Pattaya, a 'cidade do pecado' onde 5 mil militares americanos desembarcaram após oito meses em alto mar
Após 250 dias no mar, o USS Abraham Lincoln atracou perto de Pattaya, cidade conhecida por sua agitada vida noturna e turismo sexual.
Após 250 dias no mar, cerca de 5 mil militares do porta-aviões americano USS Abraham Lincoln desembarcaram em Pattaya, na Tailândia, para descanso. A chegada reacende a ligação histórica da cidade com as tropas dos EUA desde a Guerra do Vietnã e anima o comércio local. Famosa pela vida noturna e pelo turismo sexual, a cidade impôs restrições aos marinheiros, como a proibição de frequentar áreas de prostituição e lojas de cannabis, com reforço no policiamento para evitar escândalos.
Após um período recorde de 250 dias no mar sem parada em um porto, o porta-aviões nuclear americano USS Abraham Lincoln atracou na Tailândia nesta quarta-feira (02/09).
A parada perto da cidade tailandesa de Pattaya proporciona aos quase 5 mil fuzileiros navais dos EUA um descanso muito esperado.
Pattaya é famosa por sua vibrante vida noturna e pelo turismo sexual, o que lhe rendeu o apelido de "Cidade do Pecado".
Esse rótulo, frequentemente usado pela mídia, é rejeitado pelas autoridades tailandesas.
Para os militares dos EUA, Pattaya evoca fortes memórias históricas.
Quando os marinheiros cansados entrarem nos bares e restaurantes da cidade, estarão seguindo os passos das centenas de milhares de soldados americanos que foram para lá em busca de descanso e lazer durante a Guerra do Vietnã.
Sua presença transformou o local, que passou de uma tranquila vila de pescadores a uma das cidades mais famosas e frenéticas do mundo para festas.
A chegada dos militares
Hoje, os becos iluminados com néon que levam à praia estão muito mais tranquilos do que o normal.
Os bares da famosa rua de pedestres da cidade — a Walking Street — ainda projetam vídeos de mulheres dançando, numa tentativa de atrair visitantes.
No entanto, não há muitos clientes. Os visitantes parecem ser na maioria famílias do Oriente Médio, mais interessadas no vendedor de sorvete turco do que nas casas noturnas.
A guerra dos EUA com o Irã afetou o turismo e o consumo, prejudicando duramente os negócios locais.
Agora, a perspectiva de receber milhares de fuzileiros navais americanos, que economizaram seus salários no mar durante quase nove meses, é uma oportunidade excepcional para os negócios da região.
O porta-aviões americano partiu de San Diego em novembro passado para uma missão que inicialmente estava planejada para durar seis meses no Pacífico e no Mar da China Meridional.
No entanto, o navio foi desviado para o Golfo Pérsico depois que os Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã no final de fevereiro.
Recentemente, membros do Congresso dos EUA expressaram preocupação com relatos de escassez de alimentos a bordo do navio, banheiros com defeito e estresse psicológico entre a tripulação.
A Marinha dos EUA reconheceu que as condições de trabalho têm sido difíceis, mas garantiu que a tripulação recebe apoio adequado.
No entanto, recusou-se a comentar à BBC sobre a parada do porta-aviões em Pattaya, alegando razões de segurança operacional.
'Que gastem o dinheiro aqui'
Apesar de sua estreita relação com a China, a Tailândia é aliada dos EUA por meio de tratados bilaterais. Visitas de navios da Marinha americana aos seus portos são comuns.
No entanto, este é provavelmente o maior contingente militar americano a chegar diretamente de uma zona de guerra a Pattaya desde a queda de Saigon em 1975.
"Esta visita pode ser nossa maior esperança", comemora Anon Saiteer, um vendedor de joias em uma loja perto da Walking Street.
O estabelecimento colocou uma grande placa dando as boas-vindas aos fuzileiros navais americanos e oferecendo-lhes um desconto especial.
"Não temos nada a perder; só esperamos que eles gastem algum dinheiro aqui", diz o vendedor.
No entanto, as autoridades americanas e tailandesas estão tentando garantir que isso aconteça sem gerar as manchetes sensacionalistas pelas quais Pattaya ficou conhecida.
As restrições
As autoridades tailandesas determinou que a presença de militares americanos é proibida em alguns lugares.
Uma delas é a Soi 6, uma rua que leva à praia principal e é conhecida pela concentração de bares de strip-tease.
Embora a polícia tailandesa tenha lembrado aos visitantes americanos que a prostituição é tecnicamente ilegal na Tailândia, estima-se que existam entre 25 mil e 50 mil profissionais do sexo na cidade.
