizado perto da passagem de fronteira de Islam Qala, na província ocidental de Herat, Afeganistão, em 20 de junho de 2025. A economia do país está sufocada por embargo americano.
Refugiados afegãos que retornaram após fugirem do Irã se reúnem em um centro do ACNUR localizado perto da passagem de fronteira de Islam Qala, na província ocidental de Herat, Afeganistão, em 20 de junho de 2025. A economia do país está sufocada por embargo americano.
Foto: RFI

Eficácia limitada

A eficácia das sanções é controversa. Em média, essa ferramenta atinge seus objetivos em apenas um terço dos casos. "As sanções são mais eficazes quando visam mudanças políticas modestas do que quando buscam trocas de regime ou interromper ações militares", observa a economista Sylvie Matelly, diretora do Instituto Jacques Delors.

Embora abalem economias, as sanções raramente alteram o comportamento de regimes autoritários. Se funcionaram na África do Sul contra o apartheid, falharam em Cuba e na Coreia do Norte, que mantém seu programa nuclear ativo. Além disso, países como Rússia e Irã desenvolveram métodos para contornar as restrições, expandindo a produção local e vendendo hidrocarbonetos apesar dos obstáculos.

Efeito reverso e direitos humanos

Estudos sugerem que sanções muitas vezes pioram a situação dos direitos humanos, mesmo quando são aplicadas sob o pretexto de defendê-los. Em setembro de 2025, Washington anunciou sanções contra três organizações palestinas de direitos humanos (Al-Haq, Al-Mezan e PCHR). Liz Evenson, da Human Rights Watch, criticou a medida, afirmando que os EUA tentam minar o Estado de Direito global ao atacar defensores que exigem responsabilidade.

Por fim, em países como Rússia e Irã, as sanções provocam o que diplomatas chamam de "União Patriótica": o aumento do sentimento nacionalista e o apoio ao governo local diante de uma ameaça externa. O estudo da The Lancet conclui que é necessário repensar o uso de sanções unilaterais, alertando que o número de mortes atribuíveis a elas é comparável ao total de vítimas de conflitos armados no mundo.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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