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A fome e o desespero dos moradores de Oleshky, na Ucrânia ocupada

22 set 2026 - 14h11
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Resumo
Cerca de 6 mil civis enfrentam fome extrema e isolamento em Oleshky, cidade ucraniana ocupada pela Rússia na região de Kherson. Sem entregas de alimentos há meses, a população sobrevive à escassez severa, sem energia, gás ou atendimento médico adequado. As rotas de fuga estão bloqueadas por minas terrestres e ataques de drones. Enquanto o inverno se aproxima, a Ucrânia tenta negociar um corredor humanitário para retirar os moradores, mas a Rússia recusa autorizar a operação de resgate.

Cidade na parte ocupada da região de Kherson está sem abastecimento de alimentos há mais de três meses. Kiev tenta, sem sucesso, negociar com Moscou a retirada da população.Um homem envia uma foto do seu "borche de Oleshky", como ele chama a sopa que preparou com restos de legumes: cinco batatas, uma beterraba, um tomate, uma cebola, uma abobrinha e aspargos. Para deixá-la mais nutritiva, acrescentou também painço e dois ovos.

"Hoje temos uma iguaria no borche: minha mãe trocou 2,5 quilos de açúcar por dez ovos. Não tem repolho branco, mas tem aspargos", escreveu o morador de Oleshky, cidade ocupada pela Rússia no sul da Ucrânia.

A mensagem foi enviada a Tetjana Hasanenko, chefe da administração militar ucraniana de Oleshky, cuja sede fica em território controlado por Kiev. "Recebo relatos como esse todos os dias. As pessoas querem que lhes demos algum tipo de esperança, mas não há esperança", diz a funcionária.

Segundo ela, a última entrega de alimentos na cidade ocorreu no fim de maio. "A situação é crítica. Não é passar fome: é fome coletiva", alerta.

Oleshky fica na região de Kherson, na margem esquerda do rio Dnipro. A cidade está ocupada desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Em junho de 2023, foi quase totalmente inundada após a destruição da usina hidrelétrica e o rompimento da barragem de Kakhovka.

"A situação em Oleshky se agravou em dezembro de 2025, quando começou a nevar, e as minas espalhadas pelas ruas deixaram de ser visíveis. Havia explosões constantes, e os estoques de alimentos estavam acabando. As pessoas escavavam seus porões, que haviam sido tomados pela lama da enchente, para retirar conservas guardadas. Mas agora tudo se esgotou", relata Hasanenko.

Segundo ela, cerca de 6 mil pessoas ainda permanecem no município de Oleshky, que inclui 13 localidades, entre elas 180 crianças. Desde a primavera, a Ucrânia negocia com a Rússia a retirada desses moradores. Porém, de acordo com o comissário de direitos humanos do Parlamento ucraniano, Dmytro Lubinez, Moscou ainda não concordou em participar de uma operação humanitária.

Enquanto isso, a população sofre com a fome e se prepara para um inverno rigoroso. Em Oleshky já não há eletricidade nem gás há muito tempo. A água precisa ser retirada de poços.

Falta de alimentos

"Para ser sincera, ainda não comi nada hoje", diz Halyna (nome alterado por razões de segurança), moradora de Oleshky, por telefone à DW, ao meio-dia.

"A melhor coisa que tenho para comer é um pão achatado feito de água e farinha, pois ainda tenho um pouco disso. Passo um purê de maçã por cima e tomo um chá sem açúcar. É só isso", acrescenta. Ela tenta se lembrar da última vez que comeu carne. "Provavelmente no Ano Novo", diz.

Halyna vive numa casa abandonada para a qual se mudou depois que seu apartamento foi destruído por bombardeios. "Mudei para uma casa intacta, mas um mês depois um projétil atingiu o local, diretamente no telhado. Hoje choveu, por isso o chão está molhado, e lá fora faz 14 graus", conta.

Segundo ela, os moradores só saem às ruas entre 7h e 9h. Eles se reúnem na praça do mercado para trocar notícias e vender ou trocar alimentos provenientes de estoques ou hortas. "Hoje havia algumas abobrinhas sendo vendidas por mil rublos o quilo (cerca de R$ 60)", relata. Ela acrescenta que alguém ofereceu um grande saco de farinha por 200 mil rublos. Halyna diz que o vendedor provavelmente pretende deixar Oleshky.

