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Por que os Estados da antiga Alemanha comunista passaram a ser o bastião da extrema direita no país

A imigração, a queda da economia, as sequelas da reunificação e até o legado do nazismo são alguns dos fatores indicados por especialistas para explicar o voto dos eleitores do leste da Alemanha.

22 set 2026 - 14h13
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Resumo
O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) tem conquistado vitórias expressivas nos Estados da antiga Alemanha Oriental comunista, consolidando a região como seu bastião eleitoral. Especialistas atribuem o fenômeno às cicatrizes socioeconômicas da reunificação — marcada por desigualdade salarial e desemprego —, à rejeição à imigração, a um histórico de regimes autoritários e à fragilidade da sociedade civil local, em um cenário de forte ceticismo em relação ao Estado.
O partido AfD, considerado uma formação de extrema direita pelos serviços de inteligência da Alemanha, voltou a vencer eleições regionais no leste do país
O partido AfD, considerado uma formação de extrema direita pelos serviços de inteligência da Alemanha, voltou a vencer eleições regionais no leste do país
Foto: Jens Schlueter/Getty Images / BBC News Brasil

A extrema direita voltou a sacudir o tabuleiro político alemão.

Duas semanas de vencer as eleições no Estado da Saxônia-Anhalt com 44% dos votos, ficando a apenas três cadeiras de conquistar o governo regional, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) voltou a se impor no dia 20 de setembro, agora em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde obteve 38% dos sufrágios.

Por outro lado, o partido do governo, a União Democrata-Cristã (CDU), recebeu apenas 4,9% dos votos, segundo as apurações oficiais. Este resultado deixa o partido do chanceler Friedrich Merz fora do parlamento regional, pela primeira vez na sua história.

A capital alemã, Berlim, também realizou eleições para a escolha de um novo prefeito.

O partido pós-comunista Die Linke ("A esquerda") foi o mais votado, com 25%. Seguiram-se a CDU (19%) e a AfD, que ficou em terceiro lugar, com 16% dos votos — à frente dos social-democratas, que vêm alternando o poder no país com os conservadores da CDU, desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Estes três resultados reforçam uma tendência observada nos últimos anos: o leste da Alemanha se consolidou como um dos principais bastiões eleitorais da AfD.

É uma situação, no mínimo, paradoxal. Mas qual seria o motivo?

Por suas posições anti-imigração e pelos questionamentos, por parte de alguns dos seus dirigentes, sobre a forma em que a Alemanha enfrenta o legado das duas guerras mundiais, a AfD vem sendo indicada pelos serviços secretos alemães como um partido de "extrema direita" e "uma ameaça para a democracia".

Mas a formação continua em forte crescimento nos territórios da antiga República Democrática Alemã (RDA, 1949-1990), um Estado comunista que era declaradamente antifascista.

A AfD pediu que se deixasse de falar das duas guerras mundiais e do Holocausto, dando prioridade a aspectos positivos da história do país
A AfD pediu que se deixasse de falar das duas guerras mundiais e do Holocausto, dando prioridade a aspectos positivos da história do país
Foto: Sean Gallup/Getty Images / BBC News Brasil

A conta da reunificação

Um dos fatores indicados com mais frequência para explicar o auge da extrema direita na Alemanha é o custo social e econômico da reunificação do país.

"Muitos alemães do leste se percebem como 'cidadãos de segunda classe'", afirmou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, o politólogo Manès Weisskircher, a Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha.

Em termos similares se expressou o politólogo alemão Rolf Frankenberger. Para ele, "a reunificação da Alemanha produziu vencedores e perdedores e, segundo muitos alemães orientais, eles foram os perdedores".

"A reunificação gerou desigualdades, chegando a se assemelhar a uma forma de exploração", prossegue Frankenberger. Ele é diretor de Pesquisa do Instituto de Estudo do Extremismo de Direita da Universidade da Turíngia, na Alemanha.

"Muitas das conquistas atingidas na RDA, em setores como a igualdade de gênero, o cuidado com as crianças e a educação, foram ignoradas. Isso também alimentou uma espécie de ceticismo em relação ao Estado."

Os dados oficiais respaldam estas opiniões.

As condições socioeconômicas no leste da Alemanha melhoraram significativamente desde a reunificação. Mas, atualmente, um trabalhador de qualquer um dos cinco Estados do leste ganha, em média, 17% a menos que seus pares ocidentais, segundo os últimos dados do Escritório Federal de Estatísticas.

Esta diferença salarial é uma das principais razões por que a população do território que antes pertencia à RDA, exceto pela antiga Berlim Oriental, caiu em 16% nos últimos 35 anos.

O Estado da Saxônia-Anhalt é o que registrou a maior redução populacional: foram 26%, segundo as estatísticas oficiais.

Mas a busca de melhores salários não é a única causa do êxodo e da fuga de talentos em direção ao oeste do país. A falta de oportunidades de trabalho também ocupa papel importante.

Das 12.354 empresas públicas que operavam na extinta Alemanha Oriental, mais de um terço (cerca de 3,7 mil) foram fechadas e as restantes foram privatizadas, segundo dados da Treuhandanstalt, a agência encarregada de gerenciar o enorme aparato empresarial herdado da era comunista do leste do país.

Estas medidas geraram forte aumento do desemprego, que chegou a 25% e, hoje, se encontra abaixo de 10%.

De um totalitarismo para outro

Outro motivo, segundo alguns especialistas, é a suposta inclinação dos alemães orientais a tendências autoritárias.

"Existe um anseio tradicional por soluções provenientes do Estado e da autoridade", afirmou, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung o professor Magnus Brechtken, subdiretor do Instituto de História Contemporânea de Munique, na Alemanha.

