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Oriente Médio

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Traumatizados, sírios tentam transformar campo de refugiados em lar

Medo, ansiedade, insegurança são sentimentos comuns em Za'atari, mas os 120 mil refugiados sírios que hoje vivem no deserto da Jordânia tentam estabelecer uma rotina longe dos horrores da guerra civil no seu país

6 nov 2013 - 11h36
(atualizado às 13h45)
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Sol nasce atrás do arame farpado instalado na cerca do segundo maior campo de refugiados do mundo
Sol nasce atrás do arame farpado instalado na cerca do segundo maior campo de refugiados do mundo
Foto: AP

“Eu teria vendido a mim mesma, mas Amara era a única virgem da nossa família. Nós tivemos que vendê-la para permitir que o restante de nós pudesse sobreviver”. Amani, uma síria de 22 anos recém-completados, teve de casar a irmã mais nova em troca de US$ 300 porque a jornada de 10 horas por dia em uma ONG em troca de um salário de US$ 3 não estava sendo suficiente para alimentar sua família. Seu marido e quatro dos cinco filhos do casal morreram quando a casa onde moravam, em Damasco, foi atacada por mísseis do regime. Hoje, Amani sustenta os pais – a mãe está doente e o pai é um idoso – e sua filha mais nova, ainda bebê.

Visão geral do campo de Za'atari, casa de 120 mil refugiados
Visão geral do campo de Za'atari, casa de 120 mil refugiados
Foto: AP

Amani e sua família vivem em Za’atari, na Jordânia, atualmente o segundo maior campo de refugiados do mundo, com quase 120 mil habitantes (atrás de Dadaab, no Quênia, que tem quase 400 mil pessoas). Sua história (que pode ser lida no site Syria Deeply, na íntegra, em inglês) faz parte de um mosaico de relatos que ajudam a entender o tamanho da crise humanitária causada pela guerra civil na Síria – já são mais de 2 milhões de refugiados. Há um ano, quando abriu, a poeirenta cidade de tendas montada a 12 km da fronteira síria tinha apenas 100 habitantes. Hoje, recebe 2 mil novos moradores por dia, segundo dados da Acnur de setembro. 

Todos chegam carregando alguma marca da guerra, principalmente traumas psicológicos. A adolescente Haneen, é um exemplo. Ela e seus quatro irmãos menores chegaram a Za’atari levados pelo Exército Livre da Síria depois que seus pais foram mortos. “Eles trouxeram o corpo da nossa mãe depois que ela foi atingida por tiros. Nós choramos em cima dela”, disse a menina, ao lado de seus irmãos, à reportagem da revista americana Vice. “Meu pai morreu porque ele inalou o gás de uma bomba, no começo da revolução”, continuou. No campo de refugiados, eles foram adotados por um casal que ficou tocado com a situação dos cinco.

Cinquenta e quatro por centro dos habitantes de Za’atari são mulheres – a metade disso formada por meninas com não mais do que 17 anos. Um prato cheio para homens que buscam esposas muito jovens. Amani disse ter visto jordanianos, egípcios e sauditas passando nas tendas à procura de meninas virgens. Ela não queria vender Amara, mas foi o único jeito de dar uma oportunidade para sua irmã sair do campo e ter a chance de viver uma vida melhor. 

Menina brinca do lado de fora da tenda da sua família
Menina brinca do lado de fora da tenda da sua família
Foto: AP
Crianças brincam e jogam futebol durante enquanto o sol se põe no deserto da Jordânia
Crianças brincam e jogam futebol durante enquanto o sol se põe no deserto da Jordânia
Foto: AP

Mais uma prisão do que um lar

Sem expectativas de voltar à Síria tão cedo, os refugiados veem Za’atari mais como uma prisão do que como um lar temporário. A explosão demográfica dificultou o desenvolvimento de uma estrutura à altura. A parte mais antiga do campo possui melhores condições, como iluminação nas ruas. Os moradores também são mais unidos, às vezes reunidos em comunidades ou clãs. 

Nas partes mais novas, a situação muda. As tendas são mais espaçadas, as pessoas não se conhecem e a escuridão noturna faz de uma caminhada até o sanitário uma experiência de “palpitar o coração”, segundo artigo assinado por Rania Abouzeid na revista New Yorker. Há relatos de prostituição e violência de gênero. Não há polícia nem leis, e o turno de trabalho dos funcionários que prestam assistência termina às 16h.

O mais perto que há de seguranças são soldados jordanianos nos portões de entrada. Mas eles mal servem para guardar o portão do campo. O atual sistema de segurança é um acordo entre as organizações não governamentais e os chamados “líderes das ruas”, pessoas escolhidas entre os refugiados para fazer o papel de guardas. Todos são homens, e muitos são desprezados ou temidos por outros refugiados. Eles aproveitam suas posições para tirar benefícios próprios, como obter mais mantimentos do que a quantidade distribuída, empregar amigos e parentes e usar de violência para extorquir dinheiro ou demarcar território.

Uma verdadeira cidade

Apesar de todos os problemas, Kilian Kleinschmidt, responsável da agência de refugiados da ONU, a Acnur, quer transformar Za’atari em uma cidade de verdade. “Nós estamos montando uma cidade temporária, para durar o tempo que pessoas estiverem aqui”, disse o alemão de 51 anos à reportagem da agência Associated Press. Veterano em zonas de conflito (antes da Jordânia, ele já esteve na Somália e no Paquistão), Kleinschmidt quer implantar conselhos, pavimentar as ruas, construir parques, estabelecer rede elétrica e encanamento de esgoto. 

