Por que os EUA têm tantos políticos idosos e poucos jovens disputando eleições
De Trump a congressistas nonagenários, ascensão da idade média dos líderes americanos reacende debate sobre por que tão poucos jovens chegam aos cargos eletivos.
A política dos EUA enfrenta uma crescente gerontocracia, com líderes octogenários mantendo o poder devido a vantagens de financiamento eleitoral e consolidação partidária. Em contraste, a juventude continua sub-representada no Congresso diante do desencanto com a classe política, barreiras de idade mínima, bipartidarismo e desafios para conciliar a função com a vida familiar. O cenário acirra debates sobre limites de mandatos e a necessidade de renovação nas prioridades públicas nacionais.
Poucos políticos dos Estados Unidos têm uma carreira tão longa quanto Hal Rogers. Aos 88 anos, o republicano disputará as eleições legislativas, nesta terça-feira (03/11), em busca de seu 24º mandato na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira).
Rogers representa o 5º distrito eleitoral de Kentucky desde 1981 e é o deputado há mais tempo em exercício na Câmara. Rogers foi eleito na mesma noite em que Ronald Reagan venceu sua primeira eleição presidencial, com o slogan Let's Make America Great Again (Vamos Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre), expressão que seria retomada décadas depois pelo atual presidente americano, Donald Trump.
Na disputa pela indicação do Partido Republicano neste ano, Rogers derrotou, entre outros adversários, um candidato 60 anos mais jovem. Mas o congressista, nascido na década de 1930, está longe de ser o único político americano a continuar em atividade depois dos 80 anos.
O próprio Trump tem 80 anos. Seu antecessor, Joe Biden, deixou a Presidência dos EUA aos 82, mesma idade que Nancy Pelosi tinha quando deixou a liderança democrata na Câmara dos Representantes. Chuck Grassley, de 93 anos, continua no Senado. Ele iniciou a carreira política em 1958, antes mesmo do Alasca e Havaí se tornarem Estados americanos.
A idade avançada e as condições de saúde de alguns desses políticos, no entanto, têm gerado preocupação tanto entre republicanos quanto entre democratas, reacendendo o debate sobre a adoção de limites de idade ou a exigência de exames médicos para quem ocupa cargos políticos.
Os EUA são conhecidos por sua "gerontocracia", sistema de governo em que o poder é exercido por pessoas muito mais velhas do que a maior parte da população adulta.
Ao mesmo tempo, o país está entre as democracias com menor proporção de parlamentares com menos de 45 anos, segundo pesquisa da União Interparlamentar (UIP), organização internacional que reúne parlamentos de diferentes países.
Mas por que tão poucos jovens entram para a política? Será que é muito difícil conseguir ingressar nesse meio e construir uma carreira bem-sucedida?
Um país sem espaço para os jovens?
O republicano Riley Owen, de 27 anos, é um dos poucos candidatos da geração Z (nascida entre 1995 e 2010) a disputar uma vaga no Congresso dos EUA nas eleições de 3 de novembro deste ano.
Owen concorre por um distrito eleitoral recém-criado em Utah, onde, segundo especialistas e pesquisas, os democratas podem ter vantagem. Suas propostas incluem licença-maternidade remunerada, restrições à negociação de ações por parlamentares e medidas de proteção ambiental, temas que também podem atrair eleitores do partido adversário, o Democrata.
Ao ser confirmado como candidato republicano pelo 1º distrito eleitoral do Estado, Owen subiu ao palco ao som de We Didn't Start the Fire ("Não fomos nós que começamos o incêndio", em tradução livre), do cantor americano Billy Joel, e defendeu que sua geração precisa ajudar a renovar o sonho americano.
Para Owen, a gerontocracia é "uma questão bipartidária".
"Temos pessoas que fizeram da política uma carreira e passam a vida inteira no Congresso", afirmou. Segundo Owen, isso é um sinal de que o sistema político não está atendendo às necessidades dos americanos.
O candidato aponta como um dos maiores obstáculos o peso do dinheiro na política dos EUA. Pesquisas indicam que doadores de campanhas eleitorais tendem a preferir candidatos que já estão no poder.
