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Retorno da Artemis II a 40 mil km/h testa escudo térmico e desafia plano dos EUA de voltar à Lua

A reentrada da cápsula Orion na atmosfera marca o momento mais crítico da missão Artemis II. Após viajar mais de 406 mil quilômetros — distância inédita para uma tripulação —, quatro astronautas se preparam para retornar à Terra a quase 40 mil km/h. O desempenho do escudo térmico, que já apresentou falhas em 2022, é observado com atenção: dele depende não só a segurança da tripulação, mas o futuro do programa lunar dos Estados Unidos.

10 abr 2026 - 10h14
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A bordo estão os norte-americanos Christina Koch, Victor Glover e Reid Wiseman, além do canadense Jeremy Hansen. O pouso no mar está previsto para a madrugada de sábado (11), no Pacífico, próximo a San Diego. Mais do que o fim de uma missão, trata-se de um teste decisivo: o comportamento do escudo térmico da Orion pode definir o rumo das próximas etapas do programa Artemis.

"Poderemos começar a nos alegrar quando a tripulação estiver em segurança" a bordo do navio responsável pelo resgate, afirmou na quinta-feira Amit Kshatriya, administrador adjunto da Nasa, durante coletiva de imprensa.

Reentrada em velocidade extrema

A diferença em relação a missões em órbita terrestre é significativa. Astronautas da Estação Espacial Internacional retornam de cerca de 400 quilômetros de altitude. Já a Artemis II volta de uma viagem lunar, a quase 400 mil quilômetros. Como consequência, a velocidade de reentrada praticamente dobra.

Em vez dos habituais 28 mil km/h, a cápsula Orion entrará na atmosfera a quase 40 mil km/h. Uma quantidade colossal de energia precisa ser dissipada para que a nave reduza sua velocidade a quase zero no momento do pouso no mar.

É a travessia da atmosfera que garante a maior parte dessa desaceleração. Mas esse processo transforma energia cinética em calor extremo: até 2.700 °C gerados pelo atrito com o ar.

Escudo térmico sob vigilância

Para suportar essas condições, a Orion conta com um escudo térmico feito de Avcoat — o mesmo material utilizado nas missões Apollo. Em vez de simplesmente resistir ao calor, ele se desgasta de forma controlada, queimando lentamente para dissipar a energia antes que ela atinja a estrutura da cápsula.

Apesar da tecnologia já testada, o sistema desperta preocupações. Durante a missão Artemis I, em 2022 — que não tinha tripulação —, o escudo térmico apresentou um comportamento inesperado, segundo relatório técnico.

Fragmentos inteiros do revestimento se soltaram durante a descida. A causa foi atribuída a um problema de permeabilidade do material: os gases gerados durante a combustão não conseguiam escapar adequadamente, provocando acúmulo de pressão, fissuras e, por fim, a ejeção de partes do escudo.

Ajustes após falhas

Embora a cápsula tenha pousado sem maiores problemas, o episódio não foi ignorado. Para a Artemis II, os engenheiros alteraram o perfil de reentrada. A Orion fará uma entrada mais direta na atmosfera, reduzindo o chamado "efeito rebote", observado na missão anterior, que contribuiu para o desgaste do escudo.

A contrapartida é um aumento da intensidade térmica, porém por um período mais curto.

Amit Kshatriya mostra confiança. "Evidentemente, estaremos ansiosos. Estaremos com as famílias, juntos, mas temos plena confiança nas equipes. Sempre existe uma parte de medo irracional… mas posso garantir que não tenho nenhuma preocupação racional. Fizemos o trabalho e confio na equipe de voo, na equipe de recuperação e em tudo o que realizamos", afirmou.

Ainda assim, a decisão técnica gerou debate dentro e fora da agência. O ex-engenheiro da Nasa Daniel Rasky chegou a alertar, em janeiro, para um possível "risco de falha total", em entrevista à rede ABC.

"É como estar à beira de um penhasco em um dia de neblina. Você pode cair no vazio. A Nasa diz que funcionou na Artemis I. Ok, você não caiu dessa vez, o fracasso não é garantido… mas você ainda está à beira do abismo e não sabe qual movimento pode levar a um desfecho catastrófico", afirmou.

Entre os astronautas, o momento também é motivo de reflexão. Questionado por jornalistas, Victor Glover admitiu que pensa na reentrada desde que a missão foi anunciada.

Expectativa e tensão na tripulação

"No que diz respeito ao pouso no mar, vou ser honesto: penso nisso desde 3 de abril de 2023, o dia em que essa missão nos foi confiada. Em uma das nossas primeiras coletivas, perguntaram o que mais esperávamos. Eu respondi: 'o pouso no mar'. Era uma piada… mas nem tanto assim. É preciso voltar", disse Glover.

Ele também destacou o impacto da experiência:

"Atravessar a atmosfera dentro de uma bola de fogo é algo marcante. É grandioso. São lembranças para a vida inteira. Vou pensar e falar sobre isso pelo resto da minha vida, com certeza".

Após a desaceleração para cerca de 500 km/h, a cápsula acionará a sequência de abertura dos paraquedas. A partir daí, iniciará a descida final nos últimos 7 a 8 quilômetros antes do pouso no mar.

Próximos passos do programa lunar

A Orion será então resgatada por um navio da Marinha dos Estados Unidos, enquanto familiares dos astronautas acompanham a operação a partir do centro espacial de Houston, considerado o "coração" da missão.

A Artemis II é um passo essencial para validar os sistemas que permitirão o retorno de astronautas à superfície lunar. O objetivo da Nasa é estabelecer uma presença duradoura na Lua e preparar futuras missões a Marte.

O cronograma prevê um novo pouso lunar até 2028 — antes do fim do mandato de Donald Trump e também antes da meta anunciada pela China, que disputa protagonismo na nova corrida espacial.

 

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