Ele justifica sua postura com base nas quatro décadas de comunismo, além do histórico anterior do nazismo.

Diferentemente da Alemanha Ocidental, o processo de "desnazificação" na antiga RDA (que incluiu julgamentos, investigações e programas de reeducação para a população) foi muito mais curto.

"É preciso recordar que a Saxônia-Anhalt e o que hoje é Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental foram bastiões nazistas na década de 1930", declarou à BBC Claire Burchett, do Departamento de Estudos Europeus do King's College de Londres.

Por outro lado, o politólogo Benjamin Höhne, professor da Universidade de Chemnitz, na Alemanha, ofereceu outros argumentos.

"A RDA era um Estado secularizado", segundo ele. "Embora continuassem existindo, as duas fés religiosas [católica e luterana-protestante] foram reduzidas de tal forma que o entorno eclesiástico praticamente desapareceu."

"Também não havia sindicatos. Existia apenas um e, por isso, os sindicatos são mais fracos no leste até hoje."

"Isso também acontece com as organizações da sociedade civil e as ONGs, pois a RDA também não tinha nada deste tipo", declarou ele, em podcast.

"O que aconteceu depois de 1990? As pessoas tentaram conseguir ou conservar um emprego. Para muitas pessoas, participar de alguma forma da sociedade não era prioridade e, neste contexto, os atores de extrema direita já estavam ali."

Isso explicaria por que, assim que a RDA deixou de existir, surgiram grupos e forças políticas situadas nos extremos ideológicos opostos ao regime comunista.

Em 2004, o Partido Nacional Democrata da Alemanha (NPD, na sigla em alemão) recebeu 9,2% dos votos e ingressou pela primeira vez no Parlamento regional da Saxônia.

O partido mudou de nome em seguida para Die Heimat ("A Pátria"). Mas, em 2023, a justiça o excluiu do financiamento público, por considerar que seguia objetivos contrários à ordem democrática.

E, quase uma década antes, surgiu o movimento antimigratório Pegida, que acabou sendo absorvido, em grande parte, pela AfD.

Tendência global

Mas nem todos os especialistas consideram que o auge da extrema direita nos territórios da antiga República Democrática Alemã seja uma consequência direta do seu passado.

"A história da Alemanha Oriental certamente é convulsa, mas é preciso não exagerar sua importância para compreender o sucesso eleitoral da AfD", afirmou Weisskircher.

"Em comparação com o restante da Europa, o sucesso da extrema direita no leste da Alemanha não é uma exceção", segundo ele.

"Em países como a Áustria, Itália e Hungria, por exemplo, os partidos de extrema direita obtêm, em nível nacional, tanto apoio quanto a AfD, apenas na Alemanha oriental."

Por fim, Weisskircher atribuiu o auge da extrema direita a dois motivos: a imigração e a situação econômica.

"A principal preocupação dos eleitores de extrema direita é a sua rejeição à imigração", explica ele.

"Além disso, a situação econômica da Alemanha é complexa, pois o país carece de crescimento econômico e setores fundamentais, como a indústria automotiva, estão em crise."

O que chama a atenção é que este fenômeno ocorre exatamente no leste da Alemanha, onde residem menos imigrantes.

Excluindo Berlim, a população estrangeira nos cinco Estados orientais não chega a um milhão de pessoas. Ela representa cerca de 8% do total.

Já nos Estados ocidentais, o percentual atinge 16%, segundo dados do Escritório Federal de Estatísticas, correspondentes a 2024.

Estudos realizados na Alemanha indicam que existe relação inversa entre a exposição à imigração e sua rejeição. Ou seja, quanto menor é o contato com a população imigrante, maiores costumam ser o temor e a intolerância.

Por outro lado, Burchett considerou que o sucesso da AfD reside na sua forma de fazer política.

"O partido está incentivando um sentido de comunidade com eventos como churrascos", destaca ela.

"Isso é relevante em uma região marcada pelo maior desemprego, isolamento rural, emigração juvenil (que deixa para trás uma população envelhecida) e níveis educacionais mais baixos."

O outro extremo

Mas não só a extrema direita cresceu no leste da Alemanha.

A organização pós-comunista Die Linke ("A Esquerda") também ocupou as manchetes no domingo passado (20/9), ao ser a mais votada na capital alemã. Berlim está localizada no que antes era território da Alemanha Oriental.

"Die Linke e a AfD são alternativas atraentes, em parte, porque nenhuma das duas ostentou o poder em passado suficientemente recente para decepcionar os eleitores, como fez o restante do espectro político", explica Claire Burchett.

"Tanto Die Linke como a AfD sabem utilizar com destreza as redes sociais, em um mundo em que a maioria das pessoas obtém suas informações políticas através delas."

"Elas contam com candidatos carismáticos e próximos, visíveis e reconhecidos nas ruas", destaca a pesquisadora britânica.

A possibilidade de que a AfD acabe assumindo o governo de algum Estado da federação alemã preocupa muitas pessoas, não apenas pelas suas posturas sobre imigração e o passado da Alemanha, mas também porque o partido defende pôr fim ao apoio à Ucrânia e restabelecer relações com a Rússia.

Caso a AfD chegue ao poder em algum dos Estados alemães, o partido teria acesso a informações de inteligência confidenciais. Mas, apesar deste panorama, Burchett acredita que o desenlace ainda está por ser definido.

"Estes triunfos não são inevitáveis. Cabe, agora, aos partidos de centro, ou outras alternativas confiáveis, recuperar os eleitores."

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