Muitas delas trabalham na Soi 6, onde se exibem em frente aos bares, convidando homens a entrar.
As numerosas lojas de cannabis de Pattaya também são proibidas para os militares americanos, assim como alguns esportes aquáticos, como parasailing e jet ski.
"É uma decisão deles", declarou o prefeito Poramase Ngampiches à BBC.
"Os militares americanos fizeram a sua lição de casa", acrescentou, ironicamente.
O adido naval americano Kristopher Robinson esquivou-se das perguntas da BBC sobre as atividades proibidas para os militares.
Em vez disso, afirmou que as tropas americanas "se comportarão de acordo com a lei americana, os regulamentos da Marinha dos EUA e a lei tailandesa".
"Tentamos proporcionar aos marinheiros o máximo de oportunidades de descanso possível", disse Robinson.
A Marinha dos EUA organizou um serviço de ônibus entre o porto e Pattaya das 5h às 2h da manhã, durante toda a estadia do porta-aviões na Tailândia. Dois hotéis também foram disponibilizados para os tripulantes americanos que desejarem pernoitar em terra.
As autoridades tailandesas mobilizaram centenas de policiais para monitorar as áreas de entretenimento da cidade e alertaram os comerciantes locais para que não cobrem preços abusivos dos turistas americanos.
"As visitas de militares americanos há 50 ou 60 anos colocaram Pattaya no mapa mundial e a transformaram em uma atração turística", diz o prefeito Poramase.
"Sejamos honestos: a cidade é conhecida pelas garotas de programa. Entendemos os estigmas. Não podemos evitá-los", reconhece.
"O que podemos fazer é mostrar que Pattaya mudou e que agora oferece outras opções, como esportes, seminários, programas de bem-estar e atividades para toda a família. É uma mistura de tudo."
Ambos os países esperam que, quando o USS Abraham Lincoln iniciar sua longa viagem de volta para casa pelo Pacífico em 6 de setembro, sua tripulação esteja revigorada e descansada.
Da pesca ao turismo sexual
Localizada a cerca de 100 quilômetros de Bangkok, Pattaya era uma pequena vila de pescadores em meados do século 20.
Os primeiros militares americanos chegaram em 1959, quando fuzileiros navais estacionados nas proximidades começaram a usar suas praias para descanso, de acordo com registros municipais citados em um estudo de 2024 das Universidades de Thammasat e Chulalongkorn.
No entanto, foi durante a Guerra do Vietnã que a transformação radical de Pattaya começou.
A cidade se tornou um ponto parada para os militares enviados para o Vietnã, relativamente próximo à Tailândia, embora os países não compartilhem uma fronteira terrestre.
A cidade ficava próxima à Base Naval de Sattahip e ao Aeródromo de U-Tapao, que abrigava bombardeiros B-52 da Força Aérea dos EUA.
Em 1966 e 1967, as tropas americanas representaram entre 11% e 16% de todos os visitantes da Tailândia.
Essa demanda impulsionou a abertura de hotéis, bares, casas noturnas e casas de massagem.
Uma lei de 1966 permitiu que estabelecimentos de entretenimento empregassem mulheres que oferecessem "serviços especiais". Isso criou uma zona cinzenta legal, embora a prostituição no país seja proibida desde 1960.
Quando as tropas americanas se retiraram em 1976, após o fim da Guerra do Vietnã, a infraestrutura permaneceu e facilitou a transição para o turismo civil em massa.
Enquanto isso, a Tailândia consolidava sua posição como destino turístico. O país teve um aumento expressivo no número de turistas nacionais e internacionais, passando de 200 mil em 1960 para 5 milhões em 1980.
Uma crise agrícola também impulsionou a migração de mulheres jovens das áreas rurais para as cidades, de acordo com o estudo da London School of Economics.
Na década de 1990, os distritos próximos às antigas bases militares americanas tinham cinco vezes mais profissionais do sexo do que aqueles próximos a bases não utilizadas pelos EUA.
Com o passar das décadas e o fim da Guerra Fria, a clientela de militares americanos foi amplamente substituída por viajantes europeus e, mais recentemente, por turistas russos e chineses.
Atualmente, segundo a agência Reuters, a indústria do sexo permanece abertamente visível na cidade, apesar de sua ilegalidade e das frequentes batidas policiais.
Enquanto isso, as autoridades locais tentam ampliar a imagem turística da cidade com ofertas de esportes, atividades familiares e bem-estar.
*Com informações de Jonathan Head, correspondente da BBC no Sudeste Asiático.
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