Za'atari em números Fonte: Acnur/AP
Moradores: aproximadamente 120 mil
Área: 530 hectares
Fundação: julho de 2012
Trailers: 18 mil
Barracas: 10 mil
Lojas: 2,5 mil
Escolas: 3
Estudantes: 16 mil
Custo de operação diário: US$ 500 mil
Conta de luz mensal: US$ 500 mil
Pães distribuídos por dia: 500 mil
Caminhões pipa por dia: 350
Hospitais: 3
Número de nascimentos/mês: mais de 200
Mortes desde abertura do campo: cerca de 200

Enquanto os planos de Kleinschmidt não saem do papel, a rotina é dura para os moradores de Za’atari. Além da segurança, a explosão de uma economia informal formada pelo comércio de mantimentos e alimentada pelo dinheiro enviado aos refugiados por pessoas fora do campo é um desafio diário para quem vive em Za’atari. Um sistema onde vencem os mais fortes.

O pão é de graça (são 500 mil pitas distribuídos diariamente em cinco locais), assim como o arroz, trigo e lentilha. Cada pessoa também recebe 6 dinares (cerca de US$ 8) em vale-alimentação a cada duas semanas. Com os cupons eles compram ovos, leite, frango e outros mantimentos em mercados aptos a receber os tickets. Cafés, salões de beleza, lojas de roupas e outros estabelecimentos comerciais ajudam a fazer girar a economia em Za’atari.

Refugiado sírio esperar para receber pão em um dos centros de distribuição de comida do campo
Refugiado sírio esperar para receber pão em um dos centros de distribuição de comida do campo
Foto: AP

Há também compra e venda de eletricidade, trailers, barracas e até pedaços de terra. Nenhum refugiado possui terrenos, mas isso não os impede de vendê-los. Especialmente nos lugares próximos às lojas localizadas nas ruas principais do campo de refugiados. Aqueles que deixam o campo vendem os seus trailers – às vezes equipados com ar condicionado – por até US$ 700.

“Dá pra dizer que nós estamos vivendo na selva. O mais forte come o mais fraco”, disse Ashraf Khalil, um comerciante que vende roupas masculinas em um trailer pré-fabricado transformado em loja. “Algumas pessoas têm condições de comprar isso (o trailer). É mais barato do que qualquer loja em Amã (capital jordaniana)”, ele disse enquanto zapeava pelos canais de TV e um ventilador – outro luxo em Za’atari – fazia circular o ar do deserto (leia, na íntegra, a reportagem do site Irin News, em inglês).

Em meio à fumaça. refugiados observam o fogo consumir uma barraca
Em meio à fumaça. refugiados observam o fogo consumir uma barraca
Foto: AP

Preparação para o inverno

Nas últimas semanas, a maior preocupação dos moradores e das agências humanitárias é o inverno (no hemisfério norte) que se aproxima. Encravado no meio do deserto, Za'atari enfrenta temperaturas escaldantes durante o verão. Mas no inverno, principalmente em janeiro, as os termômetros podem marcar abaixo de zero. No último dia 2, uma forte chuva varreu o campo, o primeiro sinal de que uma estação de clima severo está se aproximando.

Reportagens exclusivas
AFP

Acompanhe a cobertura exclusiva do Terra através do trabalho dos jornalistas Tariq Saleh e Mauricio Morales. Sediado no Líbano, país vizinho e sensível à crise síria, Saleh conversou com sírios, visitou refugiados e ouviu analistas para acompanhar o desenrolar de um conflito complexo e com desfecho ainda incerto. Enviado especial para o conflito, Morales passou dias com rebeldes para conhecer sua visão do conflito.

Dezenas de barracas ficaram danificadas, forçando famílias a procurar abrigo junto a vizinhos e parentes que possuem trailers. "A nossa tenda simplesmente caiu sobre nossas cabeças", disse um residente ao site Irin News. Não houve registro de feridos.

Para evitar o que aconteceu ano passado, quando moradores mais afetados pelo frio e pelo vento entraram em confronto em um dos centros de distribuição de comida, Kleinschmidt quer por fim à "era das tendas". Até o fim do ano, a Acnur quer trocar todas as barracas por um tipo de trailer doado por Estados do Golfo. "Estamos correndo contra o tempo", disse.

Cotidiano nas redes sociais

Além de fornecer comida e abrigo para os moradores de Za'atari, a Acnur vem tentando mostrar ao mundo um pouco do cotidiano do campo de refugiados. Recentemente o perfil no Instagram da agência da ONU (@unrefugees) começou a postar fotos e contar história de sírios que estão vivendo no deserto da Jordânia. No dia 24 foi criada uma conta no Twitter (@zaataricamp). Também administrado pela Acnur, o perfil também publica fotos e fornece dados sobre o dia a dia.

Abaixo, depois da imagem de boas vindas publicada no Instagram, confira algumas fotos de Za'atari publicadas no Twitter do campo.

Crianças refugiadas brincam em playgrounds depois da escola.

Primeira (e, até agora, única) carroça puxada por um burro do campo.

Bem-vindo à nossa própria "Champs-Élysées" - a principal avenida de Za'atari.

"Eu preciso viver, preciso trabalhar... Eu também tive que mudar o cheiro desse lugar".

Sírios caminham por uma das estradas internas de Za'atari.

Chinelos e sandálias à venda em Za'atari.

Loja vende vestidos de noiva na "Champs-Élysées".

O menino Faris e seus amigos brincam em um playground. Para sorte dele, é coberto.

Fonte: Terra
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