Novas nomeações para cargos estratégicos no Irã expõem tensão entre pragmáticos e linha-dura
O governo iraniano anunciou no domingo (9) e na segunda-feira (10) as nomeações de um novo secretário-geral para o Conselho Supremo de Segurança Nacional e de um novo comandante das Forças Armadas, oriundo da Guarda Revolucionária do Irã. Essas nomeações confirmam as suspeitas de tensões dentro do aparato estatal iraniano e reforçam o controle dos setores religiosos e da linha dura sobre o poder, indicam analistas ouvidos pela RFI.
Paul Lorgerie, da RFI, em Paris
Mohsen Rezaei, ex-chefe da Guarda Revolucionária, assume o cargo de secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, a mais alta instância de segurança do país, que conecta os setores civil e militar. Sua nomeação foi anunciada no domingo.
Na segunda-feira, o líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, nomeou o general da Guarda Revolucionária Ali Abdollahi para chefiar o Estado-Maior das Forças Armadas. Até então, Abdollahi comandava o quartel-general central Khatam al-Anbiya, uma das principais estruturas de coordenação militar do país, responsável por supervisionar operações conjuntas. Sua chegada ao posto reforça a influência da Guarda Revolucionária, a poderosa força militar ideológica da República Islâmica, sobre a cúpula militar iraniana.
O líder supremo também nomeou o general de brigada Ahmad Vahidi para o comando da Guarda Revolucionária Islâmica. Com a promoção, ele passa a ostentar a patente de major-general.
Essas foram as primeiras nomeações militares de alto escalão feitas por Khamenei desde que assumiu como líder supremo, no início da guerra no Oriente Médio, após a morte do pai em ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel.
Mudança de rumo no cenário internacional
As nomeações de dois aliados próximos do líder supremo para posições estratégicas sugerem que existem divergências de opinião no mais alto escalão do Estado iraniano, segundo analistas entrevistados pela RFI. Com Mohsen Rezaei na direção do Conselho Supremo de Segurança Nacional e Ali Abdollahi no comando das Forças Armadas, o Irã poderá promover uma mudança de rumo diplomático no cenário internacional.
No domingo, alguns meios de comunicação iranianos já haviam antecipado a iminente renúncia do então secretário do Conselho Supremo, Mohammad Bagher Zolghadr, que estava no cargo desde março de 2026. Zolghadr, também ex-general da Guarda Revolucionária, havia sido nomeado após a morte de Ali Larijani em um bombardeio norte-americano, em um primeiro sinal de firmeza do poder iraniano. Ao que parece, ele não convenceu plenamente o regime dos aiatolás.
"Embora Zolghadr não fizesse parte do campo reformista, recentemente havia um processo de aproximação entre ele e o governo", afirma o sociólogo franco-iraniano exilado Didier Idjadi. O especialista faz referência aos setores favoráveis a uma solução diplomática para o conflito com os Estados Unidos.
Na realidade, a saída de Zolghadr do cargo já havia sido sugerida por pessoas próximas ao líder supremo.
Massoud Pezeshkian enfraquecido
A renúncia de Mohammad Bagher Zolghadr foi noticiada por um porta-voz da Presidência iraniana na rede X, poucas horas após o anúncio de uma rara reunião entre o líder supremo, Mojtaba Khamenei, e o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian. No mesmo comunicado, o assessor presidencial informou que Pezeshkian indicava Mohsen Rezaei para o cargo.
A escolha do secretário do Conselho Supremo cabe tradicionalmente ao presidente da República Islâmica. Mas, no domingo, a conta no X atribuída ao "Aiatolá Mojtaba Khamenei" antecipou o anúncio da nomeação de "Rezaei, destacando sua valiosa experiência, para ser meu representante no Conselho Supremo de Segurança Nacional". Na prática, a saída de Zolghadr do cargo já havia sido sugerida por pessoas próximas ao próprio líder supremo.
O gesto foi interpretado como mais um sinal do fortalecimento gradual do controle religioso sobre o Estado, com o objetivo de conter as iniciativas do presidente.
Defensores da diplomacia contra conservadores
Duas grandes correntes se enfrentam hoje no topo do poder iraniano. De um lado estão os defensores da diplomacia, representados pelo presidente Massoud Pezeshkian e por Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e principal negociador da delegação iraniana nas conversações com os Estados Unidos.
Do outro lado estão determinados religiosos e membros da Guarda Revolucionária, adeptos de uma postura de "linha dura" e contrários a qualquer negociação com os países ocidentais envolvidos no conflito.
Embora esses dois grupos estejam longe de ser homogêneos, "Mojtaba aparentemente é favorável a uma abordagem mais rígida e, portanto, à rejeição das negociações", observa Didier Idjadi.
O protocolo de entendimento para um cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, assinado em 18 de junho e amplamente criticado no país, teria intensificado essas divisões. Durante a votação no Conselho Supremo, apenas um dos doze integrantes presentes teria se oposto à ratificação do acordo. O voto contrário foi o do representante do líder supremo no órgão.
A promoção de Mohsen Rezaei, que até então atuava como conselheiro militar de Khamenei, seria também uma forma de "conter a influência excessiva de Mohammad Bagher Ghalibaf", segundo Hamidreza Azizi, especialista em segurança iraniana citado pelo jornal norte-americano New York Times.
Rede de influência
Em uma publicação na rede X datada de 3 de agosto, Mohsen Rezaei advertiu que "se o bloqueio naval dos Estados Unidos continuar, navios e forças norte-americanas enfrentarão sérios riscos e sofrerão perdas". Essa é apenas uma das várias ameaças feitas por ele em pronunciamentos públicos.
Aos 71 anos, ex-comandante da Guarda Revolucionária entre 1981 e 1997, Rezaei personifica a linha-dura defendida pelo líder supremo e possui uma ampla rede de influência dentro das estruturas do poder iraniano, algo que seu antecessor não tinha na mesma dimensão.
Sua trajetória vai muito além das atividades militares durante a guerra Irã-Iraque. Candidato derrotado em várias eleições presidenciais, ex-ministro da Economia e figura conservadora de atuação multifacetada, Rezaei construiu relações em diversos círculos de poder do Estado.
"A característica que talvez melhor defina a carreira política de Rezaei é sua capacidade de transitar entre a linguagem da coerção militar e a da negociação política", destaca Mohammad Ghaedi, pesquisador de ciência política da Universidade George Washington, em seu blog.
Com Ali Abdollahi e Ahmad Vahidi ao seu lado, recém-nomeados, respectivamente, chefe do Estado-Maior e comandante da Guarda Revolucionária, e ambos integrantes do Conselho Supremo de Segurança Nacional, a visão mais belicista defendida pelo líder supremo pode acabar prevalecendo sobre os esforços de negociação e paz.
Essa estratégia, ainda pouco transparente, poderá provocar atritos com o imprevisível presidente norte-americano. "Como isso evoluirá daqui a um mês ou dois meses?", questiona Didier Idjadi. "Hoje, a rede de Rezaei domina, mas alianças são formadas e desfeitas, e as correlações de força também podem mudar no futuro", conclui, com cautela, o sociólogo.
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