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O país sem megacartéis que movimenta US$ 100 bilhões em cocaína

Especialistas explicam as particularidades do mercado de drogas nos EUA, onde narcotraficantes de drogas vivem "invisíveis" e pulverizados para não levantar suspeitas.

1 ago 2020
16h04
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A DEA diz que os mexicanos estão presentes em toda a cadeia de distribuição de cocaína nos Estados Unidos, mas especialistas apontam que esse não é o caso
A DEA diz que os mexicanos estão presentes em toda a cadeia de distribuição de cocaína nos Estados Unidos, mas especialistas apontam que esse não é o caso
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

É muito difícil que exista um "El Chapo" Guzmán americano.

Não porque milhões de dólares não sejam movimentados e não haja traficantes de drogas naquele país — o maior usuário de cocaína do mundo —, mas pela maneira como o tráfico de drogas é organizado nos Estados Unidos. Não parece haver ali ninguém como o mexicano que ficou conhecido como um dos maiores narcotraficantes do mundo na história recente.

Essa é a avaliação de especialistas, e até a DEA (Drug Enforcement Administration, o órgão americano de controle de narcóticos) reconhece a presença de máfias locais.

Desde meados do século passado, sabe-se de chefões do tráfico nacionais nos Estados Unidos, mas a probabilidade de um deles simultaneamente produzir, mover, distribuir e comercializar substâncias ilícitas é muito baixa.

Não existem cartéis famosos, como os mexicanos ou os grupos armados que disputam territórios de cultivo de coca, como na Colômbia. No entanto, existem organizações dedicadas ao narcotráfico nos Estados Unidos que transportam narcóticos por todo o seu território.

Em termos gerais, contudo, ainda há ignorância sobre os protagonistas e a operação do tráfico no país.

Os Estados Unidos têm diferentes agências para apreensão de drogas e captura de traficantes
Os Estados Unidos têm diferentes agências para apreensão de drogas e captura de traficantes
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

1. Compradores no atacado

Os narcotraficantes e organizações que fazem parte do primeiro nível de tráfico nos Estados Unidos são aqueles que possuem uma certa capacidade de pagar por uma carga que acaba de chegar do México.

Através deles, cocaína e drogas sintéticas começam a viajar para os diferentes mercados existentes no vasto território americano.

"Essas organizações compram remessas de drogas a granel dos mexicanos, mas não é que os mexicanos não tenham capacidade de distribuição. Eles não estão interessados", explica Jesús Esquivel, autor do livro Los narcos gringos (Os narcotraficantes gringos, de 2016) à BBC News Mundo, serviço em língua espanhola da BBC.

O pesquisador argumenta que os cartéis latino-americanos sabem que são menos vulneráveis à captura ou ao confisco de cargas usando intermediários locais "que podem facilmente disseminar na sociedade americana sem atrair a atenção".

Esquivel ressalta que as organizações mexicanas não têm um "escritório em Miami", mas, sim, representantes.

Questionado sobre o motivo pelo qual as agências de segurança dos EUA frequentemente anunciam a prisão de cidadãos do México e de outros países por transportar substâncias controladas, o jornalista observou que há muito mais casos de americanos, mas eles não recebem atenção da mídia porque eles não estão ligados a atos violentos.

2. Adaptados ao ambiente

O pesquisador do narcotráfico Hernando Zuleta ressalta que uma das razões pelas quais as organizações americanas e seus líderes são pouco conhecidos é sua maneira de agir.

"No microtráfico, as gangues dos Estados Unidos e de diferentes países da América Central têm muita presença, mas não recebem a maior parte do bolo. Então todo mundo pergunta quem são os líderes gringos, porque deve haver", diz ele à BBC News Mundo.

Às vezes, as apreensões dos Estados Unidos custam aos traficantes dezenas de milhões de dólares.
Às vezes, as apreensões dos Estados Unidos custam aos traficantes dezenas de milhões de dólares.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O professor universitário explica que os "chefes de distribuição no interior dos Estados Unidos", até onde se sabe, têm um perfil muito diferente da imagem instalada do narcotraficante latino-americano, e que eles conseguiram exportar esse modelo.

Ele cita como exemplo que investigações recentes mostram uma nova onda de traficantes de drogas colombianos que "se misturam à classe média alta" de seu país.

"Esse fenômeno me parece plausível e acho que é uma estratégia não estar no radar, como é o caso nos Estados Unidos", conclui.

A esse respeito, Jesús Esquivel indica que "não é o mesmo ser um traficante de drogas em Manhattan do que um de um bairro pobre de Houston (Texas)" e é por isso que você precisa se adaptar ao ambiente.

"Não é que eles estejam atrás de um escritório ou estabelecidos, observando o movimento de narcóticos, mas estão ligados aos lugares onde estão", explica ele.

Esquivel acrescenta que é por isso que eles não são ostensivos e optam pelo perfil discreto, não podem atrair atenção porque há muito controle e, se um deles for detectado, sofrerá sanções e perda de dinheiro.