De fato, seu adversário, o democrata Ben McAdams, de 51 anos, que já foi deputado na Câmara dos Representantes, arrecadou até agora muito mais recursos para a campanha.
Até meados de outubro, McAdams havia arrecadado mais de US$ 2,6 milhões (cerca de R$ 13,9 milhões), enquanto Owen havia conseguido US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), segundo registros disponíveis no site da Comissão Eleitoral Federal dos EUA (FEC, na sigla em inglês).
Owen argumenta que sua geração está em uma posição privilegiada para compreender questões políticas atuais, como os desafios impostos pela tecnologia.
Ele também contesta a ideia de que candidatos mais jovens necessariamente tenham menos experiência. Como exemplo, cita sua própria trajetória como oficial militar e analista de políticas públicas da Casa Branca.
"Acho que, na política, assim como na indústria, precisamos do que chamamos de inovação disruptiva", afirmou.
A idade dos principais líderes políticos americanos é tema de debate há décadas.
Em 1984, Ronald Reagan, que, aos 73 anos, era o então presidente mais velho da história dos EUA, reagiu aos questionamentos sobre sua idade com uma piada sobre a "juventude e inexperiência" de seu adversário, Walter Mondale, de 56 anos.
Nos EUA, cada Estado também tem seu próprio Legislativo, formado por um Senado e uma Câmara dos Representantes, onde muitos políticos iniciam a carreira.
Vários dos atuais membros do Congresso americano passaram anos na política estadual antes de disputar uma vaga no Legislativo federal, sediado na capital americana, Washington D.C..
A idade dos integrantes do Congresso americano, porém, vem aumentando ao longo das décadas. Segundo registros do próprio Congresso, a Câmara dos Representantes e o Senado atingiram suas menores idades medianas no início dos anos 1980, quando eram de 48 e 52 anos, respectivamente.
No início da atual legislatura, a idade média dos deputados era de 58 anos, enquanto a dos senadores chegava a 65, segundo uma análise do Pew Research Center (centro de pesquisas dos EUA). Já a idade mediana da população americana é de 39 anos.
A saúde e a capacidade de raciocínio dos políticos mais velhos do país também passaram a receber maior atenção. A idade de Joe Biden se tornou um dos principais temas de debate durante sua Presidência. Trump também enfrentou questionamentos, embora em menor escala.
O senador republicano Mitch McConnell, de 84 anos, também tem sido alvo de questionamentos cada vez mais frequentes sobre sua saúde, após passar meses afastado do Congresso para receber tratamento médico.
Entre os democratas, Maxine Waters, de 88 anos, enfrenta uma disputa para continuar como principal representante do partido na influente Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes. Para alguns, sua idade pesa contra ela.
Idade versus prioridades políticas
Alguns dos críticos mais contundentes da chamada gerontocracia são candidatos que se identificam como socialistas democráticos, cujas posições políticas estão mais à esquerda do que as defendidas pela ala predominante do Partido Democrata. Esses candidatos costumam concentrar suas campanhas no custo de vida e em outras questões que preocupam os millennials (nascidos entre 1980 e 1995) e a geração Z. Seus apoiadores também tendem a ser mais jovens.
O perfil dos eleitores, por outro lado, costuma ser mais velho, assim como o dos próprios políticos eleitos. Pesquisas do Pew Research Center mostram que a proporção de jovens entre 18 e 29 anos entre os americanos que não votam vem aumentando. Nas eleições de 2020, essa faixa etária representava 25% dos que não compareceram às urnas, segundo o instituto. Quatro anos depois, o percentual chegou a 30%.
O Pew Research Center também aponta que os jovens com menos de 30 anos foram subrepresentados nas eleições de 2024. Embora correspondessem a 20% dos americanos aptos a votar, foram responsáveis por apenas 15% dos votos registrados.
Para ativistas políticos, esses números são importantes porque ajudam a explicar por que determinados temas recebem menos atenção no debate público.
"Sim, isso pode resultar na eleição de pessoas mais velhas. Mas acho que também influencia muito as questões consideradas importantes e os temas que políticos se sentem incentivados a discutir e enfrentar", afirmou Grace Mausser, uma das coordenadoras da seção de Nova York dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês).
