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ONU associa êxodo venezuelano à crise no Mediterrâneo

Agência para as migrações alerta que fuga em massa de cidadãos da Venezuela está se aproximando de um "momento de crise"

24 ago 2018
20h30
atualizado às 20h46
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A Organização Internacional para as Migrações (OIM) alertou nesta sexta-feira (24) que o grande êxodo de cidadãos da Venezuela para países vizinhos e outros destinos está se aproximando de um "momento de crise" semelhante à tensão no Mediterrâneo, com a crise de refugiados.

Segundo o porta-voz da OIM, Joel Millman, "o que é uma situação difícil pode se transformar rapidamente em uma crise". Ele elogiou, porém, o "trabalho magnífico" de alguns países latino-americanos em receber as pessoas que abandonam a Venezuela.

Imigrantes venezuelanos na cidade de Tumbes, no Peru, perto da fronteira com o Equador
Imigrantes venezuelanos na cidade de Tumbes, no Peru, perto da fronteira com o Equador
Foto: DW / Deutsche Welle

"Vemos os focos de violência no Brasil [contra venezuelanos na cidade fronteiriça de Pacaraima] e as medidas restritivas de alguns governos como um alerta antecipado de que temos que estar preparados [para uma crise]", disse o porta-voz.

Millman se referia às restrições à acolhida de venezuelanos anunciadas por Equador e Peru, exigindo passaportes aos refugiados como condição para permitir a entrada deles no país - mesmo sabendo que Caracas não tem hoje capacidade para emitir esse documento a seus cidadãos.

A medida entrou em vigor no Equador no último fim de semana, enquanto o Peru anunciou que adotará exigência semelhante a partir deste sábado.

"Ressaltamos que muitos imigrantes, particularmente adolescentes e menores de idade, não têm acesso a esses documentos [de identificação]", destacou o porta-voz.

Em comunicado emitido na quinta-feira, o chefe da agência da ONU para os refugiados (Acnur), Filippo Grandi, e o diretor-geral da OIM, William Lacy Swing, já tinham expressado preocupação com essas e outras medidas restritivas adotadas por governos latino-americanos.

"Reconhecemos os crescentes desafios associados à chegada em grande escala dos venezuelanos. Mas continua sendo crucial que qualquer nova medida permita que aqueles que precisam de proteção internacional tenham acesso a segurança e a pedidos de refúgio", dizia a nota.

As agências da ONU também expressaram solidariedade aos países sul-americanos e pediram para que eles continuem acolhendo refugiados venezuelanos que fogem da grave crise econômica, política e social que atinge o país.

Nesta sexta-feira, em entrevista coletiva, Millman reiterou que a comunidade internacional precisa "começar a alinhar prioridades, financiamento e meios para tramitar" a fuga de venezuelanos.

O porta-voz da Acnur, Andrej Mahecic, por sua vez, se disse preocupado com os recentes atos de violência e manifestações xenófobas contra os imigrantes em alguns países da região - como na cidade de Pacaraima, no norte de Roraima, onde moradores destruíram um acampamento de venezuelanos no fim de semana, obrigando mais de mil a voltarem ao país vizinho.

"[Esses atos] aumentam a estigmatização e põem em risco os esforços para sua integração", afirmou Mahecic. "A solidariedade é a chave. Até o momento foi exemplar."

O êxodo venezuelano

Segundo dados da OIM e da Acnur, 2,3 milhões de venezuelanos vivem atualmente fora de seu país, dos quais mais de 1,6 milhão deixaram a Venezuela a partir de 2015. Ao todo, 90% desses refugiados se dirigiram para países da América do Sul.

Aproximadamente 35 mil venezuelanos cruzam a fronteira diariamente. O fluxo maciço de imigrantes é sentido principalmente na direção sul, em países como Chile, Peru e Brasil, onde eles veem melhores oportunidades para encontrar um meio de vida.

Desde o início de 2017, cerca de 50 mil venezuelanos se estabeleceram em Roraima, segundo o governo estadual. Já o Peru é a segunda nação latino-americana mais procurada por pessoas dessa nacionalidade, depois da Colômbia, que já abriu suas portas a 1,5 milhão de venezuelanos.

Desde 2015, 500 mil venezuelanos receberam algum tipo de status de residência formal em países da América Latina, afirma a agência da ONU para as migrações.

"[Essa situação] está se aproximando de um momento de crise como o que temos visto em outras partes do mundo, particularmente no Mediterrâneo", declarou o porta-voz da OIM nesta sexta-feira.

Nos últimos anos, milhões de pessoas deixaram seus países no Oriente Médio e na África, em especial nações em conflito como a Síria e o Afeganistão, em direção à Europa e outros destinos. Segundo a Acnur, somente a Alemanha recebeu quase 1 milhão de refugiados em 2017.

Durante a fuga, milhares de migrantes se arriscam no mar Mediterrâneo, onde mais de 1,5 mil pessoas já morreram somente neste ano tentando atravessar as águas com destino a países europeus. A Acnur calcula que 60 mil refugiados cruzaram o Mediterrâneo nos primeiros sete meses de 2018 - metade do número registrado no mesmo período de 2017.

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Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

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