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Por que o Japão tem tão poucas lixeiras e, ainda assim, mantém suas ruas limpas

A escassez de lixeiras no Japão deve-se a uma combinação de fatores que vão desde um atentado mortal em 1995 até normas de convivência profundamente enraizadas

27 set 2026 - 13h58
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Resumo
A escassez de lixeiras nas ruas do Japão começou após o atentado terrorista com gás sarin em 1995, sendo mantida por segurança e para cortar custos públicos. Mesmo sem lixeiras, as cidades permanecem limpas graças a décadas de políticas de conscientização, planejamento urbano e normas sociais consolidadas, como o hábito de levar os resíduos para casa e o princípio coletivo de não incomodar o próximo, desafiando os turistas a adaptarem seus costumes enquanto novas tecnologias surgem.
Apesar de suas ruas movimentadas, Tóquio é famosa pela limpeza.
Apesar de suas ruas movimentadas, Tóquio é famosa pela limpeza.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Se você passar um dia andando por Tóquio, é possível que acabe carregando um copo de café vazio, a embalagem de um sanduíche de ovo da 7-Eleven e uma crescente sensação de perplexidade. O Japão é famoso pela limpeza, mas por que é tão difícil encontrar onde jogar o lixo?

É uma frustração que já rendeu inúmeros vídeos nas redes sociais de turistas perplexos percorrendo as ruas impecáveis em busca de uma lixeira.

No entanto, a resposta é mais complexa do que pode parecer à primeira vista.

"É uma mistura complexa de acontecimentos históricos... fenômenos econômicos, eventos políticos e seus diversos efeitos sobre como as pessoas decidem agir", afirma Eiko Maruko Siniawer, professora de história no Williams College e autora de Waste: Consuming Postwar Japan ("Resíduos: o consumo no Japão do pós-guerra", em tradução livre).

O Japão nem sempre foi um país sem lixeiras. Siniawer aponta março de 1995 como um ponto de virada fundamental na cultura das lixeiras no país: foi quando membros da seita Aum Shinrikyō liberaram gás sarin em três linhas do metrô da capital japonesa durante o horário de pico da manhã, matando 14 pessoas e deixando milhares de feridos.

Após o ataque, as autoridades fecharam ou retiraram as lixeiras como medida de prevenção.

Os ataques terroristas posteriores em todo o mundo, incluindo os de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, contribuíram para que essas medidas fossem mantidas.

Ainda assim, três décadas depois, a segurança por si só não explica por que tão poucas lixeiras voltaram, nem por que o Japão continua notavelmente livre de lixo.

Os japoneses costumam levar o lixo para casa e até recolhem o que encontram no chão.
Os japoneses costumam levar o lixo para casa e até recolhem o que encontram no chão.
Foto: Takashi Aoyama/Getty Images / BBC News Brasil

Além do terrorismo

O custo e a praticidade são parte da resposta.

Desde os anos 2000, alguns municípios reduziram deliberadamente as lixeiras nas vias públicas — explica Aya Yoshida, do Instituto Nacional de Estudos Ambientais do Japão — para incentivar as pessoas a levar o lixo para casa.

"Em Kyoto, por exemplo, o número de lixeiras nas ruas foi reduzido a menos da metade (…) a partir de 2011, depois que problemas como o descarte de lixo doméstico nelas e o acúmulo de resíduos ao redor aumentaram os custos de manutenção e gestão", acrescenta Yoshida.

Então, por que não há mais lixo nas ruas? Yoshida adverte que não se deve atribuir a limpeza do Japão a um senso de ordem exclusivamente japonês.

As ruas limpas também são resultado de anos de políticas deliberadas, ressalta ela.

"Durante décadas, os municípios investiram em campanhas contra o descarte irregular de lixo, educação pública, limpeza das ruas e medidas de design ambiental destinadas a desestimular as pessoas a jogar lixo no chão", afirma.

Mas as normas sociais também influenciam, observa ela.

Uma delas é o meiwaku o kakenai: a ideia de evitar causar incômodo aos outros.

Os hábitos cotidianos também têm um papel importante: comer em movimento é relativamente incomum, então as pessoas tendem a gerar menos lixo quando estão fora de casa.

Lixeiras robotizadas estão sendo testadas em uma estação de Tóquio.
Lixeiras robotizadas estão sendo testadas em uma estação de Tóquio.
Foto: Toshifumi KITAMURA / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Os visitantes

Os visitantes, é claro, vivenciam a cidade de outra forma.

Eles passam longas jornadas fazendo turismo, comprando bebidas e lanches em lojas de conveniência, e é muito mais provável que acabem carregando lixo sem um lugar óbvio para descartá-lo.

E a escassez de lixeiras acessíveis pode ser confusa e frustrante para os turistas no início, explica Junko Yokoo, guia turística que mora no Japão.

Mas muitos se adaptam rapidamente.

"No começo, meus clientes costumam lamentar a falta de lixeiras, mas também gostam de ver que não há lixo nas ruas e aprendem a adotar a mentalidade de 'em Roma, faça como os romanos' — ou, neste caso, 'em Tóquio'", comenta.

Apesar do que os visitantes possam pensar, as lixeiras não desapareceram completamente: é preciso apenas saber onde encontrá-las, acrescenta Siniawer.

"As estações de trem ainda têm lixeiras, muitas vezes na forma de recipientes transparentes perto das catracas, onde podem ser monitoradas por funcionários ou por câmeras de segurança", diz.

E justamente neste mês, a estação de Shinjuku, em Tóquio, lançou um projeto-piloto com o que talvez seja a solução mais japonesa de todas: robôs-lixeira móveis que percorrem as instalações recolhendo resíduos.

Até que iniciativas como essa se popularizem, é possível que os visitantes tenham que fazer o que os moradores de Tóquio fazem há anos: guardar o lixo até encontrar um lugar para descartá-lo.

*Este artigo foi publicado originalmente na BBC Travel. Clique aqui para ler a versão original em inglês.

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