Mausser participou da campanha vitoriosa de Zohran Mamdani, que, no ano passado, foi eleito prefeito de Nova York aos 34 anos, tornando-se o mais jovem a ocupar o cargo desde 1892. Mamdani passou a ser visto como um raro exemplo de sucesso de um político jovem. Mas, para Mausser, sua aliada, as ideias de um político importam mais do que sua idade.
Segundo ela, permanecer muitos anos na política não é necessariamente um problema. A dificuldade está nas consequências que isso pode trazer.
"Você fica tão acostumado com a linguagem e as ideias dos políticos tradicionais que qualquer coisa diferente, qualquer ideia nova, venha ela de jovens ou de pessoas mais velhas, parece absurda."
Mausser cita o senador independente Bernie Sanders, de 85 anos, como exemplo de um político que, apesar de sua longa trajetória no Congresso americano, soube acompanhar as mudanças e defender propostas que conquistaram apoio de diferentes gerações.
Jovens desiludidos com a política
Nos EUA, as pessoas mais velhas têm uma opinião muito mais favorável sobre os políticos do que os jovens. Essa diferença entre gerações é ainda maior do que em muitos outros países, segundo uma pesquisa do Pew Research Center realizada no primeiro semestre de 2025.
Entre os americanos de 18 a 34 anos, 62% afirmaram acreditar que poucos ou nenhum dos políticos eleitos são honestos. Entre as pessoas com mais de 50 anos, o percentual foi de 45%. Dos 25 países analisados pelo Pew Research Center, apenas os jovens adultos da Grécia demonstraram uma visão mais negativa sobre a honestidade dos políticos.
Para um especialista que estuda a participação política nos EUA e na Europa, a desilusão dos jovens ajuda a explicar por que muitos não querem se envolver com a política.
Segundo James Sloam, pesquisador da Royal Holloway, da Universidade de Londres, no Reino Unido, a situação é agravada pelas regras que estabelecem uma idade mínima para ocupar cargos no Congresso americano. Para disputar uma vaga no Senado, é preciso ter pelo menos 30 anos. Já para a Câmara dos Representantes, a idade mínima é de 25 anos.
"Uma coisa leva à outra", afirmou Sloam. "Se não há jovens suficientes participando da política de modo geral, eles também não vão chegar a ocupar cargos de representação."
Sloam acrescentou que os jovens, tanto nos EUA quanto no Reino Unido, sabem que a política não é o único caminho para exercer poder e influência.
Para os jovens que conseguem chegar a cargos políticos de destaque, surge outra questão: como conciliar a carreira com a vida familiar, especialmente quando se têm filhos pequenos? Durante o verão no hemisfério norte, os casos de duas jovens mulheres que ocupavam posições importantes em Washington D.C. reacenderam o debate sobre as dificuldades de conciliar a maternidade com o trabalho na política.
A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez, de 37 anos, que assumiu o cargo aos 29, anunciou que havia iniciado o processo de congelamento de óvulos.
Na mesma semana, em agosto, Karoline Leavitt, de 29 anos, anunciou que deixaria o governo Trump para passar mais tempo com a família, incluindo seu bebê recém-nascido. Quase dois anos antes, ela havia se tornado a pessoa mais jovem da história a assumir o cargo de porta-voz da Casa Branca.
"Não consigo ser a melhor mãe que meus dois filhos pequenos merecem e, ao mesmo tempo, dedicar todo o tempo, a energia e a atenção que o cargo de porta-voz da Casa Branca exige", explicou Leavitt.
Poucas mulheres deram à luz enquanto exerciam mandato no Congresso americano. Além disso, apenas algumas dezenas de congressistas são mães de crianças e adolescentes com menos de 18 anos. O governo federal, assim como muitos empregadores nos EUA, não oferece licença parental remunerada.
O atual vice-presidente americano, J.D. Vance, de 42 anos, um dos mais jovens da história dos EUA, reconheceu recentemente que ter filhos pequenos pode influenciar sua decisão de disputar a Presidência em 2028.
"Temos quatro filhos pequenos", afirmou Vance, que pertence ao Partido Republicano.
