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Restos de "baleeiro fantasma" jazem no coração da Antártida

18 mai 2017
06h01
atualizado às 08h41
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Em plena Antártida jazem os restos de um antigo navio baleeiro norueguês que ainda conserva móveis, roupas e lembranças das 200 pessoas que há mais de um século habitaram este remoto território banhado por um intenso frio e uma solidão aterradora.

As antigas instalações ficam na parte interior de Decepção, uma pequena ilha vulcânica em forma de ferradura.
As antigas instalações ficam na parte interior de Decepção, uma pequena ilha vulcânica em forma de ferradura.
Foto: EFE

Botas rasgadas, caixas de aveia e restos de cadeiras e mesas do começo do século XX são alguns dos objetos que foram abandonados em Baía Baleeiros, uma estação erma que hoje permanece indiferente à passagem do tempo, tal e como se fosse uma Pompeia antártica.

As antigas instalações ficam na parte interior de Decepção, uma pequena ilha vulcânica em forma de ferradura, que fica a noroeste da península antártica, a 62 graus de latitude sul.

Diz-se que foram os intrépidos caçadores de focas que descobriram este refúgio escondido no começo do século XIX, quando os mercados ocidentais pagavam grandes quantias pela densa pelagem destes mamíferos marítimos.

Mas foi apenas em 1911 que em uma das ladeiras da grande caldeira vulcânica foi erguido o primeiro assentamento humano permanente, dedicado ao processamento de óleo de baleia.

A companhia baleeira norueguesa Hvalfangerselskabet Hektor A/S conseguiu uma concessão das autoridades britânicas - que então controlavam esse território - para estabelecer uma estação terrestre que processasse as carcaças dos cetáceos, dos quais se obtinha óleo que se utilizava como combustível para candeeiros.

Os barcos-fábrica que até esse momento sondavam em Ilha Decepção utilizavam somente algumas partes dos cetáceos e jogavam o resto pela borda. A nova fábrica terrestre permitia aproveitar os restos, que eram fervidos em grandes caldeiras.

Para essas latitudes se mudaram mais de 200 rudes trabalhadores que, por turnos, habitaram humildes cabanas de madeira por mais de 20 anos.

Eles foram os encarregados de construir diversas caldeiras, quatro gigantescos tanques para armazenar o óleo, uma carpintaria, uma fábrica de guano (esterco de aves), um embarcadouro e uma pequena ferrovia manual.

A colônia contava, além disso, com dormitórios, uma cozinha, um pequeno hospital, uma estação de rádio e um criadouro de gado.

A carne e as entranhas das baleias eram fervidas em panelas de pressão para se obter o valioso óleo. Já os resíduos dos ossos eram triturados para fazer fertilizante.

Às tarefas da unidade terrestre se somaram as de 12 fábricas flutuantes e 27 barcos baleeiros. Somente entre 1912 e 1913 se estima que foram processadas 5.000 baleias.

A colônia contava, além disso, com dormitórios, uma cozinha, um pequeno hospital, uma estação de rádio e um criadouro de gado.
A colônia contava, além disso, com dormitórios, uma cozinha, um pequeno hospital, uma estação de rádio e um criadouro de gado.
Foto: EFE

Em pouco mais de 20 anos sua lucrativa e devastadora atividade acabou por exterminar quase todas as baleias do arquipélago das ilhas Shetland do Sul.

A estação terrestre foi fechada definitivamente em abril de 1931, por causa do desaparecimento das baleias nessa região e o impacto da recessão econômica. Desde então, a unidade permanece desabitada.

As casas semidestruídas dos trabalhadores, os imensos depósitos metálicos carcomidos pela oxidação, as decrépitas caldeiras e alguns restos de embarcações formam hoje uma paisagem pós-apocalíptica, que mostra as duras condições de vida e o esforçado trabalho dos antigos expedicionários.

De um lado das instalações, em um terreno pedregoso e desértico, fica o cemitério da colônia, no qual estão enterrados 38 noruegueses, três suecos, um chileno, um russo, um bretão e uma pessoa de origem desconhecida.

Em 1969 uma erupção vulcânica ocultou os túmulos sob uma capa de cascalho e lama. Hoje, somente duas cruzes de madeira velha são vistas sobre a areia preta.

"Tommerm Hans A. Gulliksen 4/1-1871 - 7/4-1929" diz uma delas. Dele a história somente menciona que foi um carpinteiro nascido no sul de Noruega.

Sua sepultura, marcada com pedras de diferentes cores, lembra aos visitantes que um dia neste local se escutava as vozes dos caçadores de baleias e o chiado das caldeiras a vapor.

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EFE   

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