Halyna não tem uma horta, por isso os vizinhos compartilham parte da colheita com ela. "Além disso, peguei alguns potes de conserva nos porões dos vizinhos", diz. Ovos de galinha são uma raridade, pois não há como alimentar as aves. "Vinte quilos de grãos de trigo custam 21 mil rublos (quase R$ 1.200). Por isso, as pessoas abateram até pintos na primavera. Também não há mais porcos. Em toda a cidade resta apenas uma vaca", afirma.

Riscos de quem tenta ir embora

Segundo Halyna, ainda no ano passado circulavam micro-ônibus até Oleshky que transportavam moradores, mediante pagamento, para Skadovsk, no sul da região ocupada de Kherson, e dali para a Crimeia ou para a Rússia. Esses veículos também levavam alimentos para a venda em Oleshky.

No entanto, após serem atacados por drones, passaram a utilizar duas ambulâncias para a tarefa. "Mas há um mês e meio nenhuma delas circula mais porque uma das viagens foi fatal para um dos motoristas", conta.

Halyna relata que agora os moradores obtêm alimentos na aldeia de Radensk, situada 20 quilômetros ao sul. Eles vão até lá a pé ou de bicicleta. Quem deseja ir embora precisa chegar à aldeia de Tarasivka, que fica outros 20 quilômetros adiante. De lá é possível seguir para Skadovsk de micro-ônibus ou pedindo carona. Porém, o trajeto está densamente minado. "Você sai de casa e pode morrer no caminho", alerta Halyna, acrescentando que duas mulheres morreram dessa forma enquanto tentavam conseguir alimentos.

De acordo com ela, há muitas pessoas em Oleshky feridas por minas e explosivos, mas elas não podem contar com assistência médica adequada. "Se alguém perde uma perna, está condenado à morte. Há um cirurgião no hospital, mas não há anestesista nem medicamentos", diz.

As condições dos pacientes internados também pioram continuamente. "No inverno, ainda recebíamos um pouco de sopa e duas roscas no lugar do pão. Agora são apenas uma colher e meia de mingau de sêmola feito com água e chá, já muito frio, porque não há como aquecê-lo", relata.

"Nossa lenha já acabou"

A retirada dos moradores de Oleshky não é difícil apenas por causa das minas. Muitos não possuem passaporte russo nem ucraniano. Segundo Halyna, muitos documentos foram perdidos na inundação ou em incêndios. Além disso, falta dinheiro em espécie. Embora continuem recebendo benefícios sociais, não conseguem sacar os valores de suas contas. Em Oleshky também não há representantes da administração da ocupação russa, e é impossível entrar em contato com eles.

Halyna destaca que os moradores não têm como se preparar para o inverno. "Nossa lenha já acabou", lamenta, explicando que não há venda de gás nem de combustível para geradores.

"Não sei o que vamos fazer. Eu posso sair andando, filhos podem tirar seus pais daqui num carrinho de mão. Mas o que podem fazer as pessoas sozinhas, com mobilidade reduzida?" Segundo ela, os idosos são a maioria dos habitantes de Oleshky.

"Só existe uma saída [para essa situação]: criar um corredor humanitário e retirar as pessoas. As autoridades de ocupação precisam transferi-las para áreas mais afastadas [do front] do território temporariamente ocupado", defende Tetjana Hasanenko, da administração militar ucraniana.

Falta de disposição de Moscou

As negociações sobre uma retirada dos moradores de Oleshky estão em andamento desde o primeiro semestre do ano. Na época, funcionários da prefeitura elaboraram, por iniciativa do comissário de direitos humanos do Parlamento ucraniano, Dmytro Lubinez, uma lista de moradores que desejavam deixar a cidade.

Lubinez diz que 358 pessoas precisam ser retiradas urgentemente. "Esses são apenas os casos dos quais tivemos conhecimento", ressalta, lembrando que ainda restam 6 mil habitantes em Oleshky. "Essas pessoas precisam ser salvas, porque a cidade se tornou uma armadilha mortal", afirma.

Segundo ele, havia acordos preliminares entre Kiev e Moscou. As Forças Armadas ucranianas garantiriam um cessar-fogo, e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha participaria da retirada. No entanto, a Rússia "já há algum tempo não voltou a confirmar sua disposição" de realizar a operação, lamenta Lubinez.

Enquanto isso, os moradores de Oleshky estão desesperados, afirma Hasanenko. "Eles esperavam que a retirada fosse começar a qualquer momento. Mas e agora? Eu simplesmente não posso lhes dar nenhuma esperança", diz.

"Desde a primavera nada mudou", conclui Halyna. "Só ficou pior: o inverno está chegando e não há nada para comer. Na verdade, não deveríamos mais estar aqui. Eu sei disso. Mas estamos aqui, e essa é a realidade."

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