"Eles agem com muito cuidado, porque nos Estados Unidos existem diferentes instituições policiais, além de agências federais."

Túneis de transferência de drogas transfronteiriços cada vez mais sofisticados foram detectados nos últimos anos.
Túneis de transferência de drogas transfronteiriços cada vez mais sofisticados foram detectados nos últimos anos.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

3. A teia de aranha

Como assinalado, o primeiro elo da cadeia é o comprador atacadista que compra substâncias controladas que chegam da América Latina, Ásia e outras partes do mundo.

A partir daí, uma rede de grupos e prestadores de serviços continua, estendendo-se aos mercados nos mais de 9 milhões de quilômetros quadrados que os EUA possuem.

As estimativas mais conservadoras sustentam que a cocaína por si só movimenta mais de US$ 100 bilhões naquele país.

Outras substâncias consumidas no país são maconha (legal sob diferentes modalidades em alguns estados), metanfetaminas, heroína e fentanil (opioide para dor), cujos níveis de mortalidade alarmaram os Estados Unidos.

Jesús Esquivel ressalta que, entre os compradores em massa, existem clubes de motoqueiros que têm ramificações em muitas cidades e, portanto, são difíceis de detectar.

"Um cartel move toneladas de cocaína, mas ao entrar nos Estados Unidos, milhares de americanos são responsáveis pela distribuição dessas toneladas em partes cada vez menores. É como uma teia de aranha, é por isso que é tão complicado", diz ele.

O pesquisador dá como exemplo dessa dificuldade a transferência das substâncias químicas que chegam da China para os Estados Unidos.

"A droga passa por diferentes estágios até chegar ao mercado que a demanda. A distância para a demanda por drogas não existe", conclui.

Por seu lado, o professor Zuleta ressalta que é nesse ponto que as gangues entram em ação.

"Existem hierarquias específicas e elas não são homogêneas, é claro, mas obviamente elas têm capacidade econômica, capacidade de corrupção e suborno", diz ele.

O pesquisador acrescenta que, a partir daí, são contratados distribuidores de varejo, transportadores para atingir consumidores (que nos Estados Unidos são mais de 4 milhões).

Apesar das informações existentes, ainda não se sabe o suficiente sobre os traficantes de drogas americanos.
Apesar das informações existentes, ainda não se sabe o suficiente sobre os traficantes de drogas americanos.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

4. O papel dos mexicanos nos Estados Unidos

O DEA, em seu relatório anual de 2019 "Avaliação Nacional de Ameaças às Drogas", reconhece a existência de grupos "criminosos e gangues locais" vinculados ao negócio de drogas.

"Eles colaboram diretamente com grupos criminosos e gangues locais nos Estados Unidos para distribuir e transportar drogas no varejo", observa o relatório.

Portanto, especialistas apontam que a entidade dá muito mais destaque aos membros mexicanos das organizações criminosas transnacionais presentes em seu país e minimiza suas máfias locais.

Por exemplo, a agência anunciou em abril deste ano que detectou um "túnel sofisticado" que partia da fronteira mexicana e chegava à área de San Diego, no sudeste dos EUA.

Sua peculiaridade é que foi a primeira vez que a carga apreendida incluiu vários tipos diferentes de drogas: cocaína, heroína, maconha e fentanil no valor total de US$ 29 milhões.

Outra descoberta recentemente anunciada pela agência dos EUA é que ela teria identificado "oito grandes centros de transporte de metanfetamina", a maioria deles no sul dos EUA.

A peculiaridade é que, em ambos os casos, o DEA atribuiu praticamente toda a responsabilidade aos grupos de drogas mexicanos, apontando que eles operam em "várias células às quais são atribuídas funções específicas, como a distribuição ou transporte de drogas, consolidação de sua entrada ou lavagem de dinheiro".

"As operações mexicanas nos Estados Unidos geralmente funcionam como uma cadeia de suprimentos: os operadores da cadeia conhecem seu papel específico, mas desconhecem outros aspectos de uma operação", afirma a agência.

Sobre o assunto, Falko Ernst, um dos principais pesquisadores do centro de estudos International Crisis Group, que faz análises sobre conflitos no mundo, rejeita que sejam os mexicanos que controlam todos os elos da cadeia até chegarem ao comprador final.

Assim como Zuleta e Esquivel, o especialista destaca o papel de gangues, máfias locais e clubes de motoqueiros dentro do sistema de distribuição.

Segundo Ernst, o que existe é um "modelo misto", no qual há participação mexicana nos diferentes níveis de hierarquia e protagonismo em diferentes estágios e lugares.

Ele explica que a presença de representantes de organizações criminosas mexicanas nos Estados Unidos não se limita apenas ao envio de representantes, mas que nada se sabe sobre nenhum dos verdadeiros capos que operam daquele lado da fronteira.

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