Disputa entre dois partidos
O sistema político dos EUA, dominado por dois partidos, também é apontado como um obstáculo à participação dos jovens na política.
Segundo Sloam, pesquisador da Universidade de Londres, isso ocorre porque o sistema oferece espaço a uma variedade relativamente limitada de posições políticas. Ele cita estudos que indicam que os jovens tendem a se mobilizar mais em torno de movimentos sociais ou campanhas por causas específicas do que pela política partidária.
Dentro dos próprios partidos, Sloam destaca o exemplo de Mamdani e de outros políticos de esquerda que vêm conseguindo atrair o apoio dos jovens com propostas que se afastam das posições tradicionais do Partido Democrata. Ele ressalva, porém, que esse movimento "ainda acontece de forma um tanto esporádica".
O Partido Republicano também passou por divisões internas na última década, com o surgimento do movimento Make America Great Again (Maga), liderado por Trump. Nas eleições presidenciais de 2024, o movimento conquistou o apoio de uma parcela expressiva dos homens jovens.
Segundo Sloam, algumas democracias europeias mostram que um sistema político com maior diversidade de partidos pode estimular a participação dos jovens.
Ele cita como exemplo os países escandinavos, onde os sistemas multipartidários são mais comuns. Nesses países, os partidos que integram o governo "trabalham com os movimentos sociais para tentar incorporá-los ao sistema político".
Ao mencionar países como a Noruega, Sloam afirma que existe uma relação de reforço mútuo: quanto maior a participação dos jovens nas eleições e a confiança deles no sistema político, maior tende a ser seu envolvimento com a política.
Perspectivas para o futuro
Alguns especialistas defendem que certos parlamentares deveriam estar considerando a hora de se aposentar. Ao mesmo tempo, argumentam que os eleitores não devem ignorar as qualidades que vêm com a idade nem confundir envelhecimento com perda de capacidade.
"A idade, por si só, diz muito pouco sobre a capacidade de uma pessoa", afirmou Tracey Gendron, professora de gerontologia da Universidade da Comunidade da Virgínia, nos EUA, cujas pesquisas questionam a ideia de que envelhecer significa necessariamente perder capacidades.
"Uma pessoa de 45 anos pode estar enfrentando depressão ou problemas com o consumo de drogas e não ter as condições cognitivas necessárias para exercer o cargo", disse.
Por outro lado, segundo Gendron, "uma pessoa de 85 anos pode ter uma integridade extraordinária, além de discernimento político e sabedoria, e ser plenamente capaz de desempenhar suas funções".
Gendron reconhece que a composição etária do Congresso americano não reflete a da população do país. Mas, para ela, isso também mostra que há vários outros aspectos em que o Legislativo poderia se tornar mais representativo.
"É curioso chamarmos isso de gerontocracia e concentrarmos a discussão apenas na idade", afirmou Gendron. "Quando analisamos outros aspectos da representatividade, como gênero, orientação sexual, religião e raça, percebemos que o Congresso também não reflete a diversidade da população."
O republicano Riley Owen acredita que tem chances de vencer a eleição em Utah, apesar de seu adversário dispor de muito mais recursos para a campanha.
Ao falar sobre o que o motiva como candidato da geração Z, ele destaca questões como o papel da tecnologia na sociedade, a imigração e o custo de vida.
"Estou começando a formar minha própria família, olhando para os custos e [me perguntando] como vou dar conta de tudo?", afirmou Owen.
Questionado sobre possíveis semelhanças entre sua campanha e as de candidatos jovens do campo político oposto, Owen defende a superação das divisões partidárias.
"Eu tentaria desconstruir essa lógica de 'nós contra eles' e talvez deixá-la um pouco de lado. [Existe uma] mensagem bipartidária sentida por muitos americanos dos dois lados do espectro político: a de que Washington D.C. não está funcionando para eles."
Owen compartilha a visão de Grace Mausser, a socialista democrática de Nova York, de que os eleitores não devem escolher um candidato apenas por ser jovem. O que importa são suas ideias.
"Para mim, importa muito mais o que você defende e por quem está lutando do que o ano em que nasceu", afirmou Mausser.
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